Herberto Helder

Herberto Helder

1930–2015 · viveu 84 anos PT PT

Herberto Helder foi um poeta português singular e enigmático, conhecido pela sua obra avassaladora e experimental que desafia classificações fáceis. A sua poesia é um universo denso e labiríntico, marcado por uma linguagem transgressora, pela exploração visceral do corpo, da sexualidade, da morte e da transcendência. Helder é considerado um dos poetas mais originais e influentes da literatura portuguesa contemporânea, com uma obra que continua a intrigar e a fascinar leitores e críticos pela sua radicalidade e pela sua profunda reflexão sobre a condição humana e a própria natureza da linguagem e da poesia.

n. 1930-11-23, Funchal · m. 2015-03-23, Cascais

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Tríptico

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.



(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
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Biografia

Identificação e contexto básico

Herberto Helder, cujo nome de nascimento era Herberto Helder da Silva, foi um poeta, tradutor e editor português, amplamente considerado uma das figuras mais originais e enigmáticas da literatura portuguesa do século XX e XXI. Nasceu em Funchal, Madeira, e viveu grande parte da sua vida em Portugal continental, em Lisboa e no Porto. Escreveu em português e a sua obra é marcada por uma constante experimentação linguística e temática, explorando os limites da linguagem e da representação.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a sua infância e formação, uma vez que Helder cultivou um profundo secretismo em torno da sua vida pessoal. Sabe-se que teve uma educação formal, mas a sua verdadeira formação parece ter sido autodidata e moldada por um contacto intenso com a literatura, a filosofia e as artes. A sua obra revela uma vasta cultura e uma capacidade única de absorver e reconfigurar diversas influências.

Percurso literário

O percurso literário de Herberto Helder é marcado por uma produção intensa, embora por vezes esporádica e avessa às convenções editoriais. Iniciou a sua atividade literária nas décadas de 1950 e 1960, publicando poemas em revistas e antologias. A sua obra evoluiu num sentido de radicalização e aprofundamento, explorando temas cada vez mais complexos e utilizando uma linguagem cada vez mais ousada e transgressora. Foi também tradutor e editor, tendo tido um papel relevante na divulgação de obras estrangeiras em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "A Colher na Boca" (1961), "O Ofício de Ser Saudade" (1975), "Poesia" (1974) e "Payback" (1977). Os temas centrais da sua poesia são o corpo, a sexualidade, a morte, o sagrado, a matéria, a memória e a própria linguagem. O seu estilo é inconfundível, caracterizado por uma densidade imagética extraordinária, por um vocabulário rico e por vezes obscuro, e por uma sintaxe fragmentada e elíptica. Helder utiliza recursos como a metáfora ousada, a acumulação e a repetição para criar um efeito de vertigem e de intensidade. A sua voz poética é visceral, confessional e ao mesmo tempo universal, explorando a fragilidade e a força do ser humano. Introduziu inovações radicais na forma e no conteúdo da poesia portuguesa, dialogando com a tradição, mas projetando-a para um futuro incerto e experimental. É frequentemente associado a uma poética existencialista e a uma vanguarda literária sem paralelos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Herberto Helder atravessou um período histórico de grandes transformações em Portugal, incluindo o fim da ditadura e a transição para a democracia. No entanto, manteve-se, em grande medida, à margem dos círculos literários e dos movimentos artísticos mais estabelecidos, cultivando uma postura de independência e de distanciamento. A sua obra dialoga com a tradição modernista, mas projeta-se para além dela, antecipando muitas das preocupações da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Helder foi uma figura notoriamente reclusa e avessa a exposições públicas. Pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, relações afetivas ou convicções políticas e religiosas. A sua obra é, em si mesma, a principal porta de entrada para o seu universo interior, onde a experiência humana é explorada nas suas vertentes mais cruas e transcendentes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha mantido uma postura discreta, Herberto Helder conquistou um lugar de profundo respeito e admiração na literatura portuguesa. A sua obra é considerada de vanguarda e a sua influência tem vindo a crescer ao longo do tempo, sendo reconhecida por críticos, académicos e por um público cada vez mais alargado que se sente atraído pela sua radicalidade e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências em Herberto Helder são vastas e diversificadas, abrangendo a literatura universal, a filosofia, a religião e as artes. O seu legado é o de um poeta que levou a linguagem poética a novos limites, que explorou a complexidade do ser e que ofereceu uma visão intransigente e visceral da existência. Influenciou uma nova geração de poetas com a sua audácia e a sua liberdade criativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Helder é um desafio constante para a crítica, dada a sua complexidade, a sua densidade e a sua natureza polissémica. As interpretações focam-se na sua exploração da alteridade, da transgressão, do corpo como lugar de revelação e da linguagem como matéria primordial. Debates sobre a sua posição na poesia portuguesa e o seu impacto na literatura contemporânea são recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um dos aspetos mais curiosos de Herberto Helder é o seu mistério. Viveu uma vida praticamente anónima, protegendo a sua privacidade com um rigor quase absoluto. A sua obra, no entanto, é de uma transparência e de uma visceralidade arrebatadoras, contrastando com o seu silêncio exterior.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Herberto Helder faleceu em Lisboa, deixando uma obra que continua a ser descoberta e a ser objeto de estudo. A sua memória é a de um poeta intransigente, um criador de mundos e um mestre da palavra que marcou indelevelmente a paisagem literária portuguesa.

