Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

1917–2007 · viveu 90 anos BR BR

Gerardo Mello Mourão foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro, figura proeminente da poesia do século XX. A sua obra é marcada por uma linguagem densa e uma profunda reflexão sobre a condição humana, o tempo e a memória. Com um estilo erudito e ao mesmo tempo acessível, Mello Mourão deixou um legado poético significativo, explorando temas universais com uma sensibilidade singular.

n. 1917-01-08, Ipueiras · m. 2007-03-09, Rio de Janeiro

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Coronel, estou vendo neste momento

Coronel, estou vendo neste momento os
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore

e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.

O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.

Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Gerardo Mello Mourão foi um poeta, jornalista, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro. Foi um intelectual engajado e um dos nomes importantes da poesia brasileira da segunda metade do século XX.

Infância e formação

Filho de famílias tradicionais, teve acesso a uma educação privilegiada. Desde cedo, demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências da literatura clássica e moderna.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se formalmente com a publicação de seus primeiros poemas em jornais e revistas literárias. Ao longo da vida, publicou diversos livros de poesia, consolidando seu estilo e sua voz autoral. Atuou também como jornalista e crítico literário, participando ativamente do cenário cultural brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Mello Mourão caracterizam-se pela erudição, pela busca de precisão vocabular e por uma profunda reflexão sobre temas como o tempo, a memória, a morte e a condição humana. Utiliza recursos como a metáfora e a aliteração para criar um universo poético denso e evocativo. Seu estilo pode ser associado a uma corrente mais intelectualizada da poesia, mas sem perder a capacidade de comover o leitor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mello Mourão viveu um período de efervescência cultural no Brasil, marcado por transformações sociais e políticas. Participou de debates intelectuais e literários de sua época, mantendo contato com outros escritores e artistas. Sua obra reflete, por vezes, as tensões e inquietações do Brasil do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gerardo Mello Mourão manteve uma vida discreta, dedicada em grande parte aos seus estudos e à sua produção literária. Era conhecido por sua erudição e por seu rigor intelectual. Sua vida pessoal esteve intrinsecamente ligada à sua paixão pelas letras e pelo conhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado a mesma popularidade de outros poetas de sua geração, Gerardo Mello Mourão sempre foi respeitado pela crítica e por um círculo de leitores mais atento à poesia de qualidade. Sua obra é considerada um importante acervo da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra dialoga com a tradição da poesia brasileira e universal, com influências que vão de poetas clássicos a modernos. O legado de Mello Mourão reside na sua contribuição para a poesia brasileira com um estilo único e uma profundidade temática que continua a ressoar entre leitores e estudiosos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mello Mourão é frequentemente analisada pela sua complexidade formal e temática, explorando a fugacidade do tempo e a busca por sentido em um mundo em constante mudança. Sua poesia convida a uma leitura atenta e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Gerardo Mello Mourão faleceu no Rio de Janeiro, deixando um importante legado literário. Suas obras continuam a ser publicadas e estudadas, mantendo viva a sua memória e a relevância de sua poesia.

Poemas

46

Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros

Nem sempre vinham imperadores a nossos enterros
naquele tempo
mas nunca deixamos nossos mortos insepultos
insepultos eram os temerários
que ousaram nossa terra e nosso punho.

O Padre Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar, governava a província
in illo tempore
a província era governada por um padre endemoniado, adúltero, covarde e por covarde
invejoso dos bravos que troavam livremente o clavinote pelos pés-de-serra dos Mourões
do pé-da-serra
e emprenhavam suas fêmeas ao ar livre
e eram fortes e belos e bons.

Este papel amarelo é uma carta de seu tetravô: encomenda doze caixas de vinho
francês outras doze de cognac de la ville de Cognac
para a fartura de sua mesa de caitetus, marrecos e veados e atas
maduras graviolas silvestres, cajás, cajus, melancias e ananazes no país dos Mourões
e biscoitos de Jacobs, London,
para as mulheres de sua casa
e por essas fidalguias
o biltre do Alencar decreta:
seja afogado em sangue o país dos Mourões.

