Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

1917–2007 · viveu 90 anos BR BR

Gerardo Mello Mourão foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro, figura proeminente da poesia do século XX. A sua obra é marcada por uma linguagem densa e uma profunda reflexão sobre a condição humana, o tempo e a memória. Com um estilo erudito e ao mesmo tempo acessível, Mello Mourão deixou um legado poético significativo, explorando temas universais com uma sensibilidade singular.

n. 1917-01-08, Ipueiras · m. 2007-03-09, Rio de Janeiro

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Cantor de cântaros

Cantor de cântaros
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.

De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.

E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:

Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.

E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.

Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Gerardo Mello Mourão foi um poeta, jornalista, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro. Foi um intelectual engajado e um dos nomes importantes da poesia brasileira da segunda metade do século XX.

Infância e formação

Filho de famílias tradicionais, teve acesso a uma educação privilegiada. Desde cedo, demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências da literatura clássica e moderna.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se formalmente com a publicação de seus primeiros poemas em jornais e revistas literárias. Ao longo da vida, publicou diversos livros de poesia, consolidando seu estilo e sua voz autoral. Atuou também como jornalista e crítico literário, participando ativamente do cenário cultural brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Mello Mourão caracterizam-se pela erudição, pela busca de precisão vocabular e por uma profunda reflexão sobre temas como o tempo, a memória, a morte e a condição humana. Utiliza recursos como a metáfora e a aliteração para criar um universo poético denso e evocativo. Seu estilo pode ser associado a uma corrente mais intelectualizada da poesia, mas sem perder a capacidade de comover o leitor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mello Mourão viveu um período de efervescência cultural no Brasil, marcado por transformações sociais e políticas. Participou de debates intelectuais e literários de sua época, mantendo contato com outros escritores e artistas. Sua obra reflete, por vezes, as tensões e inquietações do Brasil do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gerardo Mello Mourão manteve uma vida discreta, dedicada em grande parte aos seus estudos e à sua produção literária. Era conhecido por sua erudição e por seu rigor intelectual. Sua vida pessoal esteve intrinsecamente ligada à sua paixão pelas letras e pelo conhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado a mesma popularidade de outros poetas de sua geração, Gerardo Mello Mourão sempre foi respeitado pela crítica e por um círculo de leitores mais atento à poesia de qualidade. Sua obra é considerada um importante acervo da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra dialoga com a tradição da poesia brasileira e universal, com influências que vão de poetas clássicos a modernos. O legado de Mello Mourão reside na sua contribuição para a poesia brasileira com um estilo único e uma profundidade temática que continua a ressoar entre leitores e estudiosos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mello Mourão é frequentemente analisada pela sua complexidade formal e temática, explorando a fugacidade do tempo e a busca por sentido em um mundo em constante mudança. Sua poesia convida a uma leitura atenta e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Gerardo Mello Mourão faleceu no Rio de Janeiro, deixando um importante legado literário. Suas obras continuam a ser publicadas e estudadas, mantendo viva a sua memória e a relevância de sua poesia.

Poemas

46

Olho com olho

Olho com olho
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas

Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro

Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim

caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias

Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio

E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.

1 228

E risco e arrisco as fronteiras

E risco e arrisco as fronteiras
East Side
West Side
por Lexington com seus caimãs e javalis
e entre as pombas trigueiras do país do sul
arrulha a noite do Harlem
e um saxofone de vestido verde
rebola as ancas saudosas
de Trinidad-Tobago
Calipso
and Calíope
e requebrando à morte — Dallas, Texas
sobre o seio de Helena
flutua ensangüentada a rosa de Aquileu:
— Alagoas!
Alagoas!
pelos Alleghanys pelos Apalaches
a caminho de ti me sepultei
no sepulcro das neves e das cataratas
pelos parques de Buffalo onde Marcuse a Tânatos
do tonel de Diógenes erguia
a cabeça elegíaca de onde
do meio de sua queda a catarata de meu pranto a Eros
voltava e remontava o penhasco
clamando entre os ciprestes
a viuvez das Musas.

