João de Castro Sampaio

João de Castro Sampaio

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2000-09-26 Ouro Preto
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Alguns Poemas

O Edifício

Caminho entre as pedras de um solo compensado
Passando a ponte o que encontro é um sapo amassado.
E mais ali, adiante, uma passarela e o sol quente;
Vejo uma casa cheia de gente.
Encontro andando um pouco mais para cima
Uma echarpe vermelha e cheia de rima.
Mas deixo-a no canto, preciso subir ainda mais
Pois no meio já é difícil manter a respiração
E o caminho se estende para além do coração.
Se acabo me atrasando no meu passo,
Eis à minha direita, bruxas em meu encalço!
Para fugir me resta guinar à esquerda e
Rezar para me esquecerem, e fundamentar
Essa minha passagem vulgar.
Ainda na direita moram canibais violentos,
Que quando famintos tornam-se barulhentos:
Querem atrair a carne que Deus lhes negou em demasia.
Então, lembro-me do que o Profeta dizia:
"Descanse a mão no parapeito e veja a rua.
Olhe para os caminhos talhados em rocha crua.
Esqueça o som que vem do galinheiro,
O som do céu ecoa o ano inteiro!
Mas saiba que não ouvirá nada lá do fundo,
Subir este caminho é a razão que fez o mundo!"

Indeferidos desgastes da alma, descendo
Doidos exigem vingança
Eu determino o léxico hierônimo, subindo
Que eu vejo no céu, que vejo?
É o desejo, partes familiares, a raiz
De um a três, respiração basculante
Não tenho ciência, descendo
Eméritos contrastes fluindo, subindo
Cães peregrinos do partido tísico, descendo
Vetor inerte de Kali, deus em seu coração, subindo
Não vejo nulidades, apenas simpatia cadavérica
Sapo subindo, olhando para cima, o que viu?
Não foi o escopo celestial, mas
A bota que o destruiu.
A roda dos autos, aparato mecânico, descendo
O pó de ébano, subindo
Água de bica escorrendo, ponte de madeira sobre o riacho e depois
O séquito fúnebre do menino afogado, descendo
Para o jantar à beira do lago
Onde o sol marca-lhe o rosto, subindo
Velhos amigos subindo, outros,
Tão novos, descendo
Pergunto que está fazendo?
Traçando o obstinado caminho
Mas me diga, foi eu que me tornei telúrico
Ou foi o sonho que se firmou inconclusivo?
Ademais, futuro, lembra-te do nome:
Abril rasteja na minha memória e
Às terças faço-me de iogue e
Sinta-se em casa, subindo e
Preparei-lhe um ótimo jantar: camarões, ostras lagostas e
Um enxame de vespas vem ai e
Puídos e sujos é lamentável ver isso nesse estado e na minha frente e

é engano doutor eu não estou doente
não estou, não estou, não estou
loucos? diziam: dê-me a tez do dinheiro
eu não quero dinheiro, eu rasgo dinheiro
e não é por isso que eu sou louco
Ah... a chuva vem vindo, vem vindo, vem vindo
E com ela o dínamo, atrás, subindo
Antelogo que o tempovoe; face trajando puro para o noroeste
E pago pecados à Deus, até ali atrás, adeus, pago pedaços...

Todos caminhos levam ao mesmo lugar, subindo
E eu não subo mais este pilar
Ir à casa de Madame Outono
Está fora de cogitação.
Grito, estou ótimo, disfarço o hálito,
Olho para o céu e uivo feito um cão
E penso em contar a história sem Eu,
Mas falho desde o primeiro fio de cabelo.
Não posso mais fazer parte disto.
Queiras vós ficar deitado, de olho no teto
Enquanto Madame Outono faz contigo
Aquilo que bem entender.
Desisto, por fim, o mundo é inquieto!
Nunca vou me acostumar com tal constatação.
Não me importa o tempo.
Que é o amanhã, se é hoje o momento da dúvida?
Que é o ontem, se é agora a hora da morte?
A história do tempo faz tanto sentido quanto
A história do Eu: findados no primeiro fio de barba!
Atrás da linha do trem vem a dose diária de ópio,
Finda a tarde e mato as moscas no meu quarto,
Acendo velas e incensos para Madame Outono, e, por fim,
Deito no catre pensando morrer
Mas para fins de efeito,
Dormir é mais que necessário,
Porém nunca suficiente.

