Na minha boca calada
na minha boca calada guardo palavras mortas e assisto um mundo que silencia turvo e triste, nada mais o que dizer diante desta imobilidade. há uma remota sensação de estar vivo apesar das evidências. só tu permaneces, ainda que ausente. atravessas as horas como se o tempo fosse para ti um brinquedo, como se fôssemos eternos, como se fosse possível esperar o teu
retorno e que novamente caminhássemos juntos. estranha liberdade que me torna insensível ao azul do céu, que esconde os meus alicerces ruídos, a minha casa incendiada, a minha rota abortada. um pouco mais e se terá ido o teu olhar, mais um pouco e também a tua pele. em seguida o vento levará o teu cheiro, assim como já levou as minhas ambições. escrever é lembrar quem fomos, é aceitar quem jamais seremos.
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