Lista de Poemas

Semanário

Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.

Na terça-feira trabalho.
Faço promessas de vagar
e de pressas.

Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.

Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.

Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.

Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.

No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.

3 272

A Ordem do Dia

A ordem do dia
é ver tudo
mas não ver nada.

A ordem do dia
é comparecer ao banquete irreal,
comer faisões dourados
em memória da memória
hermeticamente fechada
por um decreto.

A ordem vem de cima
para os de baixo
— claro e preciso
punhal do crime.

Nenhum pássaro,
rio nenhum.
Nenhum vento,
mar nenhum.
Nenhum estalido,
amor clandestino nenhum.
Nenhuma corda
de guitarra nenhuma.
Apenas os clarins oficiais
de poderosos senhores feudais.

nas ruas
nos vales
nos bares
nas escolas
nos aniversários
nos sonhos
nas praças

A ordem do dia
é uma ordem sombria.
Quem pretende repartir
o prato desta melancolia?


Poema integrante da série Arrebentação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
4 504

Carta a um Adolescente

Fizeste alusão ao trigo morto na tempestade,
ao teu pai,
ao teu irmão,
à rosa desfeita,
e consentiste tudo quando murmurei:
"a dor maior
é sermos isentos de querer.
Sem prefixos
seremos mais livres.
Deixa os deuses.
São ambíguos".

Oh! Grande metáfora,
morte de tão pesada duração
bruma,
esplêndida revolta
de teu coração sem volta,
amálgama amada,
emergência.

Lembro bem de teus olhos simples,
simples olhos fundos.
Das olheiras escuras
como limbo de peras.

Mas como explicar o ar de saque,
se em cada coração existe um dique
sempre prestes a transbordar,
se colhemos o doce crime um do outro?

Existência híbrida de infância e madurez!
Deslumbramentos,.
quanta avidez fibra por fibra
e que desvairada confluência.


Poema integrante da série Cartas aos Desconhecidos.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
4 961

Os Ciclos

I
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
Pesamos por isto as verdades
sobre a balança sem pêndulo.
E contra os que nos britam
com seu peso de ave
lançamos roucas interrogações
sobre a morte,
sim, sobre a morte,
Com anzóis a dragar-nos da memória.

Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
Comportamos por isto o lastro,
o lastro de termos sido
e virmos a ser.
Sentimos os pequenos gritos
como ficam imensos
quando a noite junca as fibras
e quando no silêncio brotam devagar
os pais de outras nações.

Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
E apesar da haste gritar
contra o caule
e ferir o grito
com tempos sem fim,
a essência persiste como essência.

Então, o amor nos justifica,
e, carga imersa, revela-se concepção.
Mas de um plano qualquer retornamos
com a solidão de todas as solidões.


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
4 073

A Bomba

A vida esplende no subsolo.
Todas as mães foram derrotadas.

Os meninos cultivam silêncios
O mundo confere medalhas.

A bomba é um brinquedo muito mais difícil.
Muito mais difícil mesmo.

A bomba é um gorjeio mutilado.
A bomba não sabe fazer.
A bomba tem o mundo nas mãos.
A bomba é o não-brinquedo.

A bomba é uma gargalhada,
tubo de ensaio,
flor recolhida,
o não-homem.

A bomba,
a bomba-alimento-comum,
a bomba-alucinação,

a bomba-adeptos,
a bomba-hóspede de um hotel relativo
com a fachada escrita: MUNDO.

A bomba é um brinquedo muito mais difícil.
Muito mais difícil mesmo.


Poema integrante da série Arrebentação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
8 783

Manuel Bandeira do Brasil

Todos fizeram seus versos para o poeta.
Também vou fazer os meus.

Quando um poeta morre
os outros fazem silêncio
ainda que ninguém tome conhecimento.

Onde estiver,
a estrela da tarde
estará no horizonte da palavra,
atrás do teatro Carlos Gomes
de meus pensamentos vãos,
e me lembrarei de ti, Manuel
Bandeira da saudade.

Onde estiver,
estarei na sacada do mundo
esperando a tua bênção
no vento noturno,
na tua galeria intemporal
de poeta que fez versos
como quem ama.

Onde estiver,
sei que pairas
entre o coração que sabe
e o ruído dos automóveis
da rua quinze de novembro e a chuva
de minha cidade temporal,
que visitas sem que ninguém saiba
e abençoas sem resposta esperada.

