Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

1820–1882 · viveu 61 anos BR BR

Joaquim Manuel de Macedo foi um escritor, jornalista e político brasileiro, figura proeminente do Romantismo no Brasil. É mais conhecido por seu romance "A Moreninha", que se tornou um marco na literatura nacional. Sua obra contribuiu para a consolidação de uma identidade literária brasileira, explorando temas como o amor, a sociedade e os costumes da época, com um estilo que mesclava o sentimentalismo com o nacionalismo.

n. 1820-06-24, Itaboraí · m. 1882-05-11, Rio de Janeiro

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A Bela Encantada

(Escrito no álbum de uma Senhora)

Mancebo imprudente, leviano mortal,
Ausenta-te, foge, se não, ai de ti!
Não fiques num sítio, qu'é sítio fatal,
Não pares aqui.

(...)

Se a visses... tão bela!... de branco vestida,
Coas negras madeixas no colo a ondear,
Tão só, qual princesa de um trono abatida,
Cismando ao luar...

Se a visses... tão branca, da lua ao palor
Uma harpa sonora então dedilhar,
E à margem do lago ternuras de amor
Essa harpa entornar...

Se então tu a visses... tão branca e tão bela
Com a harpa inclinada no seio ao revés,
Vertendo harmonias, com a lua sobre ela,
E o lago a seus pés...

Se a visses... não vejas, incauto mortal;
Ah! foge! ind'é tempo; não pares aqui;
Não fiques num sítio que é sítio fatal;
Se não — ai de ti!...

Não vejas a bela, que em vê-la há perigo;
Estila dos lábios amávio traidor;
Não vejas!... se a vires... — eu sei o que digo!... -
Tu morres de amor!

Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1849


In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.1, n.5, p.178-180. 185
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Biografia

Identificação e contexto básico

Joaquim Manuel de Macedo foi um proeminente escritor, jornalista e político brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro e faleceu na mesma cidade. É considerado um dos principais representantes do Romantismo no Brasil, especialmente na prosa.

Infância e formação

Joaquim Manuel de Macedo nasceu em uma família de classe média. Realizou seus estudos na Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou em 1843. Durante sua formação, teve contato com as ideias literárias e políticas da época, que influenciaram sua produção.

Percurso literário

O percurso literário de Macedo iniciou-se com a publicação de "A Moreninha" em 1844, um romance que alcançou grande sucesso e o consagrou como escritor. Posteriormente, escreveu outros romances, poemas e peças de teatro, consolidando-se como uma voz importante do Romantismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra mais famosa de Macedo é "A Moreninha" (1844), um romance juvenil que retrata o amor idealizado, os costumes da sociedade carioca e o cenário nacional. Outras obras relevantes incluem "O Moço Velho" (1861) e "A Luneta do Tempo" (1869). Seu estilo é marcado pelo sentimentalismo, pelo idealismo amoroso, pela descrição detalhada de ambientes e pela crítica sutil aos costumes da época. Utilizou uma linguagem acessível, com forte apelo emocional, e frequentemente explorou temas como o patriotismo, a família e a moralidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Macedo viveu durante o Segundo Reinado no Brasil, um período de consolidação do Estado nacional e de busca por uma identidade cultural própria. Como romancista, contribuiu para a formação dessa identidade literária, retratando a sociedade brasileira e seus valores. Foi amigo de outros escritores importantes da época, como Gonçalves Dias, e participou ativamente da vida intelectual e política do Rio de Janeiro.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Joaquim Manuel de Macedo teve uma vida dedicada às artes e à política. Foi professor, jornalista e atuou como deputado provincial. Suas relações pessoais e sua vivência na sociedade carioca certamente influenciaram a criação de seus personagens e a ambientação de suas obras.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção "A Moreninha" foi um sucesso imediato e o consagrou em vida. Macedo foi reconhecido como um dos pilares do Romantismo brasileiro. Sua obra é estudada até hoje como um importante testemunho da sociedade e da literatura do século XIX no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra foi influenciada pelo Romantismo europeu, mas adaptada à realidade brasileira. Macedo deixou um legado como o escritor que popularizou o romance no Brasil, introduzindo temas e personagens que ressoaram com o público leitor da época e que abriram caminho para futuras gerações de romancistas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Macedo é frequentemente analisada como um reflexo dos valores burgueses e patriarcais da sociedade imperial brasileira. "A Moreninha", em particular, é vista como um romance que idealiza o amor romântico e a figura feminina, ao mesmo tempo em que contribui para a construção de um imaginário nacional.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de escritor, Macedo também se dedicou à política, tendo sido deputado provincial. Sua obra literária é um retrato fiel dos costumes e da sociedade carioca de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Joaquim Manuel de Macedo faleceu em 1882, no Rio de Janeiro, deixando um importante acervo literário que o imortalizou como um dos grandes nomes do Romantismo brasileiro.

