Lista de Poemas

O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais, mas de que os clichês continuam trabalhando automaticamente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acontecer, sem serem intimidados pelos clichês, eles cessariam quando os clichês fossem destruídos. A coisa começa a apodrecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichês.
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O clichê e a coisa são uma coisa só.
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Qualquer criança vê o progresso que vai do Taígeto à incubadora.
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Quando chegará o tempo em que se precisará informar no recenseamento o número de abortos feitos em cada casa?
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A distorção da realidade na reportagem é a reportagem mais verídica sobre a realidade.
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A arte do escritor não o deixa balançar sobre a corda bamba de um período bem esticado, mas lhe transforma um ponto final num problema. Ele pode se atrever ao insólito; cada regra, porém, se dissolve para ele num caos de dúvidas.
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A arte deve desagradar. O artista quer agradar, mas não faz nada para agradar. A vaidade do artista se satisfaz na criação. A vaidade da mulher se satisfaz no eco. Ela é criativa como aquela, como a própria criação. Ela vive no aplauso. O artista a quem a vida recusa o aplauso de direito o antecipa.
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Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensamentos que pensei até chegar a um pensamento, e volumes inteiros com aqueles que pensei depois.
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Homens criativos podem se fechar à impressão das criações alheias. Por isso, muitas vezes assumem uma atitude de rejeição ao mundo, embora não raras vezes sintam a sua imperfeição.
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A exigência de que uma frase seja lida duas vezes porque só então o sentido e a beleza se revelam é considerada arrogante ou doida. A esse ponto o jornalismo levou o público. Sob a arte da palavra, este não é capaz de imaginar outra coisa do que a capacidade de tornar uma opinião clara. Escreve-se “sobre” alguma coisa. Os pintores de paredes ainda não corromperam tão radicalmente o gosto pela pintura quanto os jornalistas o gosto pela literatura. Ou, naquele caso, o esnobismo dá seu auxílio e protege o público de admitir que também na pintura ele apreende apenas o processo. Qualquer corretorzinho da bolsa hoje sabe que, por delicadeza, precisa ficar parado dois minutos diante de um quadro. Na verdade, ele também está satisfeito de que se pinte sobre alguma coisa. A hipocrisia com que os cegos falam das cores é grave. Porém mais grave é o atrevimento com que os surdos reclamam a linguagem como instrumento do ruído.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.