Lista de Poemas

Retrato

Clara manhã de inverno.
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.

(...)

Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.

Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.

Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?

(...)

"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"

E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança

E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"

(...)

Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:

nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.

(...)

Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.


Publicado no livro Novos Poemas (1951).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
1 366

A Gabriela Mistral

Um nome tão simples,
a força que tem.

Três letras apenas,
três letras pequenas,
não custa dizer.

Joguemos o nome
por onde passarmos
e o nome tão simples
veremos crescer.

(...)

Veremos os homens
de todas as raças
de todas as línguas
na paz se encontrar.

Joguemos o nome
— ó sim, Gabriela —
por onde passarmos
e onde estivermos;

aos mais distraídos,
aos desesperados,
e todos um dia
nos hão de escutar.

(...)

A paz despontando
nos cantos do povo.
No canto dos ventos
a paz a cantar.

(...)

O nome brotando
de todas as bocas,
em todas as línguas,
na terra e no mar.

Três letras apenas,
três letras pequenas,
um nome tão simples,
a força que tem.


Publicado no livro Novos Poemas (1951).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.109-11
1 577

Neve

A neve desce
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.

Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.

A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.

A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.

Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.


Publicado no livro Poemas e Canções (1957)

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
1 601

Cantiga de Roda

"Bota terra no meu lenço,
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.

"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!

"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?

"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.

"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!

"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.

Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.

Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
2 582

Grito

Não, não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária. Definida.

As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo

Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.

Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.

Serei eu mesma. Estarei
inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada de amargor.

Não. Não irei sem grito.

Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —

que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.81-8
2 820

Canção de Agora

Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.

Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.

Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.

Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.

Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.91-9
2 324

Primavera

Setembro entrou pela janela adentro,
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.

A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.

Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.

A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.

Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.

É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.

A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.

Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.


In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
1 900

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Identificação e contexto básico

Lila Ripoll foi uma poeta de renome, cuja obra se inseriu no panorama da poesia contemporânea. A sua nacionalidade e língua de escrita principal foi o português. O contexto histórico em que viveu foi marcado por profundas transformações sociais e culturais, que inevitavelmente permearam a sua visão de mundo e a sua produção literária.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Lila Ripoll são escassas na documentação pública. Sabe-se, contudo, que a sua educação terá contribuído para o desenvolvimento de uma sensibilidade apurada para a linguagem e para as artes. As influências iniciais da sua leitura e ambiente cultural moldaram a sua perspetiva, absorvendo as correntes literárias e artísticas que lhe foram contemporâneas.

Percurso literário

O início da escrita de Lila Ripoll é um marco na sua trajetória. A sua evolução literária demonstra uma exploração contínua de temas e formas, com um desenvolvimento gradual ao longo do tempo. A sua obra foi apresentada em diversas antologias e publicações, consolidando a sua presença no meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lila Ripoll é caracterizada por uma profunda exploração de temas como o amor, a morte, o tempo e a identidade. A sua poesia distingue-se pelo uso de uma linguagem densa e imagética, com um ritmo que evoca a musicalidade intrínseca da existência. O tom lírico e confessional das suas composições convida à introspeção. O seu estilo, embora enraizado na tradição poética, apresenta inovações formais e temáticas que a associam ao movimento modernista, dialogando com a complexidade da vida contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de Lila Ripoll reflete o contexto cultural e histórico em que se inseriu, marcado por intensas mudanças sociais e políticas. A sua poesia dialoga com as preocupações existenciais da sua geração e com os movimentos literários que a rodeavam, como o Modernismo. A sua posição, embora não explicitamente política, manifesta-se na forma como aborda a condição humana e as suas fragilidades.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de Lila Ripoll são limitados, mas é possível inferir que as suas experiências e reflexões moldaram a profundidade da sua obra poética. As suas relações afetivas e familiares, bem como as suas vivências individuais, terão contribuído para a carga emocional e existencial presente nos seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lila Ripoll alcançou um lugar de destaque na literatura, sendo reconhecida pela sua contribuição para a poesia. A sua obra tem sido objeto de estudos e a sua popularidade perdura entre leitores e críticos literários.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Lila Ripoll foi influenciada por autores que a precederam, e, por sua vez, a sua escrita deixou um legado significativo para gerações posteriores de poetas. O seu impacto na literatura nacional é notório, e a sua poesia continua a ser estudada e apreciada, mantendo a sua relevância e a sua entrada no cânone literário.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Lila Ripoll permite diversas leituras, explorando temas filosóficos e existenciais profundos. A sua obra tem sido alvo de análise crítica que procura desvendar as camadas de significado e a complexidade da sua expressão lírica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Lila Ripoll são escassas, mas a sua obra em si oferece uma janela para a sua profunda sensibilidade e visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Após o seu falecimento, a memória de Lila Ripoll tem sido preservada através da contínua leitura e estudo da sua obra, que permanece viva e relevante para a literatura.