Poema do Amanhecer
Que hoje o meu primeiro pensamento
seja como a luz branca da manhã
que envolve os picos
e as pontas da grama.
E faça amanhecerem as emoções.
Que nessa luz eu esteja.
Que hoje a minha intenção primeira
seja como a mão de Deus na estrada certa
ou bastão de pastor
na trilha verde.
E nessa mão me vejas.
Que hoje a minha sílaba primeira
não se abra em meu lábio,
e eu me cale.
Que nada te dirá mais que o meu beijo.
E que esse beijo eu seja.
13.06.96
Poemas da Distância
Como se fosses chegar
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
Poema para um Domingo
Um roupão amarelo, um abajur
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
Poema do Apelo
Eu sei que à insônia desta noite
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.
... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.
Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.
...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...
Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.
...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.
Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
Soneto á Fala
ou
Rota do Sol
Cala-te e partirei. Muda e sem abraço.
E esta distância se fará completa.
Fechamos esta escala de embaraços,
me defino sem ti, na rota certa.
Mas, cala! Que tua voz é como um laço
que me ata o sangue e minha calma afeta.
Se falas, estremeço e me desfaço,
e quedo, penitente, manifesta.
Se falas, eu me arrisco ao precipício,
como fêmea arrastada, como um vício
que avassala em inteira embriaguez.
Se ainda me amas, me poupa o sacrifício
desta distância. Leva-me á difícil
rota do sol. Ou cala de uma vez!
12.07.96
Predestinos
No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.
No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.
E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,
ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.
07.07.96
Poema de uma Hora Triste
Deixa que eu sinta este momento novo
e talvez quando houver o nosso encontro
vejas em mim a marca dessa ausência.
Deixa que eu queira te sentir presente
e talvez se eu disser quanto te espero
mostres em ti o quanto me esperavas.
Deixa que eu possa te buscar agora
e talvez nunca mais nosso universo
conheça as brumas desta solidão.
Deixa que eu possa, nesta hora triste,
crer que também, talvez, estou contigo,
e a dor que é minha tua se tornou.
Sonetos das Mãos
(A um amigo)
Não há de ser da tua mão esguia
que me virão o lanho e a ferida.
Não há de ser a tua, a que esvazia
as emoções guardadas pouco a pouco.
Nem há de ser das tuas mãos em prece
que esperarei as bênçãos de uma vida.
Chega-se ao bem - se um dia se merece -
pelo amor que se deu sem buscar troco.
Se há quem quer para mim o gosto amargo
que não me venha da tua boca o trago
a envenenar a mais meus longos dias.
Que não venha, jamais, punhal daninho
da tua destra! Cuidarás que o espinho
não esteja ele em tuas mãos esguias!
08.07.96
Conta-se um Tempo
Conta-se que houve um tempo
breve tempo
em que para cada emoção se fez um poema.
Como tudo o que é belo é também frágil
conta-se também que esse tempo
foi um breve tempo.