Lista de Poemas

Nada disso, não sou um resmungão; meu ódio contra essa cidade não é um amor que perdeu seu rumo, mas encontrei uma maneira inteiramente nova de achá-la insuportável.
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O escritor está aí para as pessoas? Para quando as noites se tornam longas? Vamos encurtá-las de outro modo! Contar-lhes mais alguma coisa? Algo empolgante antes que anoiteça completamente? Algo em fascículos? Estricnina e tortura! A noite é longa demais.
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A política nos engana com valores germano-austríacos de simpatia. Mas, exceto por brindes e libretos, não há nada que prove uma comunidade de espírito entre esses dois povos. Diplomatas e agentes teatrais estão empenhados na aproximação. Os de fora ficam sabendo então que há um reino misterioso em que Itzig e Janosch dão o tom, e nos estimam pela subvenção de sangue hussardo e amor cigano que o dia de trabalho berlinense recebe. Um teatro chamado judaísmo, que flutua entre a Ringstrasse e a Unter den Linden, atesta e representa nossa vida intelectual diante da Alemanha. Que diz a política sobre o fato de que não há livro que provenha da Áustria que não seja posto em música? A proveniência vienense é tão odiosa que só lhe são perdoados os produtos da imbecilidade e da patifaria. Por estas pelo menos se reconhece a origem e se admite a autenticidade. Mas que esforço sobre-humano custa impingir a literatura austríaca como presente a um vendedor ambulante! Que diz a política sobre o fato de que Die Fackel , que há tempos luta por não ser mais notória na Áustria, depois de apenas dez anos começa a se tornar o que ela é: um fato alemão?
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O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produção do kitsch , se emprega apenas material autêntico.
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Em Viena, os zeros se colocam à frente do um.
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O austríaco por certo tem a sensação de que nada pode lhe acontecer porque a consciência de ter nascido num lugar condenado o protege de surpresas.
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O imortal experimenta a calamidade de todas as épocas.
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O Diabo é um otimista se acredita que pode tornar os seres humanos piores.
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Nessa espelunca em que ladrões de cavalo húngaros trocam suas chances, nessa fumaceira de tabaco e usura, ouço subitamente entre teschek e betschkerek a palavra: Glaucope. Dita por um boca-aberta, mas com um efeito que me arrasta através dos milênios. Volto rapidamente a mim quando me ocorre que a deusa devia ser um cavalo de corrida.
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A carreira é um cavalo que chega sem cavaleiro diante dos portões da eternidade.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.