Machado de Assis

Machado de Assis

1839–1908 · viveu 69 anos BR BR

Joaquim Maria Machado de Assis é um dos maiores nomes da literatura brasileira e mundial, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Sua obra, que abrange poesia, crônica, conto, romance e teatro, é notável pela profundidade psicológica, pela ironia sutil e pela análise crítica da sociedade. Machado de Assis transitou entre o Romantismo e o Realismo, mas transcendeu rótulos, desenvolvendo um estilo único, marcado pelo pessimismo, pelo ceticismo e pela metalinguagem. Sua escrita explora as complexidades da alma humana e as hipocrisias sociais com maestria ímpar.

n. 1839-06-21, Rio de Janeiro · m. 1908-09-29, Rio de Janeiro

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A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.


Publicado no livro Relíquias de Casa Velha (1906).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.313. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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Biografia

Identificação e contexto básico

Joaquim Maria Machado de Assis foi um escritor, poeta, cronista, contista, romancista e teatrólogo brasileiro, amplamente considerado o maior nome da literatura brasileira e um dos maiores escritores da língua portuguesa. Nasceu no Rio de Janeiro. Fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente.

Infância e formação

De origem humilde, neto de escravos alforriados, Machado de Assis enfrentou diversas dificuldades na infância e juventude, incluindo a perda precoce da mãe e do padrasto. Foi em grande parte autodidata, aprendendo línguas estrangeiras e aprofundando seus conhecimentos literários por conta própria. Sua saúde frágil, marcada pela epilepsia e pela gagueira, também moldou sua trajetória.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária como aprendiz de tipógrafo e revisor, publicando seus primeiros poemas em jornais e revistas a partir da década de 1850. Passou por uma fase de transição entre o Romantismo e o Realismo, com obras como "Ressurreição" e "A Mão e a Luva" ainda ligadas a convenções românticas. A publicação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) marca uma virada radical, inaugurando seu período realista e mais maduro, seguido por obras-primas como "Quincas Borba" e "Dom Casmurro". Além de romancista, foi um prolífico cronista, contista e poeta.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Machado de Assis são caracterizadas pela profundidade psicológica dos personagens, pela ironia fina, pelo pessimismo, pelo ceticismo em relação à natureza humana e pela crítica social velada. Ele explora temas como o adultério, a loucura, a vaidade, o interesse, a hipocrisia social, a relatividade da verdade e a fragilidade das instituições. Seu estilo é marcado pela linguagem precisa, pela digressão metalinguística (o narrador dialoga com o leitor, comenta o próprio ato de escrever), pelo humor sutil e por uma estrutura narrativa inovadora, que rompe com a linearidade tradicional. Obras como "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba" e "Dom Casmurro" são exemplos de sua genialidade. Machado de Assis é frequentemente associado ao Realismo, mas seu estilo é único e transcende classificações rígidas. Sua capacidade de desnudar a alma humana com perspicácia e ambiguidade o torna um autor universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu no Rio de Janeiro durante o Segundo Reinado e início da República, um período de grandes transformações sociais, políticas e culturais no Brasil. Sua obra reflete as tensões e as hipocrisias da sociedade brasileira da época, especialmente da elite carioca. Foi contemporâneo de figuras como Eça de Queirós e, embora não tenha tido contato direto com muitos escritores estrangeiros, sua obra dialoga com as grandes correntes literárias europeias.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Machado de Assis casou-se com Carolina Xavier de Novais, uma portuguesa com quem manteve um relacionamento profundo e duradouro, que influenciou significativamente sua vida e obra. Ele era conhecido por sua discrição e por sua dedicação quase exclusiva à escrita. Trabalhou em cargos públicos, mas sua verdadeira vocação era a literatura. Era um leitor voraz e um observador arguto da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Apesar de ter obtido algum reconhecimento em vida, o reconhecimento universal de Machado de Assis como um dos maiores escritores da literatura mundial consolidou-se mais fortemente após sua morte. Sua obra é objeto de inúmeros estudos acadêmicos e é traduzida para diversas línguas, sendo amplamente admirada pela crítica e pelo público.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Machado de Assis foi influenciado por autores como Laurence Sterne, Swift, Shakespeare, Cervantes e pela filosofia cética. Seu legado é imenso: ele redefiniu a prosa brasileira, introduziu novas técnicas narrativas e legou personagens e enredos que continuam a fascinar leitores e estudiosos. Sua obra influenciou gerações de escritores brasileiros e sua universalidade o insere no cânone da literatura mundial.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Machado de Assis é rica em possibilidades de interpretação. Seus narradores ambíguos, como Brás Cubas e o narrador de "Dom Casmurro", geram debates sobre a veracidade dos fatos narrados e sobre a natureza da realidade e da memória. A análise de sua obra frequentemente aborda questões de classe social, raça, gênero e as complexidades da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Machado de Assis era um membro ativo da Academia Brasileira de Letras, onde desempenhou papel fundamental em sua fundação. Era conhecido por sua memória prodigiosa e por sua erudição. Sua capacidade de observação da vida cotidiana e das sutilezas das relações humanas era extraordinária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1908, no Rio de Janeiro. Sua morte foi lamentada em todo o país, e sua obra continua a ser estudada, admirada e redescoberta, consolidando seu lugar como um dos maiores tesouros da literatura brasileira e universal.

