Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade
Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Ritual da Chuva
Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Entre as andorinhas,
andorinhas azuis
que gritam, que gritam,
vem a chuva,
vem a ohuva comigo.
Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Nascemos Para o Sono
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
Canções Indonésias
Perdi uma pérola na erva.
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
Lugar Último
Escrevo sobre um tema alucinante e antigo.
Esquecimento
que me lembrasse agora para sempre
como
uma roseira. Como
que escrevo assim com um grito maravilhoso
dentro da carne, terrivelmente.
Nas pancadas da boca.
— Sei cantar devagar, de pé, a enlouquecer muito.
Respirando, sangrando tanto.
Sei cantar com estrelas iradas.
Há uma elevada mulher com flores
na boca e no ânus.
Contra mim, contra minha divagação.
Penso: a flecha ama a onça.
A morte ama o que morre.
Pensei ainda pela pancada dentro: a mulher
ama o homem.
E quando brilhavas debaixo da minha luz
espantada, também pensei:
eu amo-a. Porque mexeste nos meus
nomes desde o nascimento.
Contei-te pelas pétalas coloridas,
e agora
o meu amor é puro puro louco louco.
E o que dorme dorme
do que é forte.
Uma mulher passou quando eu dormia ou acordava.
Era uma luz molhada.
Estava ao cimo como lágrimas, estava
com folhas à tona da idade.
Passou uma delicadeza, uma mulher
que ficou.
Existiu um campo transviado.
Uma alagada adivinhação. Por cima
abruptamente
uma — pancada na noite dos órgãos.
A noite é não ter amor senão
em luzes.
Como uma pedra sobre a boca.
Apedra sente a boca, a solidão sente
o homem. Digo que um homem beija
interiormente a boca.
Mas era uma mulher que morria,
uma mulher que nascia agora altamente.
Um lúcido campo morto.
Passou, transferiu-se, reviveu
sobre a minha cabeça. Atravessava-a uma flecha. Era
uma cabra silvestre uma cabra azul
uma cabra colorida
pela ira e a doçura e pela altura
saltada de uma cabra entrevista nos grandes céus
loucos.
Era caçada pelo caçador do amor.
Era com os cascos e os malmequeres. Com a delicadíssima
boca humana.
Os veios de ouro.
Era como as belas mamas brancas.
Quente como as urtigas.
Era deitada cor de violeta.
Uma mulher retumbante com todo o silêncio.
Dormia contra mim.
Ela vigiava, corria no ar.
Quebrava no ar. Era a mulher tão pura.
—Anos e anos de viagem sideral com os pés
iracundamente
azuis. Sou eu,
como um retrato de cabeça para baixo.
Conheci-me cantador em estado
de amante. Tive
o desviado ofício de canteiro.
Fiz uma catedral. Morri
acocorado. Eu era um amante
com ofício de poeta cego. Um dia
transformei-me na mulher que amava.
Em tantos anos não ignoro como tudo amadurece.
Neste lado de agora
vejo: os cravos batem no ar que bate
na roupa que bate nas pedras.
E penso: houve uma quinta, quarta, uma
terça, uma segunda-feira, uma sexta-
-feira.
Bocados exaltados por cima.
Porta extática debaixo dos raios.
Sábado era um dia de ardente vileza.
Um domingo de amor ou de exemplo.
Eu era um amante que era uma semana
de lado:
ou era a chuva
amada por uma misteriosa velocidade,
ou o sol que a lentidão
apaixona por dentro.
Eu era uma mesa com tantos anos
sentados para comer-me em estado
de pêra inclinada.
Eu fui um amante numa torre
ao meio da praça. Eu fui parado e unido.
Quantos anos iracundos. Cantadores.
E se a roupa molhada bate
sobre a minha cabeça, e nela se embebe
a luz penetrante — é preciso transformar-me.
Fui amante como um cão. Fui
de divagação em divagação a lua lua. Eu ladrava de cima.
Eu era a baixa lua lua onde os pântanos
caíam em êxtase. Perdi
todas as mãos, e na derradeira mão
transformei-me na morte.
Batem os levíssimos nomes como pedras
no ar, mais verdes, como
crisântemos abrindo-se e depois
fechando-se. Crisântemos — digo —
virtuais. Com tantos tantos anos delicados
iracundos de todas as cores.
