3B
O dia, esse bojo de linfa, uma vertigem de hélio — arcaicamente
como pretexto para luzirem
cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro;
um branco suspiro extenua as gargantas dos áruns;
pálpebras no granito despedem-se do mundo. Quando
começam os sítios
íngremes. Porque a treva aproveita
a madurez para onde
se debruça a paisagem. E fique a púrpura
nos dedos, só
por deslizarem. O objecto ao meio é o vaso
em que trabalham. A noite coloca um degrau,
até que do invisível
— reservatórios de linfa e gás entenebreçam.
Os longos mesteres da argila: órgão macio e baixo.
O espasmo que o faz rodar, a beleza
que o transforma num crânio
astral: — Vaso
dolorosamente fechado sobre a fulguração da massa
de átomos. Embriaga-se à volta
do buraco exasperado. O papel redemoinhando às lunações
das unhas. Brilha, escurece. Depois é cor de sangue: o sorvo,
e o sôfrego
movimento externo.
3C
Leões de pedra à porta de jardins alerta
— blocos zoológicos, laterais, devorados
por líquenes. Vem-lhes — de gotas, botânicas
vidradas, insectos,
o vento que os embriaga, as coisas plurais
da terra — esse
fluxo e refluxo de potência cega.
Se lhes toco nos flancos, ou nas jubas, ou entre
as patas dianteiras,
sinto dos dedos ao coração a tenebrosa
pancada do sangue.
— Guardo no meu segredo aquele segredo
central,
inseparável.
4B
Aguas espasmódicas, luas repetidas nas águas.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
ÚLTIMA CIÊNCIA 407
cardíaca e mútua.
— De nome em nome passam por mim os sopros.
Paisagem caiada, sangue até ao ramo das vértebras:
habitações concêntricas
de insónias, luzes, vozes, trevas, bebedeiras
— interiores,
nupciais,
atmosféricas.
Se Deus me toca no fundo da palavra.
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Puberdade
Sai depressa, depressa.
Já quase morrem esta noite os ecos.
Mulher virgem, mulher virgem não tem sono.
Vela, veia, através da noite.
Áspero e gigante, o cacto despedaçado:
e minhas penas caídas elevam-se no ar,
mais alto que o cume do monte da Mesa.
E eis que o jovem moveu as pedras sonoras,
e a mulher ouviu, e não pôde dormir.
E partiram-se as unhas de meus pés.
Quando eu passava, tombaram os ramos da noite,
e quebraram-me as penas.
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Alazão
Era um cavalo alazão, e à sua volta a batalha acendia-se como um tição de
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
Poemas Indochineses - Cantos Alternados
Uma Rapariga
Sou como uma peça de seda cor-de-rosa,
ondulando no mercado.
Não sei em que mãos irei cair.
Meu corpo é como um poço aberto no meio do caminho;
nele alguns lavam o rosto,
lavam nele outros os pés.
Tivesse este rio uma medida de largo,
que eu faria uma ponte, amigo, com um cordão do meu corpete.
Um Rapaz
Rapariga que levas agua com um balancim de junco,
dá-me um balde dessa água para regar o plátano.
Sobre o plátano mais belo, sobre o plátano mais verde,
a fénix virá pousar.
Amo-te, primeiro por teus cabelos em rabo de galo.
Segundo, amo-te pelo modo como falas.
Terceiro, amo-te por causa do teu rosto admirável.
Quarto, amo-te pelos teus vestidos, que são da cor do teu rosto.
Quinto, amo-te porque trazes ganchos nos cabelos e trazes na mão um
leque da China.
Sexto, amo-te por causa dos teus cabelos verdes.
Sétimo, amo-te porque teus pais um dia te puseram no mundo.
Oitavo, amo-te por causa dos teus olhos de fénix que me olham
profundamente.
Nono, amo-te porque vamos estar unidos um ao outro.
E amo-te, em décimo lugar, porque é a mim unicamente que te desejas
unir para sempre.
O Mistério de Ameigen
(Irlanda)
Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e que anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.
2
toda, a doçura trepida, toda ameaçada,
um sítio relampejante, roupa atacada pela febre,
irradia a gangrena na cabeça, paisagem animal
injectada, ou avença de formigas,
uma dor lucilante por furos de memória,
cabeça, vírgula atroz de granito,
pensamento de cabeça impressa num pensamento
de seda forte,
fulguram pêlos, fendas de adrenalina, sondas
de ozono, flechas, cataratas límpidas,
cai a rede em cima do ar em cima,
cardume incandescente de botões no frio,
planos faíscam debaixo do sangue eriçado,
a força toda, queimadura,
e uma extensão detrás, refreada, a boca fervendo,
em frente de uma geometria obstinada de estrelas
pontiagudas