Lista de Poemas

E do último cantinho de uma folha de jornal que ainda tenho nas mãos, já me espreita, visto que apenas passo os olhos, a carantonha de Judas do século, sempre a mesma, quer se trate do jornalista ou do médico, do vendedor ambulante ou do adepto da política social, do vendedor de especiarias ou do esteta. Sempre o mesmo estupor, com os cabelos frisados da moda e empanturrado de cultura. Com a toalha de barbeiro da época sobre os ombros, todos os idiotas são iguais, mas quando se levantam e começam a falar sobre sua especialidade, um deles é filósofo e o outro é corretor da bolsa. Tenho essa capacidade funesta de não poder distingui-los, e reconheço o rosto primordial sem me esforçar pelo desmascaramento.
53
Não peço fogo a ninguém. Não quero devê-lo a pessoa alguma. Não na vida nem no amor, nem na literatura. E no entanto, fumo.
69
As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar.
61
O prazer do homem seria apenas um ímpio passatempo e jamais teria sido criado se não fosse o acessório do prazer feminino. A inversão dessa relação, transformada numa ordem em que um mísero clímax se arvora de essencial e, depois de deflagrado, interrompe tiranicamente a rica epopeia da natureza, significa o fim do mundo: mesmo que o mundo, com a compensação técnica, intelectual e esportiva, não o perceba por algumas gerações e não tenha mais fantasia suficiente para imaginá-lo.
52
Eu e a vida: o caso foi decidido cavalheirescamente. Os adversários se separaram irreconciliados.
54
Sonhei que não acreditavam que eu tinha razão. Eu dizia que eles eram dez. Não, doze, disseram. Tantos dedos quanto há nas duas mãos, eu disse. Então um deles levantou a mão, e veja só, ela tinha seis dedos. Onze, portanto, eu disse, e apelei à outra mão. E veja só, ela tinha seis dedos. Soluçando, corri para a floresta.
56
A vida é um esforço que seria digno de uma causa melhor.
53
O mundo externo é um sintoma secundário inoportuno de um estado de indisposição.
60
Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do mundo como um destino.
51
A mulher toma um por todos; o homem, todas por uma.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.