Meus engenhos foram queimados
queimados vivos os garrotes de meus currais
ainda hoje nossas terras cheiram
a carne assada a mel queimado
à la viande flambée
não se afogam na água os surubins
no sangue não se afoga a raça dos Mourões
alimento do amor e da bravura
deste vinho se nutre o coração dos puros
deste vinho venho vindo e vejo a vida
e busco sua uva e te chamo de novo
vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
vem com teus olhos verdes desvairados
ensinar o caminho das uvas
o fervor destas veias quer mais vinho
minha raça é a dos embriagados
minha profissão, meu estado civil: bêbado
residência não tenho: bebo, bêbado, exilado
do país dos Mourões
conspiro a volta e conspiro o Anschlusz
de todas as terras à Capitania de meu avô à sesmaria
de meu país
de Ipueiras a Stocolmo e de Palmares de Pernambuco à ilha grega
essas terras são minhas
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto
e vou lavrando a escritura de meu canto
e lavrando o tempo e o cedro de uma noite e de uma cama.

1 018

Àquele tempo a musa pícara

Àquele tempo a musa pícara
ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth
e oh! que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida
ia colher as pitangas
trepava a tirar as mangas
à sombra das bananeiras
debaixo dos laranjais
livre filho das montanhas
eu ia bem satisfeito
de camisa aberta ao peito
pés descalços, braços nus
correndo pelas campinas
à volta das cachoeiras
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis
e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira
a garganta respondia ao trom das águas
e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa
aos cangapés e deles súbito
o fauno de sete anos relinchava no barranco
erguendo a saia
da menina aguadeira.

Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água
e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem
e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa
anunciavam seus dois seios e sobre
suas ancas baiadeiras
já Tereza ensinava
o caminho da Grécia e a rua do alto
onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia
na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo.

Estrela do mar sobre o lago do ventre
estrela de pelos
pentágono pentélicon pentelhos
pentâmetro
pentateuco do amor!

Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara
o pentâmetro de ouro da canção
ninho da estrela
e o bulício do pássaro da estrela
preparava a lua e o mel
de tua noite.

De longe venho para a possessão
e da lua e do mel e da noite

Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas,
os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos
de cana e as raparigas essas terras são minhas
e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão
nos cartórios de Tamboril e Ipueiras
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto.

Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa:
"Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo,
de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora,
tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar,
ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende
erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo".

O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana,
que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram
Santo Anastácio.

De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra
e Santo Anastácio, padroeiro por engano,
tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões,
que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos,
de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá,
Borborema, Paraíba,
onde os vaqueiros encourados furam grotas
testemunha José Joffily
no rastro do boi ensebado
e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça

até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões,
ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús,
Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões,
que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril
e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça
onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó
do país dos Calabaças.

Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau
para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo
sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de
rua burra de sela — uma burra baia — e creio que foi a última façanha dele,
das vinte e seis que se conhecem.

Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras
de ouro
e a orelha sangrenta do inimigo
dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as
jóias da prima Sinhá.

São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros
e suas orelhas e suas fêmeas:
de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros
Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô
e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado
em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde
as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras,
Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província,
Vítor de Barros Galvão,
até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais,
onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra
de seus templos de onde viemos

e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno:
naquele tempo
meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves,
deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata
à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo
e sobre o voto a São Francisco e sobre
duas arrobas de ouro e prata e sobre
dois bacamartes de coronha lavrada
das Alagoas ao Ceará foi construída
a raça dos Mourões
in illo tempore.

Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana
é de meu padrinho Padre Feitosa
e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão,
mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril
invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló,
e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na
política de baixo
e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília,
a mais bela de seus país.

Naquele tempo
a beleza das mulheres nos fez valentes
e Antônio raptou Maria Veras
e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e
custou caro — conta ele — o belo amor
e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho,
do Cascavel foi derramado
por amor das mulheres
e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo
militarmente el tiempo
e sirvo o dia e a noite a coice darmas
con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada
e estou de partida e não me parto
e me muero porque no muero
e não quero morrer e sobrevivo

entre os que tombaram à esquerda e à direita
para comer a erva tenra em sua mão
e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano
ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões
ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões
e a alegria da ressurreição
a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas.

1 203

Cantor de cântaros

Cantor de cântaros
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.

De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.

E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:

Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.

E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.

Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.

1 409

Quem de vocês matou o uruguaio

"Quem de vocês matou o uruguaio?"
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.

O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".

"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.

As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.

"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."

E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.

