Lila Ripoll

Lila Ripoll

1905–1967 · viveu 61 anos BR BR

Lila Ripoll foi uma poeta cuja obra explorou as profundezas da condição humana através de uma linguagem rica e imagética. A sua escrita é marcada por uma sensibilidade ímpar para as nuances emocionais e existenciais, abordando temas como o amor, a perda e a passagem do tempo com uma intensidade lírica notável. A sua poesia convida à reflexão sobre a fragilidade da existência e a busca por significado num mundo em constante transformação.

n. 1905-08-12, Quaraí · m. 1967-02-07, Porto Alegre

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Retrato

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!

Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.

A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma idéia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...

O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!

E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...

Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.

E sabe desde quando estou descrente!...


Publicado no livro De Mãos Postas (1938).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
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Biografia

Identificação e contexto básico

Lila Ripoll foi uma poeta de renome, cuja obra se inseriu no panorama da poesia contemporânea. A sua nacionalidade e língua de escrita principal foi o português. O contexto histórico em que viveu foi marcado por profundas transformações sociais e culturais, que inevitavelmente permearam a sua visão de mundo e a sua produção literária.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Lila Ripoll são escassas na documentação pública. Sabe-se, contudo, que a sua educação terá contribuído para o desenvolvimento de uma sensibilidade apurada para a linguagem e para as artes. As influências iniciais da sua leitura e ambiente cultural moldaram a sua perspetiva, absorvendo as correntes literárias e artísticas que lhe foram contemporâneas.

Percurso literário

O início da escrita de Lila Ripoll é um marco na sua trajetória. A sua evolução literária demonstra uma exploração contínua de temas e formas, com um desenvolvimento gradual ao longo do tempo. A sua obra foi apresentada em diversas antologias e publicações, consolidando a sua presença no meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lila Ripoll é caracterizada por uma profunda exploração de temas como o amor, a morte, o tempo e a identidade. A sua poesia distingue-se pelo uso de uma linguagem densa e imagética, com um ritmo que evoca a musicalidade intrínseca da existência. O tom lírico e confessional das suas composições convida à introspeção. O seu estilo, embora enraizado na tradição poética, apresenta inovações formais e temáticas que a associam ao movimento modernista, dialogando com a complexidade da vida contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Lila Ripoll reflete o contexto cultural e histórico em que se inseriu, marcado por intensas mudanças sociais e políticas. A sua poesia dialoga com as preocupações existenciais da sua geração e com os movimentos literários que a rodeavam, como o Modernismo. A sua posição, embora não explicitamente política, manifesta-se na forma como aborda a condição humana e as suas fragilidades.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de Lila Ripoll são limitados, mas é possível inferir que as suas experiências e reflexões moldaram a profundidade da sua obra poética. As suas relações afetivas e familiares, bem como as suas vivências individuais, terão contribuído para a carga emocional e existencial presente nos seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lila Ripoll alcançou um lugar de destaque na literatura, sendo reconhecida pela sua contribuição para a poesia. A sua obra tem sido objeto de estudos e a sua popularidade perdura entre leitores e críticos literários.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Lila Ripoll foi influenciada por autores que a precederam, e, por sua vez, a sua escrita deixou um legado significativo para gerações posteriores de poetas. O seu impacto na literatura nacional é notório, e a sua poesia continua a ser estudada e apreciada, mantendo a sua relevância e a sua entrada no cânone literário.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Lila Ripoll permite diversas leituras, explorando temas filosóficos e existenciais profundos. A sua obra tem sido alvo de análise crítica que procura desvendar as camadas de significado e a complexidade da sua expressão lírica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Lila Ripoll são escassas, mas a sua obra em si oferece uma janela para a sua profunda sensibilidade e visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Após o seu falecimento, a memória de Lila Ripoll tem sido preservada através da contínua leitura e estudo da sua obra, que permanece viva e relevante para a literatura.

Poemas

17

Retrato

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!

Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.

A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma idéia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...

O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!

E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...

Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.

E sabe desde quando estou descrente!...


Publicado no livro De Mãos Postas (1938).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
1 764

Fita Verde

Prendi uma fita bem verde
nos meus cabelos escuros.
Fiquei quase uma menina
capaz de subir nos muros.

Troquei de alma e de idade
e brinquei entre as crianças.
Meus pesares voaram longe...
e as minhas desesperanças.

Na roda da "Cirandinha"
ninguém cantou como eu.
Cantei, cantei todo o dia
até que o sol se escondeu.

E veio a noite e o cansaço
e nós fomos descansar:
as crianças de verdade
e eu que brinquei de enganar.

(...)


Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.2
2 411

Grilo

Um grilo fere
o silêncio com seu
canto.
Fere ouvidos
fere alma
pensamento
e solidão.

