Lista de Poemas

Curvas perigosas

"E aconteceu à hora da tarde que Davi se levantou do seu leito,
e andava passeando no terraço do casal real, e viu do terraço
a uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui
formosa à vista" – II Samuel 11: 1-27

A água desce
vagarosamente
sobre um corpo quente
gota em gota

absorvente que envolve
como quem se delicia
em barco à deriva

em rio calmo
de curvas perigosas.

923

AS CHAMAS DE ALMAS MORTAS

Para o Pataxó: Galdino Jesus dos Santos - em memória

As chamas de almas mortas
Se movem - Mais um índio cai inerte
Envolto pelas chamas ignotas
De um desdenhar que perverte.

Almas que se ocultam entre as chamas
Para o destilar do ódio, da amargura...
E, surdas, em noite escura,
Não ouvem um ser que clama!

Em meio àquelas labaredas, terminal
De sonhos, esperanças, calor...
Que viraram tochas em macabro ardor
De madrugada seca e infernal

Vislumbramos a solidão do deserto
Que há em todos nós, que navegamos
Em mar vermelho e incerto
De tubarões gélidos que encontramos.

Era um Pataxó que quisera ser
Mendigo de suas próprias heranças
Destronado que fora dos sonhos de ter
Suas matas, habitadas de lembranças.

Recebeu sua parte comendo o pão
Buscado sob mesas fartas,
O seu pedaço de chão:
Em chamas, à semelhança de suas matas.

1 106

Fim Natural

És o fim natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...

927

Ato de Dormir

O dormir: ante-sala da morte
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias

Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal

Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa

Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...

Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem

Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...

1 183

Paris

"As an artist, a man has no home in europe save in Paris"

Vi-a de relance
de soslaio, como um triz
Visão de um romance,
em sonho, era Paris

Aprazível é ver exposição no Petit Palais
É caminhar por montparnasse
Sentir Les Fleurs Du Mal, Baudelaire
Bom seria se não passasse!

Como definir? Se quimeras
Se real
Se teus bulevares, deveras
te engalanam de modo abissal?

És o próprio sonho, Paris
cuja fragrância lembra a do anis.

1 056

Pais Escolhidos

(para Lucas e Laura)

Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade

Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos

Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo

Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade

De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’

Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...

987

Sestina do Shema

I
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser

II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder

III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma

IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!

V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!

VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...

VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.

2 de janeiro de 1997.

Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.

943

Nu como um Yanomami

A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!

Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.

Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.

1 435

Como será o céu?

Lá no céu, como seremos?
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?

Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante

A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade

É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.

1 139

Chuva

Chuva, chove
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...

Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...

Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.

Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...

Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).

enchente de janeiro de 1977.

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Juscelino Vieira Mendes
Juscelino Vieira Mendes

Livro: Balé do espírito.

Juscelino Vieira Mendes
Juscelino Vieira Mendes

Advogado, escritor e poeta, com formação filosófica.

Identificação e contexto básico

Juscelino Vieira Mendes é um poeta português. A sua obra insere-se no panorama da poesia contemporânea portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Juscelino Vieira Mendes não estão amplamente documentadas em fontes públicas, mas é possível inferir que a sua sensibilidade poética foi moldada por um ambiente cultural que valorizava a arte e a reflexão.

Percurso literário

O percurso literário de Juscelino Vieira Mendes tem vindo a consolidar-se através da publicação de obras poéticas que exploram a profundidade da experiência humana. A sua escrita caracteriza-se por uma constante busca pela expressão lírica e pela renovação do olhar sobre os temas universais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Juscelino Vieira Mendes caracterizam-se pela profundidade lírica e pela introspeção. Explora temas como o amor, a memória, a passagem do tempo e a busca por sentido, utilizando uma linguagem cuidada e uma musicalidade intrínseca aos seus versos. A sua poesia é marcada por uma sensibilidade apurada para as nuances emocionais e pela capacidade de evocar imagens vívidas. O seu estilo é por vezes confessional, outras vezes mais universalizante, mas sempre com um tom contemplativo e uma forte carga imagética. Juscelino Vieira Mendes dialoga com a tradição da poesia lírica portuguesa, mas imprime-lhe uma marca contemporânea através da sua abordagem temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Juscelino Vieira Mendes insere-se no contexto da poesia portuguesa contemporânea, um período marcado pela diversidade de estilos e pela reflexão sobre a identidade e a sociedade num mundo em constante mudança. As suas criações poéticas refletem sensibilidades e preocupações comuns aos escritores da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Juscelino Vieira Mendes que possam ter influenciado diretamente a sua obra não são amplamente divulgados. No entanto, a natureza introspectiva e lírica da sua poesia sugere uma forte conexão com experiências interiores e observações do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Juscelino Vieira Mendes tem vindo a crescer no seio da crítica literária e entre os leitores de poesia em Portugal. A sua poesia é apreciada pela qualidade estética, pela profundidade temática e pela originalidade da voz poética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas na obra de Juscelino Vieira Mendes não sejam explicitamente detalhadas, a sua poesia partilha afinidades com a tradição lírica portuguesa, ao mesmo tempo que aponta para uma modernidade na abordagem de temas e na exploração da linguagem. O seu legado reside na contribuição para a vitalidade da poesia contemporânea em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Juscelino Vieira Mendes convida a múltiplas interpretações, convidando o leitor a uma imersão em estados de alma e reflexões existenciais. A análise crítica tende a destacar a sua capacidade de articular a melancolia com a esperança, a efemeridade da vida com a permanência do sentimento.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ainda que Juscelino Vieira Mendes seja um autor que valoriza a discrição, a sua dedicação à escrita poética é um testemunho da sua paixão pela palavra e pela arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Juscelino Vieira Mendes encontra-se vivo, continuando a sua produção literária e a enriquecer o panorama poético português.