991

Jà vou atravessando a província formosa e a Musa

Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo

entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade

Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:

e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino

as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —

Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros

enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu

na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor

Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.

1 011

In illo tempore - 1549

I n illo tempore - 1549
floresciam os machos no pais dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
"mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos,
por ser a terra larga e grossa"
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
e nas macegas altas e nos cômoros
nas capoeiras nos valos nas catingas
nos espinheiros no agreste
nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta
ultra equinotialem non peccatur
a natureza entregava ao vento terral
com a mesma pureza
o gemido das fêmeas possuídas e o clamor
das seriemas e das cericoias no taboleiro
e eu já te esperava
in illo tempore
e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel.
Para a alvura de teu corpo
inventei as águas limpas
não te podes banhar em teus Danúbios
teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam
catraias e cadáveres:
ao talho deste facão
para a sede de teus lábios
a linfa intata é servida
no mangará das bromélias;
e no ouro das macambiras
a água de prata pura.

1 073

Era uma vez Manuel Mourão

Era uma vez Manuel Mourão
e a forja do equinócio forjara
os seus braços de ferro
Manuel de Ferros era chamado e uma noite
ao luar do alpendre sobre a rede fresca
foi o uivo da fula suçuarana:
desafiado o chumbo miúdo
veio em cima da fumaça:
sobre a mandíbula quadrada dos Mourões
os olhos negros dos Mourões
e a mandíbula fulva e os olhos fulvos
da suçuarana e a insolência
de Manuel de Ferros:
e o convite ao bote e o bólide
rabeia as fauces
e as presas e os caninos
e músculos e garras e a garganta
se chofra na cilada da forquilha
e à Parnaíba iluminada à lua
as juguleiras jorram e um instante
do ar, da lâmina embebida, dos tendões de ferro
de Manuel de Ferros
e de seu sorriso e do sorriso
dos Mourões de dentes largos e mandíbula quadrada
é o baque da fera.
E as feras e as coisas e as pessoas
tanto me atendem à cítara
como à ponta do punhal

e do novelo de fogo da linha do Equador
são as cordas desta citara e o fio do labirinto:
no hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda
ni espada como su espada

ni corazón tan de veras
como un rio de leónes
ergue a cabeça morena
donde su risa era un nardo:
morreu na praça em Sevilla
teu último noivo — Ignácio:
que gran torero en la plaza!
que gran serrano en la sierra!
que blando con las espigas!
que duro con las espuelas!
que tierno con el rocio!
que deslumbrante en la féria!
que bom no rifle e na faca
que macho em qualquer função
que Mourão entre os Mourões!

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Estivemos oito dias esperando

Estivemos oito dias esperando
por um bergantim
de nossa companhia se perdera: como não veio
mandou o Capitão pôr uma cruz na ilha e nela
atada
uma carta emburilhada em cera
e nela
dizia ao Capitão do bergantim
o que fizesse vindo ali ter:
e emburilhada em cera e mel
fincada com punhal no coração
esta é uma carta, amor, é teu canto de morte —
epitáfio
da primavera:
naquela madrugada
do Hospital dos Espanhóis:
quando teus olhos foram se afundando
na doce caravela de teu corpo,
a herança
de um quinhão de luz tocou aos meus e a camarinha
doou ao coração sua parte de ar
e no formal de partilha o silêncio
era só meu e o rumor
de uma voz — individido —
sucedeu ao ouvido solitário:
o amante da amada morta tem um ouvido a mais
et video cherubim ac seraphim
et audio:
no rádio de Paquita o tango de ontem
é agora mais forte sobre a rua
Benjamim Constant e no Largo da Glória, ó Paulo Flerrúng,
as merencórias putas são mais tristes
batem mais os relógios pela madrugada no sobrado
de Alice
e no bar do Soares se contemplam mais
as cadeiras espectantes:
partiu quem repartia
comigo o ar e a luz e o silêncio e o rumor
e de ar e de luz e de silêncio e vozes
resultou, amor, mais rico o teu cantor — e agora
resta
percorrer teu inventário e nele
a doação de um anel, de uma estrela,
de um céu de agosto e a promessa
da resposta ao beijo na defunta boca — e quem
pudera cantar — que voz se modulara dentro
deste quarto quando
das maçãs do silêncio vive a morte
de teu rosto — na maçã
de teu rosto — pálida rosa entre as outras flores:
pois à pálida rosa submissa
a rosa de ferro do rosto de Albrecht Engels
flor cinérea dos olhos de Heinz Lorenz e outros
guerreiros alemães:
celebravam a princesa morta
e Chagall e Edgar e os cárceres se abriram
requiem para a infanta morta
Guido Corti e Edmondo di Robilant, dos condados
de Veneza:
à pálida rosa respondia a flor
de mármore do rosto dos fidalgos de Itália
e Enrico Marchesini era florentino e chorava
e Amleto Albieri era vêneto — e chorava
e George Blass, o formoso velho, era do sul da
Alemanha — e chorava
e celebrava a lágrima o melhor azul de seus olhos
renanos
e Meyer-Clason viera da Westphalia — e chorava
os sinos dobraram nas lpueiras e entre os poetas
— entre
Marcos Konder e os outros — entre bons ladrões
bons assassinos tomados de doçura — e
a doçura
pungira o duro olhar de Manoel Bento e o belo
inesquecido rosto de Frau Malik — viera de Bonn
am Rheín e chorava
erue, Domine, trenavam vozes
Padre Frederico Prfllwitz — viera da Prússia e
chorava
viera o Padre Fernando do Rio Comprido — e
chorava
e Frei Meinulfo da Baviera e chorava
e o Padre José — de Turim — e chorava
e Monsenhor Felício Magaldi era napolitano e
chorava
e o Padre Waldir era alagoano — e chorava
e o grande rosto compassivo de Castro Pinto —
chorava.

