Lista de Poemas

Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas não a insegurança do criador.
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O homem que não pensa, pensa que só temos um pensamento quando o temos e o vestimos com palavras. Ele não compreende que na verdade só o tem aquele que tem a palavra dentro da qual o pensamento cresce.
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Por que o público é tão insolente em relação à literatura? Porque ele domina a língua. As pessoas se atreveriam exatamente da mesma maneira em relação às outras artes caso se dirigir cantando aos demais, lambuzar-se com tinta ou atirar gesso fossem meios de comunicação. A desgraça está justamente no fato de a arte da palavra trabalhar a partir de um material que passa todo dia pelas mãos da ralé. É por isso que a literatura não tem mais salvação. Quanto mais ela se afasta da compreensibilidade, tanto maior é a impertinência com que o público reclama seu material. O melhor seria esconder a literatura do público até entrar em vigor uma lei que proíba as pessoas de usarem a linguagem coloquial e apenas lhes permita fazer uso de uma linguagem de sinais em casos de urgência. Mas até que essa lei entre em vigor, elas poderiam ter aprendido a responder à ária “Como vão os negócios?” com uma natureza morta.
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O sentido tomou a forma, ela resistiu e se entregou. Nasceu o pensamento, que leva os traç os de ambos.
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Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jornalismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia válidos por um século para os relógios aos quais dá corda: eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de morte. Mas o gênio da hora segue em frente e faz amanhecer e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quando ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos.
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O que vive do tema morre antes do tema. O que vive na língua vive com a língua.
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O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro de seu curral, conquista sua pastagem nesse meio tempo. Jornalistas querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas quais nada causa mais espanto do que o trabalho não ter se desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a partir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência? O interesse permanente no material que eles “escolhem”. Alguém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido enquanto a eternidade durar? Dessa falácia vive o jornalismo. Ele tem sempre os maiores temas, e em suas mãos a eternidade pode se tornar atual; mas ela acaba envelhecendo com a mesma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto. Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente que seja seu motivo, sua obra cresce mais ilimitada e livremente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serenamente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas.
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A língua é a mãe, e não a criada do pensamento.
75
A ciência é análise espectral. A arte é síntese luminosa.
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Há imitadores de originais. Quando dois têm um pensamento, ele não pertence àquele que o teve antes, mas àquele que o tem melhor.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.