Poemas

16

Pelo dinheiro um homem de juízo

(...)

Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.

Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.

(...)


Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
1 976

Canto V - A Mãe

Mas é noite; em seu manto de papoulas
A's donzelas acolhe um brando sono.
Em vasta sala que as janelas abre
Para o remanso de escolhidas flores,
Descansa a Peregrina; em doces ondas
De perfumes fagueiras vêm as auras
Brincar com as telas de virgíneo leito;
Da mãe de Deus a imagem sacrossanta
Em áureo quadro à cabeceira pende;
Dorme feliz a cândida donzela,
E das roupas finíssimas e brancas
Sob as quais lindas formas se desenham,
Um colo, que no alvor supera a neve,
E um rosto divinal surgem formosos,
Onde estão os encantos pululando
Através das madeixas atrevidas,
Que soltas vão pousar no seio e face,
Nublando graças que paixões acendem.
Um braço nu, que das cobertas foge,
Tipo de perfeição meigo se dobra,
As telas conchegando ao níveo seio,
Instinto de pudor, inda no sono.
D'uma janela aos zéfiros aberta
Vê-se no Céu a lua, e a lua afável
De luz derrama enchentes sobre o leito,
Contemplando, qual anjo adormecido,
Imersa a Peregrina em seus fulgores.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.195-196
2 660

Bonita e marotinha, (Ato IV, Cena III)

(...)

Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.

Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.

Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.

Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.

Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...

Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.

(...)


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
2 311

Cântico: A Incógnita

(...)

"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?

"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"

Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.


In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
2 375

Canto V - A Mãe

Mas é noite; em seu manto de papoulas
As donzelas acolhe um brando sono.
Em vasta sala que as janelas abre
Para ver o remanso de escolhidas flores,
Descansa a Peregrina; em doces ondas
De perfumes fagueiras vêm as auras
Brincar com as telas de virgíneo leito;
Da mãe de Deus a imagem sacrossanta
Em áureo quadro à cabeceira pende;
Dorme feliz a cândida donzela,
E das roupas finíssimas e brancas
Sob as quais lindas formas se desenham,
Um colo, que no alvor supera a neve,
E um rosto divinal surgem formosos,
Onde estão os encantos pululando
Através das madeixas atrevidas,
Que soltas vão pousar no seio e face,
Nublando graças que paixões acendem.
Um braço nu, que das cobertas foge,
Tipo de perfeição meigo de dobra,
As telas conchegando ao níveo seio,
Instinto de pudor, inda no sono.
D´uma janela aos zéfiros aberta
Vê-se no Céu a lua, e a lua afável
De luz derrama enchentes sobre o leito,
Contemplando, qual anjo adormecido,
Imersa a Peregrina em seus fulgores.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A Nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s. d. p. 195-19
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A Capela e o Recolhimento de N S Bom Parto

No século XVIII ajuntou-se à Capela de N. S. do Parto um notável apêndice que modificou não pouco a sua vida suave, modesta e sossegada.

Estevão Dias de oliveira deixara por sua morte uma avultada soma para se distribuir em benefício de sua alma, depois de satisfeitos alguns legados que dispusera.

Ah! Que regalo! Que mina de caroço para certos testamenteiros da nossa época! Mas o bispo D. Frei Antônio do desterro, fazendo-se então testamenteiro do legatário, e vendo cumpridas as disposições por este especificadas, aplicou, obtido para isso, o breve pontifício, mais de quarenta mil cruzados que ainda tinham ficado, à fundação de um recolhimento para asilo de mulheres não virgens que, deixando a perversidade do século, fossem ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular comportamento.

No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não poucas arrependidas.

Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo entraram.

Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo, outras desprezadas pelo mundo delas cansado.

Eram as recolhidas voluntárias. A segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou supostas faltas, e em punição de desobediência à vontade de seus pais.

Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em esconder-se de um mundo de que não gostavam, e que provavelmente já não gostava delas. O que vou dizer não se entende, pois , com as voluntárias.

A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção neste passeio, que vai tocar muito perto nos direitos e na causa social do sexo feminino.

Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar exclusivamente a Deus uma senhora casada eu tivesse amado demasiadamente a um próximo que não era o seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.

Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão para os esposos infidelíssimos.

Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se aproveitaram do asilo para atormentar, como acabo de dizer, algumas inocentes, e castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e venerado prelado.

O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara Recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do desterro, não porque Antônio do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por elas aquele asilo.

E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim para se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas a pretexto de irem receber mo piedoso retiro educação moral e religioso.

É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que deu lugar o Recolhimento do Parto.

Explicarei os motivos dessa falta de simpatia, e aposto que ainda atualmente as senhoras hão de achar muita razão às suas antepassadas.

D. Frei Antônio do Desterro, prelado distinto por suas virtudes e sabedoria, e pelo seu zelo, era tão simples e humilde eu, vestido de monge, conservava também a coroa regular, conformando-se com o mesmo rito no oficio divino. Severo consigo, justo, mas compassivo com todas as suas ovelhas, ativo fiscalizador do proceder dos párocos, mantenedor do culto, benfeitor das igrejas e conventos, e especialmente de mitra fluminense, que lhe deve, além de outros legados, o da chácara do Rio Comprido, que todos conhecem pelo nome de chácara do bispo, caiu, apesar de tudo isso, no desagrado das senhoras por um pecado de mau gosto e por um pecado de rabugem.

O pecado de mau gosto foi cometido pelo bispo, quando proibiu que aparecessem nas procissões da quaresma os penitentes de açoites e outras figuras que tornavam mais divertido o espetáculo religioso. Os penitentes de açoites, sobretudo, trajando ricos vestidos e açoitando-se ou fingindo açoitar-se, davam muita graça às procissões, apraziam às senhoras, e o prelado teve a idéia infeliz de acabar com aquela variedade de entretenimento.

O pecado de rabugem foi pior ainda. O bispo proibiu, sob pena de excomunhão maior, que os homens se reunissem nos adros e às portas das igrejas para verem entrar e cortejarem as belas devotas. Que estas falassem e conversassem com os homens nestes lugares. E que, enfim, fossem às igrejas por qualquer motivo desde o tanger de Ave-Maria até a hora matutina, executando-se desta última proibição unicamente as pobres que corressem às missas e confissões de madrugada.

Não discutirei a procedência das acusações que as senhoras faziam ao velho bispo, e pelas quais o consideravam rabugento e impertinente. Certo é, porém, que os abusos de que algumas foram vítimas depois da fundação do Recolhimento de N. S. do Parto deram até certo ponto justificado fundamento, não ao seu ressentimento contra o prelado, mas à sua inimizade ao asilo.

Se o piedoso e santo recolhimento abrisse as suas portas somente àquelas senhoras que voluntariamente fossem procurar o religioso retiro, não havia que dizer, ao menos naquele tempo. Se, além de recolhimento de velhas arrependidas, desvirtuado embora o pensamento que presidira à sua fundação, servisse para receber e educar meninas e jovens, havia muito o que louvar, uma vez que a educação fosse ali bem dirigida. Mas o asilo que se levantara foi mais do que isso, foi uma terrível ameaça de pedra e cal, tornou-se em uma espécie de casa de correção feminina, em uma espécie de cadeia que fazia medo não só às más esposas com às esposas de maus maridos, e também às moças solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes.

Realmente era uma questão muito grave que se decidira contra o belo sexo à custa dos quarenta mil cruzados do finado Estevão Dias de Oliveira.

Naquele tempo (no bom tempo), m grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.

Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais.

Está visto que era a mulher, o ente passivo, a senhora escrava, quem mais tinha de sofrer em tais circunstâncias sociais, e, sem o pensar, veio o bispo D. Antônio do Desterro acrescentar mais um tormento para as vítimas e as culpadas, fundando o Recolhimento do Parto.

Em um ou outro caso, sempre por exceção acontecia que alguma jovem mais esperta ou mais sonsinha chegava a amar algum mancebo sem licença do papai ou da mamãe, e tin
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