E vêm chegando e vou me despedindo
em Nova York houve um cantor — good night
good night, sweet Prince, mad Prince:
Dylan Thomas morto e bêbado
suplica em minha cama os inocentes pés
para o rastro
de seu silêncio e sua lágrima:
em Nova York, Ezra, houve um cantor —
adeus, príncipe bêbado,
houve um cantor
e houve uma fêmea
e à espuma do Gênesis
descobriu entre as coxas surpresas
a ressurreição da rosa
alegrada ao tato
à mão à seta à flauta de ouro
— "good morning, darling" —
e vou ressuscitando rosas mortas
e vou me despedindo
e a noite às vezes tem a redondez de um seio
pois chegavam de Aruba e da Jamaica e ali
o travesti francês arrisca as açucenas
seu passo galgo esgalga a tarde
e vou me despedindo
e as clarinetes memoráveis
orvalham a memória — e vou me despedindo — e rosto
e mão vou modelando:
sou o senhor e o sabedor dos gestos
criei meu próprio rosto
e minha própria voz
e por isso me olham e me escutam
e gerânio o cavalo a rapariga
e quebra Apolo a flecha à porta da cabana

Boa noite, Melpômene, Calíope
boa noite
Eleuth
eros
eria.

941

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:

Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.

Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:

pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea

Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas

pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.

1 121

No caminho de Aretusa

No caminho de Aretusa
Hellas
elas
me iniciaram na língua e no alfabeto da língua:
sabem agora os engenheiros e os empreiteiros:
fui eu o ausente na torre de Babel
guardo a letra o dissílabo o fonema
e as chaves da sintaxe:
— enquanto
os povos se desentendiam em torno
da areia e da argamassa
e esqueciam o verbo e o advérbio
nosotros recusamos
a vã alvenaria
ficamos de serviço, Efraín, com as nove meninas
trabalhando na boca as promessas de amor
em que sois mestre, Apolo:
na sesmaria de violetas e girassóis por onde
o ditongo maiêutico e a vogal eólia
nominam nome e nume
a Euterpe e às outras
ao gavião e à pomba e à brisa
e ao pêssego e à mulher
e ao arco à flecha ao trigo ao vinho à abelha à fava ao favo
e Artemis e Afrodite
e Eleu
theria.

Quem se esqueceu pode lembrar-se
e a semente da letra em sua leiva Linos
faz florescer em Lambda e lírio
— "Do you speak english"?
— "No, darling",
não estive na torre de Babel
lambda loquor et lillia convallium
e entendo a água o ar o fogo o azul
e Lúcia e Laura e Léa
e Luciléa e Lauriléa
e Lucilauriléa
e os cavalos e as éguas relinchando
na madrugada de Pajeú das Flores
e o motim de amor
dos gatos no telhado de Iolanda

Não estive em Babel — estive
em Delfos e em Pentecostes
e a Musa e a Virgem-mãe
Mariamusa — Maria Leto Letícia
repartiram comigo a língua de fogo
e só ela conheço e tenho
o dom da língua
e me entendem o hebreu e o gentío
e seus dialetos voltam
à fonte e à flor
et fons et flos
dos tempos aurorais e a silaba da aurora
posou-me sobre a sílaba dos lábios
beijou-me a boca e neste beijo
lateja o paladar de um deus
e os outros deuses
massacram meu coração e as moiras
me plantam a demência na cabeça:
invejado dos deuses
"invejado a invejar os invejosos" — João —
testemunho a beleza e canto
a possessão de seu corpo
e adúltero da adúltera
choro a noite infiel
Afrodite Helena Eleu
theria
trina teu nome trino
pelas montanhas
do país de Apoio onde pisaste
as amoras maduras

Cobrem- me o palitó as borboletas e as libélulas
e aos lábios sábios de teu nome os beija-flores
chegam e digo
Mel
po
len
me
ne
e é
de mel
a nossa lua
desde

neiro
a janeiro
es
cravo
desse tufo de cravinas
na virilha em flor por onde a sílaba
da rosa pestaneja a pálpebra
e balbucio
o cio
verbo gerúndio e gerundivo
das intatas auroras
videndus videnda videndum videndi
video videmus videtur videbam
visionem
visa visione
ablativo absoluto
declino a Musa
Musae
Musaram
Musis
e o Musageta.