Pego nessa estagnação artificial, não penso sair
Não penso pensar, penso irrestrito, mas não consciente.
Da mesma forma que o afogado não pede
Outra dose de água salgada,
Eu não peço sentido, não peço razão.
Se os iguais, por iguais, se fazem além,
Para o além vão as almas partindo
Porém, caindo, se faz um alguém
Que no caminho acabou se perdendo:
Meu corpo, aparente, se fez, descendo;
Minha alma, máquina, se faz, subindo.

Quatro,cinco

Morri de fome um dia desses
Ninguém conversava comigo no Céu
Chamei um anjo de filho da puta
E fui direto pro Inferno

Matei meu pai um dia desses
Disse um pobre pecador
Aqui conversam comigo
Solidão não me atinge mais

Morri de infarto, disse um daqueles
Neguei a minha pobre mãezinha
Cortei meus pulsos dia cinco
E agora to aqui

Mas ainda que sofram no fogo
Eles sentem pena de mim
Morrer de fome não é fácil
E é um tremendo sofrimento

Depois de uns dias a gente esquece,
Digo, depois de um tempo a barriga nem dói mais
A gente sente que o mundo fica diferente
Aí não sente mais nada

Impressionados, dizem que sou muito frio
Por não sentir a minha morte
Respondo que a vida é um mistério
Precisa-se de sorte pra viver

Morri de fome um dia qualquer
Segunda-feira, muito calor
Eu tinha leitura
Era um sol camusiano

Leitura, ler era bom
No céu não havia livros
Nem nenhum amigo
Só eu e os anjos filhos da puta

Foi

que
começou
a
falta
de
sentido
Anjos filhos da puta, calor e ódio, eu morri de fome
Não conseguia aceitar





mAS O CÉU EXISTE
então pra lá eu fui

Céu terra e mar, eu morri de fome, de FOME! FOME! Como pode um ser humano ser deixado esquecido em um canto imundo de uma cidade para morrer de FOME meu Deus. A fome doí, eu minto para meus companheiros de castigo, a fome dói. Não há nesse sentido, quem morre de fome merece o céu? Ser miserável nesse sentido é merecer o céu? Eu morri de fome, cortei os pulsos no dia cinco e morri de fome e matei meu pai para depois morrer de fome com um infarto fulmiante dez dias depois embrulhado em um cobertor sujo enquanto fazia frio na cidade de ouro preto cerca de 4 graus era julho mas quando eu morri era setembro eu acho que chovia no dia eu não me lembro


Morri de fome

eu sinto fome no meu inferno sede desejo e fome
meu deus do céu eu morri de fome eu choro eu morri de fome
morri de dor de fome depois cortei os pulsos dia cinco de setembro

