Lista de Poemas

Como? A humanidade se imbeciliza em favor do progresso maquinal e nem sequer deveríamos fazer uso dele? Deveríamos manter diálogos com a estupidez quando podemos escapar dela num automóvel?
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O desenvolvimento das máquinas beneficia apenas a personalidade que, passando pelos obstáculos da vida exterior, chega mais rapidamente a si mesma. No entanto, as cabeças medianas não estão à altura da hipertrofia desse desenvolvimento. Hoje ainda não podemos fazer a menor ideia da devastação promovida pela máquina de impressão. O dirigível foi inventado, e a imaginação se arrasta como uma diligência. O automóvel, o telefone e as gigantescas edições da estupidez — quem poderá dizer como serão os cérebros daqui a duas gerações? O afastamento em relação à fonte natural promovido pela máquina, a suplantação da vida pela leitura e a absorção de todas as possibilidades artísticas pelo espírito factual terão completado sua obra com rapidez surpreendente. Apenas nesse sentido se deveria compreender o despontar de uma era glacial. Nesse meio-tempo, não nos intrometamos na política social, mas deixemos que se ocupe de suas pequenas tarefas; deixemos que lide com a educação popular e com outros sucedâneos e opiáceos. Passatempos até a dissolução. As coisas estão se desenvolvendo de uma maneira para a qual não há exemplo nos períodos historicamente verificáveis. Quem não sente isso em cada nervo pode prosseguir sem receio a cômoda divisão em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De súbito se perceberá que as coisas não avançam. Pois a época moderna começou com a produção de novas máquinas para o funcionamento de uma ética antiga. Nos últimos trinta anos aconteceram mais coisas do que nos trezentos anos anteriores. E um dia, a humanidade terá se sacrificado pelas grandes obras que criou para seu alívio.
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Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensamentos que pensei até chegar a um pensamento, e volumes inteiros com aqueles que pensei depois.

 

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Fomos complexos o bastante para construir as máquinas e somos primitivos demais para nos deixarmos servir por elas. Praticamos o comércio internacional sobre trilhos cerebrais de bitola estreita.
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A vida maquinal estimula a poesia interior, o ambiente artístico a paralisa.
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O mundo é uma prisão em que é preferível a solitária.
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A arte deve desagradar. O artista quer agradar, mas não faz nada para agradar. A vaidade do artista se satisfaz na criação. A vaidade da mulher se satisfaz no eco. Ela é criativa como aquela, como a própria criação. Ela vive no aplauso. O artista a quem a vida recusa o aplauso de direito o antecipa.

 

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Para o filisteu, a arte é o enfeite das fadigas e tormentos do cotidiano. Ele tenta abocanhar os ornamentos como o cão a linguiça.
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A arte do escritor não o deixa balançar sobre a corda bamba de um período bem esticado, mas lhe transforma um ponto final num problema. Ele pode se atrever ao insólito; cada regra, porém, se dissolve para ele num caos de dúvidas.

 

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As instituições humanas precisam se tornar tão perfeitas a ponto de podermos pensar sem ser perturbados sobre a imperfeição das divinas.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.