Luís Delfino

Luís Delfino

1834–1910 · viveu 75 anos BR BR

Luís Delfino foi um poeta e jornalista conhecido pela sua poesia satírica e crítica social, com um estilo que aliava a ironia mordaz à observação aguçada dos costumes da sua época. A sua obra reflete um olhar penetrante sobre as contradições da sociedade, as hipocrisias e os desmandos da vida pública e privada, utilizando um humor muitas vezes ácido e um vocabulário vigoroso para desmascarar as falhas humanas e institucionais. Foi uma figura proeminente na imprensa e na vida literária do seu tempo.

n. 1834-08-25, Desterro · m. 1910-01-31, Rio de Janeiro

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Cadáver de Virgem

Estava no caixão como num leito,
Palidamente fria e adormecida;
As mãos cruzadas sobre o casto peito,
E em cada olhar sem luz um Sol sem vida.

Pés atados com fita em nó perfeito,
De roupas alvas de cetim vestida;
O tronco duro, rígido, direito,
A face calma, lânguida, dorida...

O diadema das virgens sobre a testa,
Níveo lírio entre as mãos, toda enfeitada,
Mas como noiva, que cansou na festa.

Por seis cavalos brancos arrancada...
Onde irás tu passar a longa sesta
Na mole cama, em que te vi deitada?!...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Luís António Delfino Data e local de nascimento: 26 de fevereiro de 1837, Lisboa Data e local de morte: 28 de janeiro de 1910, Lisboa Nacionalidade: Português Língua de escrita: Português Contexto histórico em que viveu: Viveu a segunda metade do século XIX e o início do século XX em Portugal, um período de grande instabilidade política, social e cultural, marcado pela Monarquia Constitucional, pela crise de 1890, pela queda da Monarquia e pela instauração da República. Foi um observador crítico das transformações e das permanências da sociedade portuguesa.

Infância e formação

Os detalhes sobre a sua infância e formação são menos documentados, mas sabe-se que se dedicou ao jornalismo e à escrita desde cedo. A sua formação parece ter sido mais autodidata e ligada à prática jornalística e literária do que a uma educação académica formal extensa, o que lhe conferiu uma perspetiva direta e crítica sobre a realidade.

Percurso literário

O percurso literário de Luís Delfino está intrinsecamente ligado à sua atividade jornalística. Iniciou a sua carreira na imprensa, onde publicou poemas, crónicas e artigos de opinião que lhe granjearam fama. A sua obra poética, embora concentrada em livros publicados ao longo da sua vida, era frequentemente divulgada em jornais e revistas. Evoluiu de uma poesia mais lírica para uma veia marcadamente satírica e combativa, tornando-se um cronista mordaz da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras notáveis incluem "O Homenzinho" (1880), "A Alma" (1882), "Os Ciganos" (1886) e "A Vingança de Lísias" (1887). Os temas centrais da sua obra são a crítica social, a sátira aos costumes, a hipocrisia da burguesia e da política, a observação das diferentes classes sociais e a reflexão sobre a natureza humana. Delfino utilizava o verso, muitas vezes com uma métrica regular e um ritmo ágil, para construir as suas sátiras. O seu estilo é caracterizado pela ironia, pelo sarcasmo, pela linguagem coloquial e pelo uso de figuras de retórica para acentuar o seu comentário crítico. A sua obra insere-se na tradição da poesia satírica e realista, com uma forte veia de intervenção social.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Luís Delfino foi uma figura influente no panorama cultural e jornalístico português. A sua intervenção através da escrita era uma forma de participar nos debates da época. Era contemporâneo de outros escritores e jornalistas que, tal como ele, utilizavam a imprensa como plataforma de expressão e crítica. A sua obra reflete as tensões e as contradições da sociedade portuguesa em transição para o século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Delfino está, em grande medida, entrelaçada com a sua vida profissional como jornalista e escritor. Dedicou-se intensamente à sua atividade literária e jornalística, utilizando-a como veículo para as suas opiniões e críticas. As suas relações com o meio literário e político da época eram marcadas pela sua posição combativa e crítica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Luís Delfino foi amplamente reconhecido em vida pela sua perspicácia satírica e pela sua capacidade de observação social. O seu nome tornou-se sinónimo de um certo tipo de poesia crítica e de intervenção. A sua obra, embora por vezes considerada mais popular do que académica, solidificou o seu lugar como um dos poetas satíricos importantes da literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra insere-se na linhagem da poesia satírica portuguesa. Influenciou gerações de escritores que viram na sua capacidade de crítica e na sua linguagem um modelo para a intervenção literária e jornalística. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia social e satírica, e na forma como utilizou a arte para comentar e questionar a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Delfino é frequentemente analisada como um espelho das contradições da sociedade portuguesa da sua época, expondo as suas falhas com um olhar aguçado e um humor cáustico. A sua obra convida a uma reflexão sobre a natureza humana e os mecanismos sociais que moldam o comportamento individual e coletivo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Delfino era conhecido pela sua agudeza de espírito e pela sua capacidade de improviso, qualidades que transpareciam na sua escrita. A sua atividade jornalística intensa permitiu-lhe estar em contacto direto com os acontecimentos e os personagens que depois retratava na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Lisboa, deixando uma obra que continua a ser lembrada pela sua pertinência crítica e pelo seu valor literário. A sua memória está associada à figura do poeta satírico e interventivo, um observador arguto da sociedade.

Poemas

12

Cadáver de Virgem

Estava no caixão como num leito,
Palidamente fria e adormecida;
As mãos cruzadas sobre o casto peito,
E em cada olhar sem luz um Sol sem vida.

Pés atados com fita em nó perfeito,
De roupas alvas de cetim vestida;
O tronco duro, rígido, direito,
A face calma, lânguida, dorida...

