Lista de Poemas

Eles têm a imprensa, eles têm a bolsa de valores — e agora também o subconsciente!
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Os psicólogos são perscrutadores do vazio e embusteiros da profundidade.
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As sátiras que o censor compreende são proibidas com razão.
56
Os filhos de pais psicanalistas definham precocemente. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes perguntam que ideias lhes vieram à mente quando viram um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade em que o jovem pode confessar um sonho em que violou sua mãe.
59
Boas opiniões não têm valor. O que importa é quem as tem.
67
Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem só interessa, no fundo, o fato de ter sido você que roubou alguma coisa.
75
O imbecil que não pode passar diante de nenhum enigma do universo sem observar, se desculpando, que se trata de sua humilde opinião, embolsa o elogio da modéstia. O artista que se deleita com seus pensamentos junto a um bueiro, se ufana.
56
Megalomania não é nos considerarmos mais do que somos, mas nos considerarmos aquilo que somos.
54
O clichê é o peitilho engomado sobre uma mentalidade normal que nunca é trocada.
62
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o fato de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada em meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “em meu próprio jornal”. Tendo sido chamada minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano de minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais de minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.