1 048

Violava as borboletas e as violetas

Violava as borboletas e as violetas
lhe floresciam onde
as abelhas cercavam a sagrada colmeia:
Laura celebrava os ritos
e as outras concelebravam — pois
as bochechas cheias de esperma
Salústia e Beatriz borrifavam as alfaias
— manejava Mônica o estrangulado príncipe
com as sementes leitosas aspergindo
pupila umbigo e seio
orvalhavam gotas de opalina as axilas peludas
mas Laura
celebrava os ritos:
ao clarão do falus
ao mergulho litúrgico
celebrava os ritos
na rua Paula Freitas
sacrifício de lírios e verbenas
nas tardes pluviais
serviço de Perséfone e Afrodite
esmagada na relva a boca
na boca a relva:
o macho à fêmea a fêmea ao macho
imolados à súbita Ginandra

vinham cantando à primeira semente
de Apolo Ginandreu
— pois Laura
celebrava os ritos
nos quadris em flor

E deitado no mel das brisas flamejantes
ego poeta começo o canto e digo:
— "já nada mais existe, Apolo, e apenas somos
na primavera do tempo
quadris em flor" — e Laura
celebrava os ritos.

Quando
as borboletas violavam as violetas
inauguravam os áugures o augúrio
e as palavras pereciam no lábio
esquecidas de si mesmas
a sós contigo, Apolo,
e com a ninfa da vida e com a ninfa da morte
murmurei o sopro da inefável canção:
— pois somos celebrados enquanto
Laura celebra os ritos.

Mestre de cerimônias o poeta oficia
a cerimônia do silêncio:
o canto é seu ofício — mas
o imolador se imola enquanto
Laura celebra os ritos

Um a um vêm os deuses chegando
ao banquete da própria morte
e da ressurreição — pois Laura
moribunda e nascitura Laura
agoniza a agonia de nascer de novo
e ao ritmo e à tempestade de seu corpo o poeta
celebra os ritos —
e ali
começa a nossa coisa cosa nostra, Apolo,
de nossa raça:
ego poeta sacerdote e vítima
celebrado celebro a celebrante
e o espaço
perde a sua medida
e o tempo
perde a sua duração
pois Laura
celebra os ritos:
brota de minha cabeça o cometa
de seus cabelos e sob
a torrente de seus cabelos meus olhos
fitam o príncipe erguer
da maçã de seus oasis de relva
a cabeça da rosa
e ali
a derradeira súplica o suspiro e o pranto
pois Laura
despetalada
recompõe a rosa — Laura
celebra os ritos.

Desaprendi teus outros nomes
e na sabedoria do esquecimento
invento as novas sílabas
— Laura te digo
e à minha língua sábia
de teu próprio humus de tuas folhas te ergues — Laura
celebrando os ritos

Então começa — então termina
Laura
então se perde —então se busca
Laura
e neste chão o meu sepulcro e a minha fonte
de minha morte jorro e piso
minhas pupilas derelictas:
pois no rastro de Apolo
Laura celebra os ritos.

1 084

Tu me pediste notícias da Grécia:

Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.

E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?

Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.

E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas

e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:

respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —

‘E AEYOEPÍA

e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:

de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.

Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.

Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.

Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.

pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
1 149

Pange língua gloriosi

Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.

Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor

Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias

As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo

E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno

no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"

escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome

In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde

no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope

a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até

1 252

Nasci tocando viola

Nasci tocando viola
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras

As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.

Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.

E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus

Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.

Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.

Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão

Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu

Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.

Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.

Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.

Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:

Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.

Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.

Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.

Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.

E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.

É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.

Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.

Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.

E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.

Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.

Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.

Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.

Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.

Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.

Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.

De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.

Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,

Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.

Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.

A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.

Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.

Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.

Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.

Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,

Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.

Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.

Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.

E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.

Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.

Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.

Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
1 262

Alexandre cavalga

Alexandre cavalga
e às vezes é
a bússola amorosa dos anjos
e ao aroma dos jasmineiros o aroma
da nuca de Carmen, do botão dos seios
de Margarida e de Francisca
e às vezes é a bússola do ódio
e dia e noite e noite e dia através
noites e dias
Alexandre cavalga:
e os cavalos cansados param mortos
e o coração cavalga a fúria
e seu rastro se chama vingança.

Vicente Lopes de Negreiros
a raça de André Vidal de Negreiros
matara de tocaia a Manuel, irmão de Alexandre Mourão
e à sombra de uma palmeira da Serra dos Cocos
tinha dezesseis anos
o corpo ensangüentado do adolescente moreno
era belo e terrível e seus olhos
vidrados
pediam vingança ao irmão.

Vicente de Negreiros, chamado Vicente da Caminhadeira
furou o mundo e Alexandre
Mourão no rastro dele
andou duas mil léguas e o Maranhão
e o Piauí e o Ceará e o Rio Grande e Pernambueo e a Paraíba
celebraraxn o tropel de seu cavalo
o furor de sua vendetta
e o trom de seu bacamarte de boca de sino
e os sinos dobraram por duzentos mortos
e os soldados de Xenofonte — Anábasis — não podiam dormir
por causa da tristeza e da saudade

"ouvindo o tiro, nós que estávamos na luta, corremos e achamos nosso irmão morto
e não pudemos mais dormir
ali o deixamos e
fizemos todas as diligências
e não foi possível achar mais o assassino
nesta mesma noite segui em procura
e depois de sete dias e sete noites de minuciosa diligência
informaram estaria sob a proteção do Tenente Coronel João da Costa Alecrim e do tio
Vigário Manuel Pacheco Pimentel, em Vila Nova
risquei o cavalo na porta do Vigário
e de sua alpendrada trinta e oito dias de viagem num cavalo bralhador
até Pedras de Fogo — extremas da Paraíba e Pernambuco
de lá noventa dias a cavalo ao Piauí
e em noventa noites o sertão
espreitado palmo a palmo conheceu
o ódio sábio e inútil de meus olhos:
terral, aracati, nordeste, graviúna, todos
os ventos do país dos Mourões a crina
de meu cavalo conheceu.

O Coronel Diogo Salles comprara um sítio para situar-se no Maranhão aonde se mudara
por certos desgostos:
Coronel Diogo, filho de meu parente Capitão Xavier, a
quem assisti em seus desgostos,
é possível esteja o inimigo em sua Fazenda do Serrote?
— Nem no Serrote do Piauí nem no Serrote do Ceará
e se acaso meu pai o acolheu
não o há de matar na rede de hóspede
mas vai pô-lo a caminho quando saiba
quem é Vicente da Caminhadeira.

— Não, meu parente, não se apeou à minha porta.
E na Fazenda Santa Cruz, a caminho de Quixeramobim,
dois de seus cabras se entregaram à morte de joelhos aos pés de minha
madrinha Francisca
e ela mandou espreitar a casa e as fazendas do Capitão-Mor Lessa
e em cinco dias e cinco noites de espreita — nada;
passei a Crateús e por suspeita
voltei ao Serrote do Capitão Salles
passei a noite ao pé da casa espreitando os movimentos dela
e entrei no alpendre com o primeiro sol
fui honrado pelo Capitão, comi sua coalhada, o requeijão e a tapioca
descansei em rede cheirando a capim santo
segurei-me com o velho ele não proteger Vicente Lopes
que enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele.

Talvez o bandido esteja na casa do sogro em Poço dAgua:
foram vinte e nove dias até Poço dAgua, Piauí,
com os cavalos, os vaqueiros e a matutageiú de meu irmão Eufrosino:
tomei o velho de improviso e nada achei
apertei-o pelo genro, descobriu que há seis dias
dali tinha partido a chamado do Alecrim
que saía tal dia de muda para Pedras de Fogo, Paraíba,
voltei, segui ao Alecrim

antes de chegar a Vila Nova soube que estava no Serrote do velho Salles
ali mesmo fui procurá-los
Vicente da Caminhadeira estava fora da casa invadida por minha fúria
o Coronel Alecrim escapou num paiol de algodão, onde perdeu o nariz que era suposto:
nada fiz e fico contando com mais dois inimigos fortes.