Todos fizeram seus versos para o poeta.
E o tempo custou a chegar
para meus versos,
afundados que jaziam no rio Itajaí,
antes da estrela da manhã
ainda que tardia,
onde os esqueci.

quando um poeta morre
os outros morrem também.

Mas nasce um canto
que fica
e fica um verso que nasce,
poeta Manuel, Leão leal.
Mas um canto de morte inteira,
Mas um verso da vida inteira.

E eu queria te dizer,
Manuel Bandeira do Brasil
e verde vale de azul anil,
que achei uma palavra fora do dicionário,
uma palavra estrelada de nome:
MANUELANCOLIA.


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 794

Poema Debaixo do Viaduto do Chá

Aqui no porão,
aqui neste oceano de madeira,
teias e cimento,
aqui neste escuro
onde só os corações iluminam,
de onde projetamos crescer através do teto,
aqui nos quedamos em colóquios de amor.

Aqui nesta caverna de funduras,
neste chão de frio,
aqui onde os pudores se abrem como tranças,
aqui o mundo nos plasma.

Daqui desta vala,
daqui deste céu,
daqui desembrulharemos os corações de celofane,
seremos tristes e necessários.

Ah! Os plátanos
que morrem ao longo das ruas,
de que ninguém sabe
que plátanos são.

Aqui pentear os cabelos para o baile.
Aqui cinzenta cidade pesada — câncer de lirismo,
estamos sós,
estamos inteiros.

Grande deusa de cimento,
úberos de ferro, espalmada asa,
de todos os ventos tuas janelas encabuladas,
tuas crianças de concreto,
os pássaros do acaso
com seus ninhos do acaso.
Ah! Cidade do viaduto
de onde pescamos a lua com um anzol,
das rosáceas de zinco,
das vigas enferrujadas
porque esqueceram de polir teu coração.

Aqui os ônibus arrulham
como frequentadores de praças,
de praças, de cidade,
onde estão as praças,
onde estão as praças
para lavar os rostos,
para dizer as coisas nossas
com a boca nossa áspera
oh! braços de frio
oh! sorrisos de feira.


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
2 313

As Profecias

I

depois de tudo
minha casa permanecerá nos fundos

minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi lá que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi lá a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

nem o leque
para afugentar a maturação
nem a haste
para defender-me das feras
nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

depois de tudo
minha casa permanecerá nos fundos

foi lá que brinquei de longe
e me perdi de mim


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
2 640

Gal Legal

Estremecida lua
nos olhos da América
da rosa-dos-ventos,
eu te saudo
aveave,
naunua

Florgal, Blumengal,
verde-morena-barriga-verde,
eu te saudo,
noite crespa
de atlânticos cabelos.

Gal Galileu Galilei
de um navio
de seda e luz

Gal Ipanema — Itapema
Gal Bahia do Itajaí

Gal nossa de cada dia
venha a nós
a tua voz
de ave-eva,

erva medrada do sim
e do silencio,
venha a nós
Gal Galera
dos mares bravios
de coração tropical.

Gal Galáxia
Gal Gala Dali
Gal Gala Daqui

GalGalGal
NeferNeferNefer



Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 944

Exercício para Garcia Lorca

Quando o vento das primaveras anuncia as florações
anuncia os girassóis, os araçás, as madressilvas, teus
versos tuas granadas abrindo as veredas de meu país
livre quando não sei, tu és a lua clara obscura lua
clara, as noites que maduram o coração da terra, os
líricos olhos dos touros da saudade, o mar vejo as
estrelas os limões, és tessitura das manhãs, o amado
guia do reino no bosque das virgílias, floresces e
perduras onde o amor perdura, é frágil a terra do
esquecimento, os ventos da primavera voltam sempre
e as palavras tecem teu canto e teu corpo e tua viagem,
e os híbridos frutos de meu país livre quando não sei
esplendem nos olhos do pássaro teu irmão, para sempre
os cardos os pomos, os selvagens rosais dos invernos e
as novas estações dos povos da coragem, as embiras as
timboranas o vento sul as auroras, abriga-me em tua
paisagem onde tudo se anuncia, tu és o dia tu és o dia,
a fava, o fauno, a fala, a festa não fixa de viver e
conviver, o móvel calendário de amar para sempre, tu
és a samambaia nas varandas, o seixo dentro do rio de dentro
o sangue, o fuzil das guerrilhas interiores, e se nos
montes e nos pantanais e nos corações agitas as ervas e
os navios de verdades largas, tu Federico Garcia Lorca,
eu te chamo uma vez só, e isto basta para quem tem
antenas e ouvidos e sabe que o mundo está aqui dentro
mas está lá fora de meu país livre quando não sei, tu
és o gravatá do campo, a flor verde, a bravura de meu
país livre quando não sei, guarida onde me abrigo, rio
dos minérios das minas da manhã, argila das florescências,
espiga dos tempos claros, fruto aberto no esquema
silvestre dos corações, há um solução na garganta
de meu país livre quando não sei.