Poemas

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19

a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
1 023

Elegia Múltipla - Iii

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
1 200

22

e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
578

2

sobressalto,
ressalto de luz no bolso,
entre orvalho e fogo colhido de fresco na sua árvore,
escondido rápido enquanto se foge,
sem a mancha ainda da moda e do modo,
queimava o bolso contra a carne,
queimava pela carne algo menos fácil que ela,
que do seu pouco diamantífero cada qual faz o que pode
1 118

16

e eu reluzo no fundo de um universo que desconheço,
e sou um nome apenas,
Constelação do Lobo,
mas saindo desse nome remoto entro logo na mais extraordinária
autoria,
e caçam-me através de velhas florestas côr de púrpura,
e cortam-me a língua para eu não uivar de um monte a outro o
louvor da Loba,
mas que me importa?
suba-te pelo dorso, com mão ou sôpro, uma labareda maior do que
tu própria,
farejo-te, lambo-te côna e bôca,
mordo-te as coxas e o pescoço até ficar bêbado,
e com sangue na bôca entro em ti e dentro de ti faço um nó enquanto
me semeio,
e há uma espécie de doçura que nos oculta,
e toda a noite se vê arder o ramo de fogo do poema que se depura:
quando penso nos grandes dias findos,
en respirant j’attire vers moi l’air,
la terre tremble partout où je vais,
eu que era o louco dos loucos,
rápido e rijo como o rei dos lobos,
até os cães me sabiam do medo,
e veio a Loba,
só a chamei como se fôra a morte que me doía, coração e testículos
entre os membros,
glória da terra,
mas sou a mesma constelação no mesmo mundo escuro,
criatura ligada a outra por um nome luminoso,
uma doçura que a violência criou na gravíssima floresta púrpura,
onde pela raiz me arrancaram a língua para eu não chamar nunca ms
a minha Lof
nem ter o poder dos meus poemas
Biographies des troubadours, Jean Boutières
Les troubadours, Jacques Roubaud
Antologia poética de Ezra Pound, org. Augusto de Campos
não some, que eu lhe procuro, e lhe boto
faca à garganta,
ou na cabeleira tanta tanto fogo que você vira incêndio
em que se não tem mão, puta,
eu sei mas não me importa, quero é te apanhar
em uma braçada como de espuma,
mas se some eu lhe dano, essa sim, a puta de sua vida,
alta criatura chegada na terra muda,
em todo lado,
o dia todo,
a noite toda,
como se vê que uma árvore tem tanta folha luzindo
em toda parte dela e do vento e do tempo,
não some não, que eu desmundo
cada sítio do mundo onde
você estava ou está ou há-de estar, e comunico só do toque
que lhe pônho num mamilo,
no umbigo,
no clitóris,
na unha mindinha do pé esquerdo,
só porque tu estremece dos estudos de meus dedos exultantes,
não some nunca, fica morrendo de meu sôpro,
ou dá luz como fôlha contada uma por cima de outra
que é isso: puta?
pequena, se fôr às raízes latinas,
mas tudo cresceu tamanho, grão de cobre
esparzido pelas capitais do corpo: púbis, cabeça,
porque você é tão cerrada em sua vida própria,
trigo na noite,
excessiva beleza terrestre bruxuleando um pouco adentro,
que bèsteira de lhe chamar de puta,
de pequena,
ou mesmo se lhe chame de grande puta,
se der o fora
jai dolor!
se sabedes novas da minha amiga, socorro de minha baixa biografia,
ai Deus e u é?
vou à procura, encontro, jógo
vitríolo em teu rosto, desfiguro, ou com o calor da mão te lavro
por você acima,
casa ardendo cheia de uma estréia incalculável,
jah minha boca lhe come externa de nenhuma roupa sôbre que
carne soberba!
das plantas dos pés às pálpebras,
inteira,
e outra vez dos giolhos ou joelhos, como queira, à côna, e da côna,
divertimento linguístico lato sensu,
ao rés da penugem na testa rápida, amor,
não provoque, não some, que esse
beijo que agora coméço é para não
acabar nunca,
não queira que eu vá crer em Deus e pedir milagre,
fique, tão puta quanto seja, com
seu jeito de água marítima,
balançando, menininha, barca bêbeda,
mas enredada em mim como o alimento luminoso,
ah se incendeie a gente um do outro, que morte
ou vida mais total
não há, não some não, amor
da puta de minha vida indistinta,
noite onde me envolvo para sempre,
que simples, contudo, com tudo isso, que é se cruzar com o mundo,
fique, fica junto, funda fêmea, que você já me está
fundada no sangue desde que outrora, e agora, e na hora da nossa
belo belo é o meu amado correndo pelas colinas como um cêrvo:
e se um dia eu lhe sumi, venho
indo, agora, vindo, chegando contra você,
coberta de oiro fino, a luz movendo meu cabelo, em cima da água fri
e depois tu vai e vem defronte de minha porta,
e pára,
e toca nos fechos dela cerrada sobre si própria, e se
me turvam as entranhas, se
sobressaltam,
o mundo está cheio de água,
está cheio de meu regresso,
e em um grande espaço eu que sou transparente a você que és coroai
cada vez me chego mais batendo direito,
me põe como um sêlo em teu braço,
porque o amor é mais forte que a eternidade dos mortos,
e eu estou deitada, e levanto de minha cama, e você vem avançando,
e sobe da noite como uma coluna de ar ou uma ressaca de água, e
rompe por minha casa, e me ata de boca e sexo,
tu de pé eu de giolbos te tomo em minha boca
tua boca obscura
e teu pênis arrojado, e lhe mordo manselinho, e depois lhe devoro
aonde faz o nó do sôpro,
oh me ama delicada, como me beijara, uma a uma, pés e mãos,
as unhas,
e tanto se me está crecendo o cabelo que vejo êle debaixo de tua fome,
sim me come de meu cabelo até o mais raso,
no chão do mundo,
e com teus braços terríveis me cruza toda,
que ainda me está doendo do pêso de seu beijo
na risca rosa no meio de virilha até virilha,
e entra em mim e que as coxas me estremeçam,
te mete inteiro
por boca e cu e côna adentro,
que os que louvam a Deus esse Deus os devora,
como a fêmea louva-a-deus ao macho, puta,
rediviva, tua, nunca sumo para sempre que sempre me restituo,
andando sobre água fria
oh noche, que juntaste amada con amado, amado en la amada
transformado!
: inexplicável: claro
1 375

