Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

1846–1883 · viveu 37 anos BR BR

António Feliciano de Castilho foi um poeta e escritor português, figura proeminente do Romantismo em Portugal. A sua obra é marcada por um lirismo terno e religioso, explorando temas como a fé, a natureza e a saudade. Foi um defensor fervoroso da língua portuguesa e um influente mentor de gerações de escritores. A sua vasta produção literária abrange poesia, prosa e tradução, deixando um legado duradouro na literatura lusófona.

n. 1846-03-11, Rio de Janeiro · m. 1883-06-11, Lisboa

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As Velhas Negras

As velhas negras, coitadas,
Ao longe estão assentadas
Do batuque folgazão.
Pulam crioulas faceiras
Em derredor das fogueiras
E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa
Esparge a lua formosa
A clara luz tropical.
Tremeluzem pirilampos
No verde-escuro dos campos
E nos côncavos do val.

Que noite de paz! que noite!
Não se ouve o estalar do açoite,
Nem as pragas do feitor!
E as pobres negras, coitadas,
Pendem as frontes cansadas
Num letárgico torpor!

E cismam: outrora, e dantes
Havia também descantes,
E o tempo era tão feliz!
Ai! que profunda saudade
Da vida, da mocidade
Nas matas do seu país!

E ante o seu olhar vazio
De esperanças, frio, frio
Como um véu de viuvez,
Ressurge e chora o passado
— Pobre ninho abandonado
Que a neve alagou, desfez... —

E pensam nos seus amores
Efêmeros como as flores
Que o sol queima no sertão...
Os filhos quando crescidos,
Foram levados, vendidos,
E ninguém sabe onde estão.

Conheceram muito dono:
Embalaram tanto sono
De tanta sinhá gentil!
Foram mucambas amadas,
E agora inúteis, curvadas.
Numa velhice imbecil!

No entanto o luar de prata
Envolve a colina e a mata
E os cafezais em redor!
E os negros mostrando os dentes,
Saltam lépidos, contentes,
No batuque estrugidor.

No espaçoso e amplo terreiro
A filha do Fazendeiro,
A sinhá sentimental,
Ouve um primo recém-vindo,
Que lhe narra o poema infindo
Das noites de Portugal.

E ela avista, entre sorrisos,
De uns longínquos paraísos
A tentadora visão...
No entanto as velhas, coitadas,
Cismam ao longe assentadas
Do batuque folgazão...

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Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
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Biografia

Identificação e contexto básico

António Feliciano de Castilho e Correia da Silva foi um poeta, escritor, tradutor e pedagogo português. Nasceu em Lisboa e viveu a maior parte da sua vida na capital, mas passou longos períodos em Alferrarede, onde possuía uma propriedade.