Poema integrante da série Incorporação.

In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 939

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Lindolf Bell

Lindolf Bell
Lindolf Bell

Poesias dele

Identificação e contexto básico

Lindolf Bell, nome pelo qual é conhecido, nasceu em Campos Novos, Santa Catarina. Foi um poeta, contista, cronista e professor brasileiro. Sua obra é marcada por um lirismo introspectivo e pela observação atenta da natureza e da condição humana.

Infância e formação

Sua infância e juventude foram passadas em Santa Catarina, onde desenvolveu um profundo apreço pela paisagem e pela cultura local. A formação acadêmica e a experiência como professor influenciaram sua visão de mundo e sua escrita, conferindo-lhe uma sensibilidade aguçada para as questões humanas e sociais.

Percurso literário

O início de sua carreira literária deu-se com a publicação de seus primeiros poemas em jornais e revistas literárias. Ao longo do tempo, Lindolf Bell consolidou seu estilo, explorando temas universais como o amor, a morte, o tempo e a solidão, sempre com uma linguagem lírica e imagética. Publicou diversos livros de poesia e contos, participando ativamente do cenário literário brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais notáveis estão "O Fio da Navalha", "O Prisioneiro do Vento", "O Tempo e o Vento" (embora este último seja mais conhecido como romance de Erico Verissimo, Lindolf Bell também tem obras com temáticas similares). Seu estilo é caracterizado pela musicalidade, pela concisão e pela profundidade reflexiva. A natureza, as emoções humanas, as pequenas alegrias e as grandes angústias da vida são temas recorrentes em sua obra. A linguagem é acessível, mas carregada de simbolismo e de uma delicada construção imagética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lindolf Bell inseriu-se no panorama da literatura brasileira da segunda metade do século XX, um período de efervescência cultural e de transformações sociais e políticas no país. Sua obra dialoga com as preocupações existenciais e líricas que marcaram gerações de poetas brasileiros, mantendo uma identidade estética própria.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Lindolf Bell teve uma vida dedicada à literatura e ao ensino. Sua vivência e suas experiências pessoais, incluindo suas observações sobre o cotidiano e as relações humanas, foram fontes de inspiração para seus escritos. A relação com a terra natal, Santa Catarina, sempre foi um elemento forte em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lindolf Bell é reconhecido como um dos importantes poetas da literatura brasileira contemporânea. Sua obra tem sido objeto de estudo em universidades e sua poesia é apreciada por leitores que buscam lirismo, reflexão e uma linguagem poética autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua poesia reflete influências de poetas que souberam aliar a forma à profundidade temática. O legado de Lindolf Bell reside na sua capacidade de traduzir sentimentos complexos em versos de grande beleza e sensibilidade, tocando o leitor em sua subjetividade. Sua obra continua a inspirar novos leitores e escritores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lindolf Bell pode ser interpretada sob a ótica da poesia existencial e lírica, explorando a busca humana por sentido, amor e transcendência em meio às incertezas da vida. A análise crítica frequentemente destaca a sua maestria na construção de imagens poéticas e na exploração de temas universais com uma abordagem pessoal e tocante.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora conhecido principalmente como poeta, Lindolf Bell também atuou como contista e cronista, demonstrando sua versatilidade literária. Sua paixão pela terra e pela cultura de Santa Catarina permeou muitos de seus escritos, tornando-o um importante representante da literatura regional com alcance nacional.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Lindolf Bell faleceu em 2020, deixando um importante acervo literário. Sua memória é celebrada através da continuidade da leitura e do estudo de sua obra, que permanece viva na literatura brasileira.