Naquela tarde sobre o lgarapé das Almas no país
do Pará
a velha Maria Cândida sentiu um nó nas entranhas
transfigurou-se de súbito à beira das águas e
clamou a Manuel e Lourdes e Antônio e
João e Zaida
e aos vizinhos atônitos
apontando a vitória-régia que se afundava nas
águas ao terral de junho:
— Magdalena está morrendo — é a flor
da morte no rosto da princesa" —
e no rosto
mongol do velho pai, da velha mãe
no igarapé dos olhos dourados
a pétala da morta desmaiava.

Pois canto agora sua sombra:
já rosa entre as mulheres — conhecido
foi seu corpo ao macho à borboleta ao óleo-santo
e à manjerona em flor:
entre formas
de brisa e moldes de luar
é lida a sua forma — e sabe dela
a raiz da relva — e à volta
das hortelãs cheirosas
Yugo Kusakabe — era japonês — e chorava
e lavrou-lhe a pedra da sepultura e por ali
sei o caminho do homem em sua mocidade.

Sentado junto à Ponte Vecchio o poeta
examinava o mapa de Eleusis e ensinava aos pés
várzea, lezíria e vertentes do monte
e a lira de Tibulo a tiracolo
pastor da morte a morte o pastoreia
venho de onde para onde parto
Madgalena
da raça dos Mourões
na adega do sepulcro amadurece
a ancoreta do vinho desejado —
sou o axnante de bronze: da espada empunho os
copos
e nos copos de seu vinho com a ponta da espada
mergulhe a macerar-se o coração
e da romã partida
regale-se na lágrima a semente
de amor e morte para sempre
esparzida em teu vôo
E as amantes na alcova e os algozes no ergástulo e
o confessor na extrema-unção e o médico
na autópsia sobre o peito hão de
encontrar-me
de teu pássaro e teu nome a tatuagem azul

.........................
(e ainda cantarei de ti)
.....................

E foi o funeral — esse — de Magdalena domadora
de coração
nas moradas altas do cemitério — testemunha
Efraín — e uma palmeira
cresceu de súbito de sua fina cintura — lembra
Bárbara —
e seu jeito guarda
na boca desse frade alemão
nome de milagre —
good night, sweet Princess,
amadures
no chão da sepultura
e da haste do florido corpo
nas auroras eternas
te encontrarei, formosa, e a mão
arredondada às curvas morenas
macia de madeixas a mão
demorarei no fruto de teu rosto
e à luz dos olhos
põe-te um vestido verde
por formosura
como a pera
quando madura.

1 251

Hoje é dia de louras, Abdias

Hoje é dia de louras, Abdias,
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:

meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:

eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.

Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.

1 156

Digo o que vi — pois vi os anjos

Digo o que vi — pois vi os anjos
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo

pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:

— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres

Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos

pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.

Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —

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