🔵 Figuras
Acordar no sábado e descobrir que seus amigos começaram uma coleção de figurinhas de futebol sem te avisar é considerado alta traição. Como forca, cadeira elétrica ou injeção letal, além de não utilizados no Brasil, são castigos incompatíveis com o delito, as penas não foram aplicadas. Preferi adquirir, mesmo depois, o álbum e algumas figurinhas.
O meu senso de qualidade e valor financeiro ainda não estavam apurados, talvez por causa do orgulho infantil de obter “a grande novidade”. O fato é que: os cromos eram porcamente impressos, o álbum era interminável, havia times insignificantes, como o Tuna Luso e “prêmios” como: utilidades domésticas incompletáveis. Não bastasse a péssima qualidade do produto, o nome daquilo era... ‘Trá-lá-lá de Ouro’. O “de Ouro” talvez fosse para agregar valor à porcaria toda. Funcionou.
Viramos escravos do lixo e, pior, só pretendíamos largar aquela coisa quando terminássemos a coleção. Isso não se faz com uma criança, neste caso, três. Como todo estelionato, esse, atraiu pela cobiça.
A coleção foi bem, até certo ponto. Mas as horríveis panela de pressão, batedeira e liquidificador, enfim as utilidades domésticas, nunca completavam. A perspicácia tardia nos ajudou a concluir que havíamos sido enganados. Para dramatizar mais a situação, não encontramos mais ninguém com o material. A qualidade era tão desprezível, que não havia comércio, nem troca, nem “bafo” (jogo). “Morremos” com o material... Ir à banca de jornal e pedir o reembolso não era uma opção. A solução mais sensata foi admitir a derrota e abandonar o álbum incompleto.
Enquanto eu torrava meus surrados trocados no álbum de figurinhas pessimamente acabado, ridiculamente impresso e grudado porcamente com uma tóxica cola escolar, minha irmã desfilava com os impecavelmente acabados, cuidadosamente impressos e minuciosamente colados (autocolantes), mas enfadonhos ‘Amar é...’ e ‘Bem Me Quer’. Era muita humilhação.
Por mais que eu desqualificasse os álbuns femininos, faltavam argumentos para defender um produto de estelionato que chamava... ‘Trá-lá-lá de Ouro’.
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