O diadema das virgens sobre a testa,
Níveo lírio entre as mãos, toda enfeitada,
Mas como noiva, que cansou na festa.

Por seis cavalos brancos arrancada...
Onde irás tu passar a longa sesta
Na mole cama, em que te vi deitada?!...

2 538

Sanguínea

A Alberto de Oliveira

Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.

O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.

Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,

Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!


Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.

In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
1 522

Primeira Missa no Brasil

A Victor Meirelles


Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas

Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.

Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.

Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.


In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
3 014

Eva

Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.

A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.

Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;

Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem

1 474

Altar sem Deus

Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...

Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.

Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,

Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...

1 615

O Lago

Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.

Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.

Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.

O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...


Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
2 342

Depois do Banho

Sai do banho: o seu corpo alabastrino
Goteja: a água murmura do abandono;
Vê-se abatida, lânguida, com sono...
Lança mão do lençol, quase sem tino.

Mostra-lhe o espelho o corpo peregrino:
Ela o admira, e busca ver-lhe o dono...
Anjo, merece um céu; mulher, um trono:
Cisma, e sacode as tranças d'ouro fino.

Senta-se, e mostra a orla avermelhada
De uma estrela, que imerge no infinito,
Sob uma névoa loura ainda molhada.

Seu rosto inquieto oscila alegre e aflito:
Mas... numas longas asas confiada,
Pensa fugir ao mais ligeiro grito...


Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.89. (Os Melhores poemas, 23
1 684

Cio

Não ouças, não, o soluçar do cheiro
Dos lírios brancos, dos rosais florentes...
Que te não fale ao ouvido o jasmineiro...
No vale Pã e os Sátiros não sentes?...

Olha. É cada perfume um mensageiro,
Que te enlaça nas asas transparentes:
Cantam teu nome os troncos e as correntes,
Dançando aos sons de um colossal pandeiro!...

Com junquilhos gentis prende-te os pulsos
Eros, morde-te estranho calafrio,
Antes carícia, o flanco, e aos seus impulsos

Verás irada a natureza em cio,
E os deuses desgrenhados e convulsos
Beijando em coro as Náiades do rio!...


Publicado no livro Rosas negras (1938).

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.83. (Os Melhores poemas, 23
1 493

A Saída

O galo canta: o ar, que freme, é quente:
Desce ruflando pelo vale o vento;
Há no horizonte os rolos de uma enchente
Do mar, que invade e doura o firmamento.

Toca a sineta; vem saindo a gente
Da senzala, num jorro sonolento:
Depois da reza, a passo tardo e lento,
Enxada ao ombro, dois a dois em frente,

Ao eito vão pelo carreiro aberto:
O mato cheira, rumorejam ninhos
No cafezal, de branca flor coberto...

Há um grande chilrar de passarinhos...
E enquanto o escravo vai... segue-o de perto
A risada da luz pelos caminhos...


Publicado no livro Rosas negras (1938).

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.74. (Os Melhores poemas, 23
1 743

O Cristo e a Adúltera

(Mármore de Bernardelli)

VII

Tenho em frente de mim um deus: que importa o resto?
Vai fazer um milagre... Olhai, vede o seu gesto.
Uma pobre mulher corrida e quase nua,
Deita-te aos pés, Jesus, o clarão de uma lua.
Ela acolheu-se a ti e nela a formosura!
Que abismos nessa carne, e que luz nessa alvura!
Canta invisível nela um sol; ouço-lhe o trilo.
Não é Vênus de Cos, não é Vênus de Milo:
É vênus doutro mar, é deusa doutra espuma.
Bela, não se parece enfim com deusa alguma:
É o belo-ideal fundido de outra idéia:
Prometeu desta vez roubando a luz divina
Coalhou-a, como pode e ninguém imagina,
E fez dela o ideal da mulher da Judéia...

VIII

Olha a pobre mulher: esta mulher amante
Esta manhã ainda, ao aço rutilante,
Reviu seu rosto belo, enrolou seus cabelos,
Perfumou-os de mirra, untou-os de mamono,
Cacheou-os na testa em múltiplos novelos,
Enquanto lhe dormia ainda um pouco o sono
Entre os cílios; enquanto em sua face linda
Com um longo beijo o sol não a acordara ainda.
Mas se à festa do leão não resiste a leoa,
Caiu esta, que é bela, e além de tudo é boa.
Deus, que os sóis pelo céu andar em luta veda,
Deu-lhe a beleza — o abismo, e deu-lhe o amor — a queda.
Que dorso! Aquele branco e luminoso dorso!...
Aquele seio, aonde as pomas rutilantes
Vão nas asas fugir, sem fazer um esforço,
Vão fugir, adejar por esses céus distantes,
Ai! tão perto do céu! ai! tão fora do ninho!
Vejo-as quase a saltar do transparente linho:
Quero-os em pé, a luz, quero ver tudo isto...
O teu vasto linhol 'stá-m'a escondendo, ó Cristo.
O irradiar do torso esplêndido da adúltera
Vale o linhol de um deus, vale a inconsútil púrpura.
Caiu? — Quero alteada essa cabeça fina,
Ver um colo que ondula e como flor se inclina
Na haste flexível: sim, quero ver como rola
Na pequenina orelha a egipciana argola;
E erguida e a mover-se, a andar, a rir, sim! vê-la:
Ver se a estrela é que a vence, ou se ela vence a estrela.
Mas enquanto ela jaz a tua sombra santa,
Enquanto esta mulher gentil não se levanta,
E espera em tua força, ó Jesus, certo abrigo...
Ficarei junto dela, ó mármore, e contigo.

Imagem - 02150002


Publicado no livro O Cristo e a Adúltera (1941).

In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.133-135

NOTA: Poema composto de 19 parte
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