Lista de Poemas

Quem pensa profissionalmente nas razões do ser, nem sequer precisa realizar tanto a ponto de conseguir aquecer seus pés com isso. Mas ao remendar sapatos, mais de um já chegou perto das razões do ser.
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O leitor com espírito alimenta a mais forte desconfiança contra aqueles escritores que vagueiam por ambientes exóticos. No melhor dos casos, eles não estiveram lá. Mas a maioria é feita de tal maneira que precisa fazer uma viagem para ter algo a contar.
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Há uma originalidade que provém da carência, que não é capaz de se elevar até a banalidade.
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O burguês não tolera nada incompreensível dentro de casa.
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Os outros são artistas da prancheta. Loos é o arquiteto da tábula rasa.
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Kokoschka fez um retrato meu. É possível que aqueles que me conhecem não me reconheçam. Mas aqueles que não me conhecem certamente me reconhecerão.
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Num retrato de verdade, precisamos reconhecer qual pintor representa.
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Há também um exotismo temporal que socorre a falta de talento exatamente da mesma maneira que a abordagem de ambientes estrangeiros. A distância, em todo caso, não é um obstáculo, mas o mimetismo da falta de personalidade.
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Teatro de variedades . O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimônias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incômodo é tirado do caminho. Vigas se dobram à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incômodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida se tornou terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
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Ele pintava os vivos como se estivessem mortos há dois dias. Quando certa vez quis pintar um morto, o caixão já tinha sido fechado.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.