— Celebro agora os dias da sombra de onde
sagrada a loucura se levantava. Quando os cantores eram tomados
pela embriaguez
soturna, e falavam
alto com as ondas à volta. E eu lembro
a entrada
desses dias retumbantes, quando alguém
entoava em sonhos as fontes
da ilusão. E a idade avançava por dentro
da aguda alegria, por dentro e a gente
gritava que era alto tão tão alto — o amor.
Celebro a tecelagem, as mãos sombriamente embebidas no trabalho. E por cima
de tudo as pedras
rosas da cabeça, os cestos, as liras, o pão.
E em baixo o sangue bate acendendo e apagando. E eu agora sei tudo, e esqueço
muito devagar. Também com força uma mulher
aperta
os pés sobre a minha boca. E eu pareço
pensar no ar. Pareço
dormir entre gotas frias. Ou então
também pareço vir vergado e louco debaixo do estuar celeste.
Nas noites onde cerrados os girassóis
esperavam a ressurreição. Ou nos dias levantados
sobre as melancolias mais fortes. Quando
a mulher era levada pela interior
fantasia do seu próprio encerramento.
Noites oh noites tantas e
tantas noites oh tantas noites seguidas
intactas, despedaçadas, regeneradas como noites
para dentro e para fora,
debaixo da chuva. Enlouquecendo.
E cantando o corpo, as voltas, os terrenos, os fetos
do corpo, e as achas aproximadas e brilhantes
do corpo humano.
E talvez seja este o último exemplo
de amor e a imemorial noite lancinante, solidão.
E eu me transmude na zona de uma idade
antiga, e Deus
fale de em mim no puro alto da carne.
E uma onda e outra onda e outra e outra
e outra
onda e onda
batem em sua belíssima deserta altíssima
voz.
E não sabemos escutar o barulho,
nem vemos os roseirais dominados pelo silêncio,
oh nem
deliramos nos enormes inóspitos campos
de Deus.
3
Sei às vezes que o corpo é uma severa
massa oca, com dois orifícios
nos extremos:
a boca, e aos pés a dança com a coroa de labaredas
— a cratera de uma estrela.
E que me atravessa um protoplasma
primitivo,
uma electricidade do universo,
uma força.
E por esse canal calcinado sai
um ruído rítmico, uma fremente
desarrumação do ar, o verbo sibilante,
vento:
o som onde começa tudo — o som.
Completamente vivo.
Lenha
Lenha — e a extracção de pequenos astros,
áscuas. De poro a poro,
os electrões das corolas. Somente no mais escuro
não há nada. No escuro, a carne é um buraco
invisual, e o que arde é o pão
no estômago, e nos brônquios
cortadamente
o ar. E o carbono devora sono a sono a inocência
das imagens. O que toca o órgão mais profundo
do sopro não é música
nem chama: apenas um dedo de mármore entre
as têmporas como
uma bala. E enquanto pontas de fogo marcam
aboca, morremos afogados,
no espelho, no rosto. E se a loucura um instante
levanta as pálpebras.
A grande válvula do corpo.
A escuridão, aterra.
Abril, 1980.
Lugar - Vii
Pequenas estrelas que mudam de cor, frias
pêras ao alto
de raízes queimadas, ainda doces, profundamente
cor de turquesa — eu tudo sei.
Como a época leve que entra,
como as crianças que despertam e sorriem
lapidarmente, e morrem
sem que se note, na própria clareira viva
do seu sorriso.
A onda que envolve os peixes, e dos peixes
absorve o rápido estremecimento — eu tudo sei.
Porque mudo, queimo-me.
Porque as ondas me batem na boca.
Pequenas estrelas passadas de cor para cor, pêras
que rolam de um degrau
para outro degrau de amadurecimento. Enquanto
estou deitado sob o céu brutal, e a noite
avança terrivelmente plácida.
E por baixo a terra vive, abstracta
e espalhada.
Quero dizer: eu tudo sei.
Junto aos ossos em gelo bate uma veia
que sobe, quente; que em silêncio ascende
e bate na língua: — Eu amo o pão que amadurece
no fogo.