8

estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
807

15

roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
1 138

Fonte - Iv

Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
1 202

Tríptico - I

Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
1 854

Elegia Múltipla - Iv

Acolher de súbito cai no silêncio da língua.
Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos
puros. E sei que não é uma flor aberta
ou a noite cercada de águas extremas.
Paro por esta monstruosa,
ingénua força da morte.
—Acolher envolvida pelo silêncio extenuante
da minha boca, da minha vida.

Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,
e tímido e arguto
alimenta a sua irónica inspiração solar,
a inocente astronomia
de ossos e estrelas, veias e flores
e órgãos genitais —
para que tudo se construa docemente,
com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,
sorrindo fixamente como as crianças na lírica,
tenebrosa densidade da carne.

A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,
manso, ponderado—uma
beleza evocativa e confusa.
Eis: sou um homem que instante a instante
ganhava um sabor de perene
sentido, uma duração de sombra extasiada,
laboriosa, inclinada no grave centro
da primavera — a sombra
das minhas mãos.

A colher subia como um instrumento da criação,
firme subia nos dedos
como que invocando, unindo os fragmentos
do espírito,
a mímica na sugerida integridade
da pessoa
colocada na doce integridade do tempo.
Mas paro. Cai no silêncio da língua
a colher que era — quem sabe? — música,
intimidade, sinal fortuito
de uma essência, um génio interior.

O puro roer devagar roerá
a colher na mão e a boca na colher,
e no sangue imóvel o pudor da imagem onde
coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam
na assimetria festiva e sagaz das invenções.
— Cai
no silêncio da língua a colher tão brusca.
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Comentários (3)

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Graca
Graca

I can't keep a secret??

euskadia

H. H.

Julia
Julia

Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10