Risca o vidro
da janela.
Traça desenhos
no ar. Vai
crescendo
de insistência.
Parece agulha
de vidro. Fina
lâmina cortante
abrindo sulcos
no ar.

Vai o canto
se adensando
de mistura
com a chuva
Vai o canto
se adensando
de mistura
com o vento.

Grilo e chuva
na janela.
Grilo e vento
na vidraça.

Vento e chuva,
grilo e vento
levaram meu pensamento
e o desfolharam
no ar.


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
1 752

Floresta

De olhos fechados
mergulho em teu ventre.
Perfumes se encontram
no meu rosto. Braços
apanham meus cabelos.

Braços leves, pesados,
amorosos ou rudes,
Braços de cedro
ou espinheiro,
de parasitas
ou cravos selvagens.

No ar e na boca
um gosto de erva
amanhecida. Um gosto
de coisa lavada.
Um ar de chuva
e terra. Um gosto
de mundo amanhecendo.

Oh, enveredar
por esse mundo livre
e ser uma entre as árvores
que formam o volume
do teu rosto.

Enveredar por esse mundo livre.
Conhecer a geografia
do teu peito. Misturar-me
à conversa das folhas
e adivinhar o casamento
secreto das raízes!


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
1 478

Grito

Não, não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária. Definida.

As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo

Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.

Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.

Serei eu mesma. Estarei
inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada de amargor.

Não. Não irei sem grito.

Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —

que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.81-8
2 873

Ternura

Eu te amo com a ternura das mães
que embalam os filhos pequeninos.
E te amo sem desejos.

Perto de ti meus sentidos desaparecem.
Meu corpo tem castidades de santa e de menina.

Quando falas nenhuma sobra se interpõe entre nós dois
Fico presa à palavra de tua boca
e à palavra de teus olhos.
Nada existe fora de nós. Longe de nós...
Tu és o Princípio e o Fim. O Tempo e o Espaço
Cada palavra tua mais espiritualiza
o meu sentimento e a minha ternura.

Tenho vontade de que meus braços se transformem
num grande berço,
para embalar teu sono de homem triste.

Nenhuma estrela brilha mais clara que os teus olhos
na minha alma,
e que a tua palavra no meu coração.

Nenhum homem foi amado com tanta pureza sem pecado,
nem tanta adoração!

Nenhuma mulher vestiu de tanta castidade
seu corpo e sua alma,
para a tristeza de um amor que quer viver,
e quer morrer.


Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.8
1 824

Cantiga de Roda

"Bota terra no meu lenço,
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.

"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!

"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?

"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.

"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!

"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.

Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.

Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
2 604

Festejo

Foi num primeiro de maio,
na cidade de Rio Grande.

(...)

O povo reuniu-se em festa,
pois a festa era do povo.

(...)

"Uni-vos, ó proletários,
ó povos de todo o mundo."

Unido estava em Rio Grande,
o povo simples cantando.

No peito de cada homem
uma esperança se abria.
Em qualquer parte do mundo
uma estrela respondia.

(...)

Foi quando a voz calma e séria,
no velho parque vibrou,
e um convite alviçareiro
o povo unido escutou:

"Amigos, a rua é larga.
Unidos, vamos partir.
A nossa 'União Operária'
nós hoje vamos abrir."

(...)

"A casa de nossa classe,
fechada, por que razão?
Amigos, vamos à rua,
e as portas se abrirão."

A onda humana agitou-se,
cresceu em intensidade.
Em coro as vozes subiram
clamando por liberdade.

"À rua, à rua, sem medo,
unidos, vamos marchar."

Foi como se uma rajada
de vento encrespasse o mar.


Publicado no livro Primeiro de Maio (1954).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1987. p.113-11
1 987

Poema VI

Hoje pensar me dói como ferida.
O próprio poema não é poema.
Tem qualquer coisa de trágico.
De sangue junto ao muro.
De pétalas descidas.
De véu cobrindo o retrato
de um morto.

Hoje pensar me dói como ferida.
Mas é uma imposição-pensar.

Não quero estado de graça,
nem aceito determinismo.
Só a morte é irreversível.

A opressão do azul
aumenta meu conflito,
e é cruel escutar as razões
da razão.

Quisera repartir-me
no cristal da manhã.

Ser um pouco daquela rosa
tocada de irrealidade;
de tênue luz ferindo
o espelho do rio;
daquela estátua pudica
que parece ter ressuscitado
a inocência

Mas em vez disso,
aqui estou:
queimada em pensamentos,
quebrados os instrumentos
do sonho.


Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968
1 498

Canção de Agora

Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.

Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.

Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.

Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.

Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
2 342

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