Voltei para Pitombeiras, fazenda de meu irmão Eufrosino, sete léguas,
ia despachar um positivo a Pedras de Fogo
chega uma carta de mulher, inimiga de Vicente Lopes:
— "quer notícias certas, me apareça — "
apareço
apresentou-se um homem
vinha de Nossa Senhora do Ó e dava certeza de estar Vicente Lopes
na Vila de Igarassu, Pernambuco
voltei, preparei-me e segui para Igarassu
pois enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo onde quer que soubesse dele

E depois de duzentas e tantas léguas de viagem
cheguei a Nossa Senhora do Ó
tomei a casa de meu parente, Capitão André Cursino Cavalcanti
e aconselhou-me:
devia seguir para o Engenho Monjope, de nosso parente, Capitão-Mor João
Cavalcanti de Albuquerque
o senhor mais rico e forte daquelas terras
contei-lhe meu destino
não quis mais que eu saísse:
seus homens é que vão a Igarassu para a missão
e um dos meus para reconhecer:

Vicente Lopes estava tocando viola num forrobodó
— "é aquele":
os homens de meu parente dão duas voltas no salão e o tocador de viola cai
com o peito varado e a bala ainda traspassou o coração de uma rapariga da festa:

na sala grande do Engenho Monjope
o Capitão-Mor abriu a garrafa de vinho do Porto
bebemos em honra de meu defunto irmão
e a Sinhá acendeu no oratório uma vela
à sua alma desagravada.

"Capitão, antes de voltar, quero ir eu mesmo a Igarassu
enfiar o dedo e o cano de minha garrucha no buraco da bala de Vicente Lopes de
Negreiros"
chamou de novo os homens que juraram:
"vá em paz, meu parente, o morto é morto e se ressuscitar em qualquer parte,
de Pedras de Fogo para cá, terras de Pernambuco,
deixará de ser vivo:
vá em paz, os meus homens não mentem"

E depois de onze meses
considerei
descansar meu irmão na sepultura e minha
fadiga em minha casa:
meu pai deu provimento.

Naquele tempo
preparava Eufrosino uma cavalaria para Vila dos Brejos
e Antônio Mourão urna outra
para ir a Caxias, Maranhão:
lá podia comprar terras de uma herdeira de meu avô
anexas às de meu pai e eu podia
escolher um sítio e situar-me entre os irmãos.

Vicente Lopes havia passado a viola
e dançava na sala
o outro tocador morreu por ele
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer que soubesse dele,

Soube na Boa Esperança e não estava
soube em Uruburetama
meus homens andaram vinte e oito léguas desde Vila Nova
e meu pai recebeu uma carta:
"Menezes e Vicente da Caminhadeira tiveram notícia de que
Antônio e Alexandre Mourão
atravessaram o rio Parnaíba com trinta e um cabras armados, rumo a Poço dAgua"
mandei quatorze homens à Capela dos Humildes
um tiro empregou a bala na carne de meu ombro
a luta a ferro frio durou das três às seis da tarde
e o sangue dos irmãos e dos cabras de Vicente Lopes empapara o curral
e ele fugira
e enquanto eu vivesse, meu serviço era procurá-lo, onde quer soubesse dele

nem o cadáver de seu irmão entre os garrotes assombrados e as varejeiras
lambendo sangue
valia o corpo airoso de Manuel
Segui para Capela, Residência, Pequizeiro e Boa Esperança
esquadrinhava sozinho as grotas da serra e um morador me advertiu a medo:
— "meu Senhor, não siga por este caminho, que os logares estão semeados de
Mourões"

e a semente do a
1 302

Divididos os idos in dimidio dierum meorum

Divididos os idos in dimidio dierum meorum
vadam ad portas inferi
in dimidio dierum midnight
she knocked at the door in Chelsea à porta
do coração — nos assombrados olhos
tacebit pupfila in oculo meo
e bato à porta do inferno e bato
ad portam paradisi
e aos surdos anjos e aos demônios surdos
emudece no olho a pupila — a minha —
e de olho a olho
sidera
considera:

considerei os astros, Musa,
Musa, Palatini referamus Apollinis aedem:
ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder
entre os lençóis de linho e os limões verdes
floresciam as sardas ao redor de teus seios
tua beleza ferruginosa suplicava
os ruivos travesseiros:
chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua
chegava por Santa Clara
Ariston
in dimidio dierum meorum:
pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite
per talos
me Veneram quaerente:
e era uma vez a Infanta do crepúsculo
seus cabelos pesavam nove libras de ouro — e era uma vez
o céu de Coritiba e o vestido escocês
e era sempre Isabella
e o vento vindo de novembro pelo Paraná
me Venerem quaerente
pois quérulo me vou pelas veredas
buscando Vênus:
e onde tornozelos
— ancas
onde ancas
— tua cintura fina
onde tua cintura
— a dança
onde a dança
— Afrodite
e por ali
rastro de Apolo
poetae Venerem quaerenti — Apolo
no inventado rosto
inventa o coração

Chegávamos de junho e julho e agosto
vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes
cavalgávamos serras de saudades — outras
partíamos da noite enluarada
e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu
na saudação ao poeta:

palmilhado o silêncio
no rumo da palavra
e onde sua sílaba
por alí Apolo
ludum ludendum ludens

e quando a madrugada explica a rosa
se explica o coração na pálpebra explicada:
mas ai de ti, Louis,
Louis Alphonse Donatien
na boca encarcerada morde
o cerrado botão da rosa muda — e queima
nos olhos moribundos queima a antífona
do próprio requiem —
mas Apolo
desabrocha à lira
a louvação da flor:
a corola celebra teus cabelos
a virilha celebra nome e nume
e este é o ludus do amor
a delta digo ao teu ouvido D e fundo
o alfabeto
em Lambda Delta Beta Kappa:
e assim te chama a língua sábia
o lábio o seio o umbigo a orquídea
a curva pígia
— por isso
uma noite me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado
e à negra relva o milagre de teu sopro
o ergueu de novo
e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos comiam as rodelas decepadas
mas és mágica e cem vezes
mil vezes
traziam das entranhas e entre antúrios
em seu pendão de cana florescia de novo
a cabeça do príncipe perene
no júbilo do orvalho entre os antúrios

E muita noite
quebrada a flauta
não cessava a melodia — tenho lábios
viciosos de música e de sopro
entre os dedos

teu corpo no ar
e de horizonte a horizonte
modulada canção se desferia
da fonte do desejo — pois ali
nessa clave de lua era soprada a rosa:

E sopro a flauta a rosa súplice
e a canção te compõe e decompõe
de seio a seio

Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha
toureio o touro da palavra
picador banderilheiro
no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba
do coração — e os olhos
guardam gota a gota
a espada matadora
pois tourovelha toureirotouro
arrebanha rebanho vivo
rebanho à morte —
e um dia
há de restar de mim o pranto de Erifânia.

Erifânia!. Erifânia!

Pois busco ovelha por ovelha
e touro a touro enfrento
y me aúlla la perra
Maira la perra
um morto um vivo um touro —
e salto
picador de ditongos e tritongos
sou o amante das Fúrias Eríneas
Eumênidas
Eumênidas
pica —
dor
me castraram de novo
e me busco no ventre das Eríneas
e encontro ao ladrido da perra
Erígona
e Erifânia —
— Erifânia
canta a dor adorada — picador do touro
pica as fúrias amadas
entre as doces ovelhas ao ladrido
de la perra Maira farejando
dissílabos trissílabos tetrassílabos
e chego ao pentassílabo per talos

a brisa violeteira violava
os irados cabelos dessa Moira
e ela ao vento favônio
— Musae, favete —
lavava o favo das pupilas de mel:
mas quem se esqueceria de teus olhos
Isabela Isavela
quem desse verde navegado pelas
borboletas em cio?

Pela perra Maira
a língua varada pela lança
por Maira e Moira
por Erígena e Erifânia e as Eumênídas
Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas
vou lendo o chão.

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