Texto 12
Sei de um poeta que passou os anos mais próximos do seu
“suicídio”
a bater com os nós dos dedos pelas paredes a abrir e fechar
as mãos para que o ar saltasse
como “modeladas” (“moduladas”) aparas de “som”
um poeta nos limites da “consumação” à procura
de um “ponto de apoio” apenas levemente “perceptível”
para a terrífica massa de “silêncio” que lhe cabia
a ele que procurara sob as ameaças da confusão
“estabelecer as vozes”
uma vez pensara: “que o corpo permitisse o corpo”
e fora para diante com essa ideia
era decerto uma decisão “explosiva”
ele estava sentado a fazer aquilo “por dentro”
e foi-se vendo pelo seu “rosto” que não era fácil tomar a cargo
a coruscante “caligrafia do mundo”
mas ele tomou-a até onde pôde e o “corpo” era já
o outro lado da “agonia” um “texto monstruoso” que se “decifrava”
apenas “a si próprio”
depois veio o toque no estuque e nas portas que finalmente
não davam nenhuma saída ao excesso “corporal”
de tanto “trabalho” tanta “poética transgressora” tanto
“nome” abusivamente “físico”
veio o ar espadanando à passagem da “natação”
desesperada
avisos de um nó de som a ainda ingénua “vacilação de planos”
quando a vozearia criara por fim a “distância”
uma “fractura no espaço” a “virgula” a fremir
na “ausência” isso o “sitio” onde apoiar a “alavanca”
porque essa “energia do silêncio” já atingira
algumas partes da “biografia” dele do “sono” de tudo quanto
fizera seu ou lhe viera
enfaixado no “sangue” e o que pretendia era só
colocar a “música extrema” ao alcance dos “ouvidos”
referir a uma “pauta” o silêncio em toda a parte
estivera como tanta gente a “ressuscitar”
metade do tempo e metade dele a “morrer” muito e muito
achava então que tudo deveria ser levado
até à “decifração”
por fim havia isso de estuque e dedos para tentar saber
e o ar como deserto a ver se dele irrompia
“o princípio da fertilidade”
do rosto não sei se era “a luz” que o alagava
ou “a noite de tantas noites”
enquanto o “suicídio” se acercava não como uma espécie
de “regra final de ouro”
acercava-se apenas e os dedos a baterem sempre na madeira
e o ar fendendo-se enquanto fremiam ainda
as barbatanas a ver se havia alguma coisa a seu favor
no mundo que não havia
1971
Bicicleta
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
I F
Olha a minha sombra natural exactamente amarela, diz,
a areia em cima da água como se fosse luz
entra, calcina-a,
espáduas,
as ancas na fornalha,
a cicatriz que raia, estrela cozida, chama-se:
Espiga,
e o avesso e o direito, pulmões, estômago,
sangue que o corpo todo abotoa,
a massa da beleza com os membros e a cara,
e então ela começa a encontrar a sua morte,
a sombra natural exactamente amarela entra
no espaço
que a si próprio se queima,
ela.
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
I D
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Crianças de pensamento.
Sou amarela.
E pela sua força apenas se concentram as frutas
por todos os lados iluminadas
a vento, a oxigénio.
As crianças entram no sono que as aguardava como uma sala.
Eu cá sou caldeada na minha labareda.
O sono fecha-lhes os ombros à sua própria volta.
E quem tem tanta memória que a massa de átomos,
quando passe,
encrespe, acorde, alumie a última criança?
O mistério é só este: primeiro são cor de pólen,
transfundem-se depois em palavras siderais, botânicas.
As frutas adoçam-se.
Sacode-se a árvore do ar: eu cá sou de plutónio, chamejo, caio.
Os dias separam-se das suas trevas internas.
I H
Beleza ou ciência: uma nova maneira súbita
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
Canção Despovoada
Num tempo sentado em seda, uma mulher imersa
cantava o paraíso. Era depois da morte.
Num tempo: salsa, avenças
dormindo. A infância tinha febre. Então a voz
pronunciava lenços, pombas
impressas. Arrefeciam pêras no silêncio
posterior
àquele enigma. Porque tem sono
a salsa? E o coração dos figos com a
doçura oblíqua. Há quem morra para ser
de um mês: vivem imóveis
os jardins das vozes. Em sonhos
de uma loucura clara, ligeiras casas voltavam
as costas. Nasciam folhas de ouro se alguém,
sorrindo, respirasse.
O tempo tem a sua
incli
nação perigosa: país de uvas negras e varandas
sobre a candura. Quando se toca,
a infância queima. O paraíso tem uma noite
ao fundo: treme. Há quem fique num mês
para assistir ao ar. Terrível é o espaço
da música e das glicínias
paradas na atenção. Quando uma voz diz a criança
como seu espelho, este
paraíso é de víboras azuis.
Então veste-se
um pulôver, anda-se pela cegueira com as mãos
a ferver, diz-se: o vento, o sono e as
violas. Há um crime sagrado onde
o mês aparece com. Digo: clareira.
Velocidade do tempo, oh
inteligência. Aparece com a altura
de uma noite mortal. Quem se alimenta de fruta, quem
se despe entre noites encostadas, pergunto,
quem ama até perder o nome?
Eles vêm devagar e põem cores onde a criança
se voltava junto
à morte. Azul cobalto para os anjos
ciclistas anunciando a palavra,
e amarelo para os braços abertos, e cíclame
para ficar louco no espaço
ao mesmo tempo. Ofereço-te um lírio — diz a canção
sentada.
Ah, um lírio é o que eu procuro
nas ilhas tenebrosas. Por isso canta
essa mulher desviada para a inocência
de um tempo — mês
a respirar tão depressa, e a andar tanto, e a correr
tão loucamente,
que não há mais do que em voz
em cadeira, num lugar do sono, à direita e à
esquerda de uma ausência contra
a espuma.
Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessarvozes leves e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
de febre para o lado de uma canção
terrível e fria.
Iii G
Tanto lavra as madeiras para que seja outro o espaço
a segui-lo: não as mobílias,
traves das salas, nem as janelas e portas,
ou os barcos nos campos de água;
lavra a estaca e irrompe dela,
da fria seiva trançada,
pontos de força,
vibração, respiração das fibras: irrompe
a flor chamada Chaga
— e é esse o espaço que o segue, que ele arruma, onde se põe
em equilíbrio,
nomeando os artefactos, colhendo o ar que se exala
da linha de nomes sobre o abismo,
e por cima do abismo ele brande aquela vara
com a cor
ao toque no fundo:
tão intrínseco e junto, tudo, e explícito: dor e ornamento,
e o ornamento é tão
experimentado no mundo, e trabalhado em madeiras e dedos,
tão sofrido como atenção, que ele mesmo
sustém a chaga ao lume do seu baptismo,
e cerrando o extenuante espaço do concreto
dentro de si,
vive disso.
Iii I
Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
Ii K
Atravessa a água até ao fundo da estrela.
O buraco sopra:
de trás de quê, como, de que coisa entreaberta?
A sombra dessa estrela — como se chama:
inominável?, ou correndo em bica:
banha-o. Ou a vibrar dos quadris às espáduas
desdobra
uma peça de luz. Ou com os braços ritmicamente
dentro dela, estrela esbracejada, nada
até ao fundo da sua luz, da sua água.
Que cega, afoga.