Poemas

35

A um Legista

Tu foges à cidade?
Feliz amigo! Vão
Contigo a liberdade,
A vida e o coração.

A estância que te espera
É feita para o amor
Do sol com a primavera,
No seio de uma flor.

Do paço de verdura
Transpõe-me esses umbrais;
Contempla a arquitetura
Dos verdes palmeirais.

Esquece o ardor funesto
Da vida cortesã;
Mais val que o teu Digesto
A rosa da manhã.

Rosa . . . que se enamora
Do amante colibri,
E desde a luz da aurora
Os seios lhe abre e ri.

Mas Zéfiro brejeiro
Opõe ao beija-flor
Embargos de terceiro
Senhor e possuidor.

Quer este possuí-la,
Também o outro a quer.
A pobre flor vacila,
Não sabe a que atender.

O sol, juiz tão grave
Como o melhor doutor,
Condena a brisa e a ave
Aos ósculos da flor.

Zéfiro ouve e apela.
Apela o colibri.
No entanto, a flor singela
Com ambos folga e ri.

Tal a formosa dama
Entre dois fogos, quer
Aproveitar a chama . . .
Rosa, tu és mulher!

Respira aqueles ares,
Amigo. Deita ao chão
Os tédios e os pesares.
Revive. O coração

É como o passarinho,
Que deixa sem cessar
A maciez do ninho
Pela amplidão do ar.

Pudesse eu ir contigo,
Gozar contigo a luz;
Sorver ao pé do amigo
Vida melhor e a flux!

Ir escrever nos campos,
Nas folhas dos rosais,
E à luz dos pirilampos,
Ó Flora, os teus jornais!

Da estrela que mais brilha
Tirar um raio, e então
Fazer a gazetilha
Da imensa solidão.

Vai tu, que podes. Deixa
Os que não podem ir,
Soltar a inútil queixa.
Mudar é reflorir.

2 266

Relíquia Íntima

Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saberás que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasião terás presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:

Senão, escolhe outro lugar azado;
Mas dá logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.

Machado de Assis

1 932

A Flor do Embiroçu

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Fil. Elis.

Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.

E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa,

Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!

Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.

É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideial abraço.

O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.

Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.

1 739

O Dilúvio

(1863)

E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites
Gênesis — c. VII, v. 12

Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!

Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.

Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!

Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.

Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além . . .
Lá vai! Em torno angústias,
Clamores, lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.

Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela aos escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço; o vínculo
Da nova creação.

Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Volando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.

Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.

3 525

Visio

Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram...

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!

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