Infância e formação

Castilho ficou cego aos seis anos de idade, na sequência de uma doença. No entanto, a sua deficiência visual não o impediu de se tornar um dos mais cultos e prolíficos escritores portugueses do século XIX. Foi educado em casa e demonstrou desde cedo um talento notável para a escrita e para a aprendizagem de línguas. As suas leituras e a sua capacidade de memorização compensaram a ausência da visão.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se cedo, com a publicação dos seus primeiros poemas ainda na adolescência. Castilho teve uma carreira literária extensa e multifacetada, abrangendo poesia, prosa, crítica literária, tradução e pedagogia. Foi uma figura central no panorama literário português, associado à corrente do Romantismo, embora com características próprias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Castilho é vasta e diversificada. Na poesia, destacam-se os temas religiosos, a natureza, a saudade e o amor. O seu estilo é marcado por um lirismo terno, uma linguagem cuidada e uma musicalidade ímpar. Publicou diversas obras, entre as quais "A Primavera", "Os Ciúmes do Bardo", "Escavações Poéticas" e "A Noite do Castelo". Foi também um notável tradutor, tendo vertido para português obras de Homero, Virgílio e Camões, entre outros. Uma característica marcante do seu trabalho foi a sua dedicação à educação e à divulgação da língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Castilho viveu numa época de grandes transformações em Portugal, marcada pelo Liberalismo, as Guerras Liberais e um intenso debate cultural. Foi um intelectual de grande prestígio, próximo dos meios académicos e literários da época. A sua obra reflete os valores e as preocupações do Romantismo português, mas também um conservadorismo social e religioso que o pôs em conflito com os autores da Geração de 70.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Cego de nascença, Castilho desenvolveu extraordinárias capacidades de memorização e audição. Casou-se com Ana da Piedade de Castilho e teve filhos. Era conhecido pela sua religiosidade e pelo seu carácter afável, mas também pela sua teimosia em defender as suas posições literárias e ideológicas. Foi um membro influente da Academia das Ciências de Lisboa.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Castilho foi um dos poetas mais populares e aclamados do seu tempo, recebendo diversas homenagens e distinções. No entanto, a sua obra foi também alvo de críticas ferozes por parte da Geração de 70, que o acusava de anacronismo e de defender uma língua literária arcaica. Apesar das controvérsias, o seu lugar na história da literatura portuguesa é incontornável.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Castilho foi influenciado por autores clássicos e românticos. O seu legado reside na sua vasta obra poética e tradutória, na sua dedicação à língua portuguesa e na sua influência sobre muitos escritores que o admiraram. A sua defesa da tradição literária e da norma culta da língua marcou a literatura portuguesa do século XIX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Castilho tem sido objeto de diversas interpretações, sendo valorizada pelo seu lirismo e pela sua musicalidade, mas criticada por um certo conservadorismo formal e temático. As suas posições em defesa da língua portuguesa e contra as inovações da Geração de 70 marcaram o debate literário da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua cegueira precoce não o impediu de se tornar um exímio conhecedor de línguas e de literatura. Desenvolveu uma memória prodigiosa que lhe permitia recitar longos trechos de obras literárias. Era também um exímio pianista.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Feliciano de Castilho faleceu em Lisboa. A sua memória é celebrada como a de um dos maiores poetas românticos portugueses, cujas obras continuam a ser estudadas e apreciadas pela sua beleza e pela sua importância histórica.

Poemas

14

Fervet Amor

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando ..
Maio sorri na Pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.

1 879

O Minuete

Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
Admira-se o lavor do tecto de pau santo.

Cadeiras de espaldar corri fulvas pregarias:
Um enorme sofá: largas tapeçarias.

O purpúreo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre ansiosa uma gazela.

Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Toro as mãos de Afonso o armaram cavaleiro.

Era arcebispo aquele: esta foi açafata:
Que frescura sensual nos lábios de escarlata!

Olhos revendo o azul que sobre a Itália assoma:
Em finos caracóis, a loura e ondada coma:

Colo robusto e nu: cabeça triunfante:
Consta que certo rei... passemos adiantei

Este que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do áspero Pombal.

Desse olhar na expressão infinda e inenarrável
Desabrocha uma dor profunda e inconsolável.

Defronte, uma donzela, o rosto meigo e aflito,
Num êxtasis adora o pálido proscrito.

O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tão cedo se desfez, ó mísera e mesquinha!

No burel escondeste o viço e a formosura,
E desmaiaste, flor, no chão de uma clausura!...

Repara nos desdéns do fofo conselheiro,
Que sorridente aspira a flor de um jasmineiro!

Em cânones doutor: no paço foi benquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um hábito de Cristo.

Esse outro combatendo às portas de Baiona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragona.

Vibra flamas o olhar; cabeça ereta e audaz;
Ilumina-lhe o rosto a glória de um gilvaz.

Assistimos, ao vê-lo, às pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangor das músicas guerreiras...

No antiquíssimo espelho, à sombra das cortinas,
Reflete-se o primor de argênteas serpentinas.

Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.

Ao lado um cofre encerra, em amorável ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.

Uma noite estendi a música na estante,
E o cravo suspirou... naquele mesmo instante

Da ebúrnea palidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o aroma do passado.

E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,

A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,

A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete...

1 900

A Sesta

Na rede, que um negro moroso balança,
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.

Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.

A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.

Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagui.

Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.

A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.

Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...

O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!


Publicado no livro Miniaturas (1871).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
2 268

O Camarim

A luz do sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha;
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a Norma, e ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.

1870


Publicado no livro Miniaturas (1871).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
3 397

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