Às vezes você veste o passado
como quem veste um casaco pesado no verão,
só para ninguém chegar perto demais
e descobrir onde ainda dói.

Você ri, desvia, muda de assunto,
faz do trauma trincheira,
como se amar fosse sempre
o começo de outra queda.

E eu vejo.
Vejo no seu silêncio apressado,
na forma como você recua
quando alguém tenta ficar.

Talvez você ache
que afastar as pessoas
te protege da dor.
Mas também te protege
do carinho que poderia ficar.

E mesmo assim,
eu nunca quis te consertar.
Nunca quis arrancar à força
os fantasmas que você abraça
porque aprendeu a sobreviver assim.

Eu só quis te lembrar
que nem todo amor chega para ferir.

Mas, acima de tudo,
eu quero que você fique bem.
Mesmo que seja longe de mim.
Mesmo que um dia
meu nome vire apenas lembrança
entre tantas coisas que você tentou esquecer.

Porque gostar de alguém, às vezes,
também é aceitar
que a cura dele
talvez aconteça sem a nossa presença.

1 Visualizações
Partilhar

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.