Amo a ideia que a morte alimenta
agora na noite. Cinza sobre pepitas.
O açafrão nas pedras encarnadas.
Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida—o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo — eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.
E eis que todo esse puro tempo passado
se levanta, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa — e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida — sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade — e sei tudo.
Digo: minha alegria é tenebrosa.
E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.
Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia —
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
Em Marte Aparece a Tua Cabeça -
Em marte aparece a tua cabeça —
eu queria dizer. No lugar onde
desapareceu a janela,
a cabeça de vaca de fogo, aparece
a cabeça. Onde era a cortina fria,
de pássaro escutando.
Em marte, como a roupa bate no vento
e na terra as ferraduras batem
no meu cabelo.
Como o fogo dentro da pedra turquesa,
em marte aparece a tua
cabeça de vaca. Por detrás da fria cortina —
eu queria dizer.
Agora sei que devo saber, só.
As letras da chuva loucas nas costas —
escrevendo, escrevendo.
Só, eu sei a dormir. Com um ramo
de peixes e um violino
no meio dos 11, dos mm, dos ii
da chuva.
Com meu ramo de violinos, só eu
no meio da chuva. Agora
sei que devo escrever os meus peixes.
A tua cabeça
aparece na janela de marte em fogo.
O fogo que anda em ti que andas como uma
pedra turquesa,
ao lado da fria cortina. Olhando, escutando
como um pássaro, onde chove.
Como só agora sei com as letras.
A chuva abre-te, o dia bate, a roupa
tropeça com as ferraduras
no meu cabelo. E só agora fazes
teu gesto com chuva, no meio das letras.
Abre-te, oh abre-te. Na cortina,
agora, a tua cabeça ao lado dos peixes —
escutando, escrevendo,
como só agora eu sei: o meu ramo
de violinos.
Escuta: o copo, a catedral, o livro,
o candeeiro.
Eu agora sei escrevendo de lado o fogo
da cabeça. Escuta: descasco
maçãs, cômo maçãs, as maçãs
aparecem na sua cor ao meio — e juntam-se
entre si, e vão sonhar. Escuta:
chovendo, escutando, escrevendo.
A roupa bate no vento.
Escuta como só agora bate a cor
nas maçãs. Atua cabeça, a cortina fria.
Dou-te as letras dos peixes, escutando —
só agora, só agora.
Escutando em ti, abrindo
com a tua chave todas as tuas maçãs
na sua cor. Só agora
escrevendo eu sei.
Tinha As Mãos de Gesso. Ao Lado, Os Mal
Tinha as mãos de gesso. Ao lado, os malmequeres. Tinha as veias
por cima das cadeiras, lá no alto.
Todo o gesso no alto: os malmequeres.
Ele dormia, dormia.
Aquele homem que as letras atravessavam tinha as mãos
de gesso sobre as cadeiras.
Por cima do alto — dormia, dormia.
As letras encostadas aos telhados, e ali começava
o livro da idade com as suas rosáceas.
Os malmequeres dormiam,
dormiam nas cadeiras. E os telhados
vinham devagar encostar-se às mãos,
nas rosáceas.
No alto, no alto — ele tinha as suas veias
de gesso como o sol
branco encostado.
Perguntei-lhe: aonde vais, caçador
com o arco-íris?
E ele estava coberto de letras encostado
às rosáceas, e disse:
eu dormia, dormia — com as cadeiras
encostadas ao livro da idade,
e agora sou caçador. As minhas mãos
de gesso lá no alto.
Ele tinha malmequeres, e velava
pelos telhados cheios de letras,
e dizia: as rosáceas encostadas ao meu nome,
as cadeiras encostadas,
as mãos de gesso encostadas ao meu nome.
E eu perguntei-lhe: caçador
de arco-íris encostado, aonde vais
assim com a morte encostada ao teu nome?
Ele tinha o gesso como os malmequeres
nas mãos, e disse:
eu dormia, dormia—e eis que as letras
da idade atravessaram a minha morte.
—Aonde vais, encostado à rosácea do teu nome?
Ele tinha, e disse:
com as minhas mãos de gesso,
encostei-me agora à minha morte, no alto.