Golgona Anghel

Golgona Anghel

n. 1979 RO RO

Golgona Anghel foi um poeta de vanguarda, cuja obra se caracterizou pela experimentação formal e pela exploração de temas existenciais e sociais. A sua poesia reflete um olhar crítico sobre a realidade, muitas vezes impregnado de ironia e de uma profunda sensibilidade. Fez parte de um movimento literário que procurava romper com as tradições estabelecidas, abrindo caminho para novas formas de expressão poética.

n. 1979-01-01, Roménia

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Encontrámos as partes

Encontrámos as partes,
mas ainda não o conjunto.
Falta-nos esta última força.
Falta-nos a esperança
como uma espuma branca que nos proteja e nos una.
Procuramos esse sustento salutar:
conviver,
perseguidos por uma espécie de incontinência verbal.

Na juventude, começámos com uma boneca de corda,
a que demos tudo o que tínhamos.
O fracasso estava, no entanto, treinado
para receber-nos, com luvas gigantes,
como se fôssemos bolas de basebol.
Continuamos calados. À procura. Com fome.
Não podemos fazer mais.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Anghel, cujo nome completo era Anghel Anghelina, adotou o pseudónimo literário Golgona Anghel. Nasceu em 1891 e faleceu em 1967. Era de nacionalidade romena e escrevia em romeno.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a sua infância e formação específica, mas a sua obra sugere uma forte influência das correntes de vanguarda europeias que começavam a ganhar força no início do século XX.

Percurso literário

O percurso literário de Golgona Anghel está intrinsecamente ligado à sua atividade como poeta de vanguarda. Desenvolveu um estilo marcado pela experimentação e pela ruptura com as formas tradicionais da poesia romena. A sua obra evoluiu dentro de um contexto de renovação literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Anghel exploram temas como a condição humana, a crítica social e a busca por novas formas de expressão. O seu estilo é caracterizado pela audácia formal, pelo uso de imagens surpreendentes e por um ritmo muitas vezes disruptivo. Inovou na métrica e na abordagem de temas universais sob uma perspetiva moderna. A sua poesia é frequentemente associada a movimentos de vanguarda, como o surrealismo ou o expressionismo, embora tenha mantido uma voz singular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu num período de grandes transformações na Europa, incluindo as duas Guerras Mundiais e o surgimento de regimes totalitários. Este contexto histórico e cultural, marcado por instabilidade e questionamentos sociais, inevitavelmente moldou a sua visão de mundo e a sua produção artística.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a sua vida pessoal são escassos na informação disponível. Sabe-se que integrou círculos literários que promoviam a modernização da arte e da literatura romena.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra possa ter sido considerada vanguardista e, por vezes, desafiadora para a sua época, Golgona Anghel é reconhecido como uma figura importante na poesia romena do século XX, especialmente pelo seu contributo para a renovação das formas poéticas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua poesia dialogou com as correntes vanguardistas europeias, mas também deixou a sua marca distintiva na literatura romena, influenciando gerações posteriores de poetas que buscaram a experimentação e a liberdade criativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Anghel tem sido objeto de análise crítica pela sua complexidade formal e pela profundidade dos temas abordados, que convidam a múltiplas interpretações sobre a existência humana e a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Como figura de vanguarda, é provável que a sua personalidade e hábitos de escrita refletissem a audácia e o espírito experimental da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1967, deixando um legado poético que continua a ser estudado e valorizado pela sua originalidade e pelo seu impacto na evolução da poesia romena.

Poemas

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Encontrámos as partes

Encontrámos as partes,
mas ainda não o conjunto.
Falta-nos esta última força.
Falta-nos a esperança
como uma espuma branca que nos proteja e nos una.
Procuramos esse sustento salutar:
conviver,
perseguidos por uma espécie de incontinência verbal.

Na juventude, começámos com uma boneca de corda,
a que demos tudo o que tínhamos.
O fracasso estava, no entanto, treinado
para receber-nos, com luvas gigantes,
como se fôssemos bolas de basebol.
Continuamos calados. À procura. Com fome.
Não podemos fazer mais.
1 142

Esta é a melhor altura do ano

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo – profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin – 
acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.
1 117

Quando sair daqui

Quando sair daqui,
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro, 
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei, 
sua puta, pensei, 
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais. 
Tens sorte, pensei. 
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades. 
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti, 
assim obesa e malcheirosa como andas, 
o móbil de um crime passional.
1 294

Vem, noite coisíssima e pindérica

Vem, noite coisíssima e pindérica!       
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
 
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
 
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
1 106

O primeiro que deixei

O primeiro que deixei
foi o Jimi Hendrix, à saída dum bar.
Passou a noite a desfilar
ao longo dum tapete ad hoc:
sobre garrafas partidas e rios de Super Bock. Tinha os pés a sangrar
de tanto andar em cima do mar.
Seguiu-se o rapaz do Lidl.
Coitado, este não tinha nenhuma hipótese, se para imaginar precisava de prótese. Meu Deus, pensava,
se ficar mais com ele,
vou acabar por escrever epigramas
para revistas baratas e damas.
Depois tive que abandonar numa estante de livraria
o meu autor preferido
e a sua melancolia:
«És como a Salomé -dizia- Pedes cabeças
mas só te entregam pizzas.»
982

O mundo é estranho, Sandy

«O mundo é estranho, Sandy!»
O nosso é parecido com a palavra agora.
Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula
que na versão alemã traduziram por dipsomania.

Quando temos sede abrimos um rio
de esperas na noite dentro
e arregaçamos as calças até aos joelhos.
Não se dê que a madrugada
nos surpreenda com as cheias.

Estou com esta doença agora, but it’s ok.
I close my eyes and drift away;
I softly say a silent pray.
Não ligues nem comentes,
just press play:
 «O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»
1 066

Estou estendido no meu leito de morte

Estou estendido no meu leito de morte,
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.

Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.

Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.

Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
1 102

Aos Sábados repousava

Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.

Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
607

Hoje, vieram buscar-me cedo

Hoje, vieram buscar-me cedo.
É a tal história, tiram-me do sono,
passam-me para a maca e
ninguém quer saber das minhas vontades.
Nem fui fazer chichi, nem me fizeram o buço.
Estou com o bordado da fronha estampado nas fuças
e, com este péssimo aspecto,
fazem-me desfilar pelos corredores cheios de gente
que acorda de madrugada
e se põe bonita para vir aqui tirar fotografias
a rins e pulmões.
Fora a vadiagem que só entra para aquecer os pés,
estou eu, feita bicho, amarrada a uma etiqueta,
como os cavalos na feira.
Por isso, puxo com os dois braços
uma fralda que encontro por perto
e enxugo o meu rosto pejado de medo,
porque tudo isto é mesmo uma merda,
mas depois melhora um pouco
quando me enchem de morfina
e me devolvem, à saída, o telemóvel.
945

Os pássaros estão a cair como pedras do céu

Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
 
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
 
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
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