Entrando numa fria 🔵
Uma inocente guloseima infantil pode dar cadeia. Culpa da irresponsabilidade do excesso de cuidado.
Eu juro que apenas queria comprar um gelinho, vendido num Fusca azul. Mas minha mãe afirmava que aquele carrinho vendia drogas e raptava crianças. Hoje, me afastaria, até correria apavorado, se avistasse o fusquinha azul dobrando a esquina.
Gelinho (geladinho ou sacolé) pode ser definido como sorvete de pobre. Consiste em um suco (diversos sabores) congelado num saquinho. Pois bem, o veículo, a cor e o local afastado, onde ficava, já eram muito suspeitos, juntamente com a denúncia da minha mãe, o conjunto tornava-se algo que eu deveria manter distância devido a periculosidade. Atualmente, eu compararia todo aquele método na porta da escola a um serial killer americano.
Na segunda série, em outro colégio a mesma maldade foi aplicada como estratégia para economizar alguns centavos. Dessa vez a vítima foi a pobre velhinha que vendia gelinho em frente ao colégio.
Eu fico imaginando a senhorinha levantando às cinco da madrugada, preparando o suquinho, embalando, congelando, acomodando o produto no isopor e empurrando o carrinho de feira até a escola. Todo esse trabalho para receber a acusação de tráfico de drogas. Pior, dessa vez o doce também era servido na modalidade “água de fossa”. Calculando que esse sabor não era bom, passei o ano à base de merenda escolar.
Vivíamos os estertores do Regime Militar, se a frágil e trabalhadora idosa fosse “dedurada”, seria, facilmente, capturada, levaria uma surra- receberia algumas sessões de tortura no DOPS (até entregar os guerrilheiros e comunistas), terminaria jogada numa cela fétida, julgada e condenada por subversão à ordem e, com sorte, sua ossada poderia ser encontrada num cemitério clandestino. Tudo isso, para o complementar a aposentadoria, ganhando uns trocados! Eu acho injusto.
Na verdade, o perigo estava mais perto da que eu pensava. Minha mãe armazenava toda sorte de estupefacientes caseiros: acetona, esmalte, querosene e removedor de tinta. Eu ficaria entorpecido só de entrar na lavanderia de casa e respirar o ar dos produtos de limpeza.
Não aconteceu nada com os proprietários do Fusca azul, nem com a velhinha. Muitas vezes, eu trafiquei gelinho e consumi o produto. Hoje, estou limpo.
Eu juro que apenas queria comprar um gelinho, vendido num Fusca azul. Mas minha mãe afirmava que aquele carrinho vendia drogas e raptava crianças. Hoje, me afastaria, até correria apavorado, se avistasse o fusquinha azul dobrando a esquina.
Gelinho (geladinho ou sacolé) pode ser definido como sorvete de pobre. Consiste em um suco (diversos sabores) congelado num saquinho. Pois bem, o veículo, a cor e o local afastado, onde ficava, já eram muito suspeitos, juntamente com a denúncia da minha mãe, o conjunto tornava-se algo que eu deveria manter distância devido a periculosidade. Atualmente, eu compararia todo aquele método na porta da escola a um serial killer americano.
Na segunda série, em outro colégio a mesma maldade foi aplicada como estratégia para economizar alguns centavos. Dessa vez a vítima foi a pobre velhinha que vendia gelinho em frente ao colégio.
Eu fico imaginando a senhorinha levantando às cinco da madrugada, preparando o suquinho, embalando, congelando, acomodando o produto no isopor e empurrando o carrinho de feira até a escola. Todo esse trabalho para receber a acusação de tráfico de drogas. Pior, dessa vez o doce também era servido na modalidade “água de fossa”. Calculando que esse sabor não era bom, passei o ano à base de merenda escolar.
Vivíamos os estertores do Regime Militar, se a frágil e trabalhadora idosa fosse “dedurada”, seria, facilmente, capturada, levaria uma surra- receberia algumas sessões de tortura no DOPS (até entregar os guerrilheiros e comunistas), terminaria jogada numa cela fétida, julgada e condenada por subversão à ordem e, com sorte, sua ossada poderia ser encontrada num cemitério clandestino. Tudo isso, para o complementar a aposentadoria, ganhando uns trocados! Eu acho injusto.
Na verdade, o perigo estava mais perto da que eu pensava. Minha mãe armazenava toda sorte de estupefacientes caseiros: acetona, esmalte, querosene e removedor de tinta. Eu ficaria entorpecido só de entrar na lavanderia de casa e respirar o ar dos produtos de limpeza.
Não aconteceu nada com os proprietários do Fusca azul, nem com a velhinha. Muitas vezes, eu trafiquei gelinho e consumi o produto. Hoje, estou limpo.
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