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Não me vêem. Ainda bem.
Fiquei de apanhar a Raquel
no infantário e não tenho como dizer
ao Jorge que a puta da Irene
faltou e já não dá. Beijam-se,
cospem-se assim de afecto
como eu (nós?) há dez anos.
Mal ouvem a conta ou isto tudo
que me gane dentro numa
servil polidez. Apetecia-me dizer
“foda-se!”– o vosso amor, o meu.
E o pior é que não posso.
PRESSA DE VIVER
para o Zé, que nunca lerá este poema
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
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Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e sicou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
Ele sozinho consegue beber tanto leite.
perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo
BENILDE AO BALCÃO I
Valerá a pena uma voz vária?
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.
Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?
Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».
Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.
Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.
Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».
Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.
Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.
SUMÁRIO
Tão real que até faz pena. Tirou
a dentadura para sorver as últimas pedras
de gin no cibercafé do bairro alto.
Depois descalçou-se a foi outra vez
estrangeira e loura, como se houvesse morte
para isto. Aquele que haverá, decerto,
e nos encontra mudos ao final da tarde.
Nós, digamos assim, tínhamos visto tudo.
Só não sei quem chorava mais: tu
ou o ar condicionado da 24 de Julho.
Os semáforos, em vez do coração,
lembravam um pénis no lavatório
à espera de outro poema
e da vida nem por isso.
CANSADA DE SERVIR NINGUÉM
A primeira e talvez a única
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
CODA
[...]
Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante de leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava
-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz
SPIRAL INSANA
Estilhaços de quê,
esses que trazes nas mãos
impotentes? Quem
te amou na breve ruína
do mundo? São de despedida
os sinais que do vazio se estendem
sobre o vazio. Talvez
se adivinhe o silêncio, a
extrema pureza do abandono.
Nem rosto tens já
para sorrir à morte.
Entretanto bebes muito
nos templos da amargura,
olhas sem paixão
o rigor feroz dos abutres
esvoaçado. O que procuras é
a própria canção do desespero,
uma taberna distante do mundo,
nenhum modo que não seja de noite
CÉLINE BLUES
Estas coisas perdem-se. Primeiro
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
CENTRO COMERCIAL I
Agora a morte é diferente,
facilitaram-nos o desespero, a angústia
tem já ar condicionado. Em vez
dos bancos de jardim, por certo demasiado
rudes, temos enfim lugares amplos
onde apodrecer a miséria simples do corpo.
Que incalculável felicidade a de percorrer
galerias de nada tresandando a limpeza
e segurança. Aí se abandonam jovens
rebanhos sentados sorrindo ao
vazio palpável, ou ferozmente no meio
dele. Revezam-se - mas quase diríamos
que são os mesmos ainda, exaustos
de contentamento. Dêmos pois as boas-vindas a esses
heróis do betão consagrado. Só eles nos fazem
acreditar no advento do romantismo cibernético.
É doce a merda que nos sepulta
e o cancro que um dia destes nos matará
há-de ser muito limpo, quase ecológico.