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do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
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colinas aparecidas numa volta de oxigénio, frutas
aonde o ar faz muita luz,
e em baixo, de azougue, obsessiva, entre papéis e dedos,
a língua autora,
rouca e múrmura,
e eu, servente, nem sei o que me pôs nas obras dessa língua:
paixão, licantropia,
holograma,
poema,
que alumiação, que toque nas coisas, falada
do fundo do ar,
do fundo da garganta à fome da boca,
e que vida compacta enfrentar tantas palavras
carregadas de protões,
a fria alegria intrínseca de uma língua,
delgadas raparigas, cabelo trémulo, poalhas de ouro à volta,
as vozes de estrias riscadas incham cantando cada vez mais alto
a língua que me atravessa, e morre,
e não sei qual morrerá primeiro, se o inglês ou o curdo,
Eli, Eli, lamma sabacthani, porque me abandonaste entre os semáforos da gramática
a mim que só pedira um dom pequeno?
e o céu retirou-se como um livro que se enrola:
e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares,
acabou-se-me a língua bêbeda,
sôfrego, subtil, sibilante, sucessivo, solúvel,
comi-a como pão vivo,
bebi-a como água crua,
que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha
do que uma linha escrita,
o reino por essa linha lírica em que aprendi a morrer,
e porque estou morrendo aprendo
a unidade do mundo,
e tu, Canção, se alguém te perguntasse como não morro,
responde-lhe que porque
morro,
também por política rítmica, outro, louco
da força que lhe dava a língua,
queria tudo, até que ficasse mudo,
e outro ainda dizia que o tempo venera a língua,
e neste mistério que como não morro
que porque morro, escrevo
a linha que me custa o reino e não passa pela agulha,
e embora as frutas se movam nas colinas,
estou a morrer a língua que não é curda nem inglesa,
a morrê-la ao rés das unhas e da boca
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ou: o truque cardiovascular, ou:
a técnica da paixão, quero eu dizer: o estilo de
restituir ao seu conexo sobressalto, de sangue
autoral, os bruscos
poemas transracionais, ali, onde
o mundo reconhece o mundo,
sítio para sermos estudantes do sentido:
tão acima arrebatados pela
razão jubilatória:
porque
um poema é a melhor crítica a um poema,
John Cage,
se
se pensa na roupa: quando a talham, e a beleza atravessa o ar,
e alguém morre com ela, e o despem para o vestirem
com outra roupa, e entre
as duas cenas salta a luz naquele corpo que não morre nunca,
e é também um poema esta cena terceira,
digo:
porque se trata da luz a trabalhar e mais nada:
nasce de uma espécie de mecânica quântica, poema
nu ou vestido na escuridão, maravilha
irreal estroboscópica
da beleza como que
com
as janelas em volta: o videoclipe que transita,
o corpo que transita,
e o nome inominável, ele, o
écran plasma tv para o tremor dos fotões dentro e fora,
nem num sítio nem noutro,
cabeça, espáduas, membros, e o etc. geral conjunto, e as águas
destapadas que os abraçam,
poema contra poema, inóspita beleza! enquanto
o texto
se abrasa: outra
crítica, não a que não encarna, porque é milagre,
o âmago escrito, o minúsculo, o escondido,
mostra em grande plano a mão queimada se por exemplo
ao meio do clipe sombrio
é todo assim por baixo:
o fogo
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a labareda da estrela oculta a estrela, numa
rebentação de luz
a camisa oculta a camisa, e o sangue às riscas
gira e brilha no fundo da camisa contra a estrela:
que te abalam do direito adentro ao esquerdo:
o choque púrpura, o ascensional
néon ardendo
— e como é que isto é um segredo? —
a mão oculta-se na queimadura a cada faísca da folha
— mas como se escreve o sentido? —
o sangue que o escreve oculta o sangue e o escrito
— e então como se oculta e desoculta
isto: a estrela que te devora e de que tremes todo,
bêbado e nocturno?
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mesmo assim fez grandes mãos, mãos sem anéis, incorruptíveis,
e aplicou-as nas matérias virgens,
escreveu algumas palavras numa folha fechada escreveu-as
oh milagre na folha estanque, e elas
transbordaram:
morreu disso
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se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em
qualquer parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue
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já sai para o visível e o conjunto a olaria,
e soprada, tocada, respira toda,
linhas rectas, cruas,
e dentro da respiração já brilha,
vária, cozida, única,
cântaros, púcaros, alguidares, infusas
já começam no invisível
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se me vendam os olhos, eu, o arqueiro! acerto
em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo —
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
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bic cristal preta doendo nas falangetas,
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de ouro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
— isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo
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isto que às vezes me confere o sagrado, quero eu
dizer: paixão: tirar,
pôr, mudar uma palavra, ou melhor: ficar certo
com a vírgula no meio da luz,
dividindo,
erguendo-me do embrulho da carne obsessiva:
que eu habite durante uma espécie de eternidade
o clarão —
isto não o entendo, esta pancada desferida
no máximo concreto: copo,
cigarros,
o livro, e do próprio meu: a ininterrupta
amargura da memória, o tão pouco de
quente respiração — isto
eu não entendo que os dedos sejam arrancados com o copo, que
no caderno a vírgula
fundamental
trave tudo para sempre — e depois é a obra das bruscas
aberturas, a abertura de cada coisa, e cada
minha abertura na abertura
do mundo — isto
não o entendo fora e dentro, esta
velocidade, só
porque fui tão oficinal com as pontuações mais simples
e o quotidiano em baixo,
amor e desamor
— porque não entendo que uma garra me tenha apanhado por trás
da cabeça
e me tenha impelido, e o
desequilíbrio sobre as árduas escritas em casa, ou a
devastação morfológica, ou
um abalo, um abuso,
nada,
me concedam a sumptuosa ignorância quantas atmosferas acima
dos pés na vírgula: o
arrebatamento