Conheci o Sandy na esquina do talho
Conheci o Sandy na esquina do talho,
no Largo do Calvário,
Tinha o carro mal estacionado.
Estivemos depois juntos na China,
Durante a invasão japonesa;
e em França, no despontar da Segunda Guerra Mundial
No Vietname, habitámos a mesma galeria escura.
Passávamos a vida a classificar ruídos e
a medir com os pés
o crescimento do arroz.
Quando Boccacio desvia no Decameron
os sintomas da peste,
nós estávamos em Veneza a queimar em grandes piras
os tártaros abatidos pela doença.
Às vezes ouvem-se cães a ladrar,
às vezes é tarde e o tempo se torna circular,
a felicidade deixa então de fazer parte
do nosso sistema solar.
Mas o Sandy está calmo e ponderado.
Se não tivesse problemas de asma,
fumaria cachimbo.
Uma tarde, numa esplanada
Com vista para o passado que não passa,
no Jardim do Príncipe Real para ser mais exacto –
disse mantenham-se vivos,
façam isso por Michael Jackson.
O desenho era tão simples
O desenho era tão simples
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
Comodista hesitante,
Comodista hesitante,
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
em contos naturalistas
e reality showers.
Nós, aqui, little stranger,
degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
e vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
já alugámos as trincheiras,
mas custa tanto tirar os pijamas.
O remoto rei dos corvos
O remoto rei dos corvos,
Edgar Allan Poe,
deixa cair do seu bico,
no centro de uma biblioteca,
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia,
os ratos montam à sua volta um circo.
«Annabel Lee», «Annabel Lee»,
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.
Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema
não tem outro precursor
a não ser a fome,
nem outro seguidor
a não ser o crime.
Querido Félix, a vida continua cruel
Querido Félix, a vida continua cruel,
mas igualmente necessária.
Alegra-me sobremaneira saber que estejas mais perto,
embora não menos difícil de imaginar.
Alegra-me e posso, até, dizer que me entusiasma
a esperança de que haja ainda atalhos que funcionam,
de modo que brindo em honra dos teus exílios
enquanto me curo com aguardente as feridas dos pés.
Há regressos que nos tiram pedaços do corpo,
em troca de um lugar para sentar-nos, embora
os dissidentes não se sentem nunca,
por mais baratos que nos vendam os sofás.
Não se sentam nem se cansam.
Gastamo-nos apenas,
como meros bocados de sabão
onde os nossos pais cravaram
as suas lâminas de barbear.
Não me interessa
Não me interessa o que
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.
Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?
Na sala de leitura da insónia
Na sala de leitura da insónia,
Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso
Somos daqueles que limpam os ouvidos
Somos daqueles que limpam os ouvidos
com a chave do Mercedes
e fazem estalar os dedos,
às escuras, nas salas de cinema;
filhos das vindimas e da apanha da azeitona,
homens, quando a noite usa decote.
Somos, hoje, a melhor geração
de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso.
Treinamos predadores de moscas,
limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.
Temos as mãos trémulas, é certo,
mas arrumamos,
seguros,
o dominó, no pátio do Alzheimer,
pois é a nós que procura a seta.
De maneira que não adianta muito termos pressa:
um dia, alguém chamará por nós
e nos marcará no peito
o número da sorte
com o ferro quente
com que se conta,
na Primavera,
o gado.
Porque falta meia hora
Porque falta meia hora antes de
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.
Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.
O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.
Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.
Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!
O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.
Devia escrever coisas mais divertidas
Devia escrever coisas mais divertidas,
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.