Viriato Octogenário
"Queixem-se outros de gota, reumatismo",
Diz Viriato, "e de falta de memória.
Nada disso conheço. Nula é a escória
Do tempo em meu minúsculo organismo.
"Não ouço bem? Frequentemente cismo
Que estou gripado? Dizem que é ilusória
Minha gripe (ao revés de minha glória),
E que a minha surdez é comodismo.
"Se eu vos confiar que escassa é a obesidade
Nos meus quadris e de ano em ano o cinto
Aperto um ponto mais, quem de vós há de
"Acreditar-me? E jurareis que minto
Quando eu disser que quanto mais idade
Tenho, mais moço e lépido me sinto!"
Dedicatória de Opus 10
A Tiago e Pomona
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
A Antenor Nascentes
Como chega às de ouro agora,
Que ainda chegue às de diamante,
Onde vou ver se consigo
(Mas não creio!) entre os presentes
Estar — é o voto do amigo
Desde a infância, e vida afora
Seu admirador constante,
Meu caro Antenor Nascentes.
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Votos de Ano-bom
A Murilo e Saudade
Que a Murilo e Saudade vás
Levar, cartão, num grande abraço,
Meus votos de saúde e paz.
(Paz sem a pomba de Picasso.)
Poema para Tuquinha
Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
Dedicatórias da Primeira Edição
A MOUSSY EJO
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
Oração a Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Carta-poema
Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
-Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é O
Grande Chaco! Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis,
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois:
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Resposta a Carlos Drummond de Andrade
À mão que o dispensa deve
O laurel sua virtude.
Grato, mas junto sou rude
De quem Claro Enigma escreve.
divo manu
nao entendi
viva la revolucion, viva lenin, viva che, viva marighella
Muito bom, Bandeira e os outros sao demais. Mas Faltam as poetas nesta página, né?
De que trata o poema
Muiii belooo
esse texto e muito bom minha professora nos passou esse texto ,muito interessante
Manuel Bandeira... Bem mais que tudinho de bombom!
muito legal eu adorei essa estoria do manuel bandeira
Grande poeta que mudou a história do Brasil, com seus poemas de tocar o coração, apesar de eu ter apenar 12 anos as poesias desse cara me encantam!
Para todos estes ignorantes que não possui inteligência suficiente para compreender o valor de uma poesia eu vos digo que, tudo quanto falaste é uma grande prova de sua ignorância, pois Manuel foi uma pessoa de modo que vocês nunca serão.ignorantes.
homem que saber fazer poema que inspirar nos te adoramos(as)
adorei
ótimo