Um cenário causado por terríveis escolhas

Maldita voz!
Te chamas razão por acaso?
Então por que teimas em continuar
Possuindo minha mão,
Agarrando esta caneta e me
fazendo maldizer
As verdades incongruentes?
Adeus, velho amigo, adeus!
Eles nos pedem para esperar,
Mas esquecem de apontar qual é o caminho.
E então nos deparamos com este cenário arruinado,
Já não sabemos mais para onde ir,
nem o que fazer. Adeus! Estou partindo
Para as terras escondidas atrás dos Montes!
Mas antes que entristeças, saiba que um dia voltarei
Com a resposta eterna para o enigma que foram os sonhos que tivemos.
Como aquela vez na qual olhei para um par de olhos
e soube que estes compartilhavam o mesmo sonho que eu.
Gritando, surpresos, em uma espiral fantástica,
Correram até mim, mas não saiam do lugar;
Enquanto eu desaparecia em meio a uma combustão,
Os olhos desesperavam-se, temendo me perder, e,
No momento que as chamas transformaram-me em pó,
A marca impressa daqueles olhos ficou, como que me encarando,
Então eu acordei.
Qual é o tormento desse povo? Ousas me perguntar
Já sabendo a resposta, respondo mesmo assim:
Não sabem sonhar, se o sonho lhes agrada,
mantém-lhe este feitio eternamente, e depois,
caem na desgraça quando, inevitavelmente, são obrigados a
acordar.
Pois foram aqueles que mandam e desmandam,
Dando as ordens para estes pobres coitados.
Diziam: abra logo essa porta,
Quero ver o sol por um instante.
Já dizia aquele morto ali no canto:
Não me atento mais
Aos indeferidos desgastes da alma.
Seja o que for, estou à serviço dos que prestam.
verdade nenhuma é encontrada, apenas um turbilhão de esperanças e
Sentenças contraditórias.
Os meus camaradas no Jesus, pedindo para morrer, não temiam
Aquele mar de sangue que estava em baixo.
O céu, sujo e virulento, mandando raios e trovões para que caíssem lá em baixo,
no poço de eterno sofrimento.
Eu, nesse dia, não estava lá.
Quis ficar ocupado com qualquer coisa, coisa essa que
hoje, eu esqueci.
Ocupando-me, recentemente, de José de Alencar,
Observando esse cenário se transformando,
querido amigo, a única conclusão que chego é que, como diziam,
De fato, o amor resultou-se inútil.
Eis aqui um cenário causado por terríveis escolhas,
Onde as mágoas são eternas, inevitáveis, e é nele que se encontra
A impossibilidade de fugir, uma vez que
aqueles mortos de fome, tentaram, debalde, procurar um refúgio, porém
Não encontraram nada além de ruínas e pântanos e desertos e
Jamais encontraram a saída
Pois nunca a procuraram.
Pouco a pouco, já é sexta.
Que me ensinará? Nada que eu já não saiba.
Hoje eu já não lembro da valsa e nem do fado.
Aconselho que esqueças também, pois
Vivemos nesses desencantos, nessa terra desolada, na qual
Rútilos prazeres não conseguem nos proporcionar uma só
Experiência memorável.
Pensem só, agradáveis senhores, o que irá acontecer
Quando a semente do vosso futuro
Apodrecer no momento em que tocar o solo?
Pois esta terra já lhes deu frutos no passado,
Mas hoje se encontra infértil.
E te atentem, oh mestres gentis, antes que a salguem;
A fúria desses seus prodigiosos já é visível!
Entendam, a sucessão de fatos é uma fera inevitável!
Um dia lutaremos contra nossa glória derradeira,
E a voz da consciência, precedendo os limites da razão e do pensamento
Gritará no céu, para que todos possam ouvir: ei aí o novo
Arauto do glorioso progresso!
Voando pelos ares no formato de um colosso gigantesco,
Assombrará alguns e acalentará outros, dominado os corações e fazendo-os
Chorar. Este fato, oh generosos, entendam, é inevitável,
Chegará, com toda certeza, mas quando, isso eu já não sei dizer.
O que sei, porém é que apesar da inevitabilidade deste evento,
Sentimos ambos necessidade de adiá-lo.
Trabalhemos então nesse solo infértil, trabalhemos enquanto as asas ainda
não foram dadas ao colosso!
Elejam uma palavra, sigam um profeta!
Agradáveis senhores, são vossos filhos prodigiosos
Que, se dobrarem os joelhos, adubarão o solo,
Permitindo que a semente do vosso futuro
Germine em paz.
E os frutos dessa semente cairão no solo,
Transformando este cenário em belos campos.
Voltarão os animais; as ruínas e pântanos e desertos
Estarão cobertos pela Ofélia, a mais bela flor, qual jamais igual 
fora vista embaixo deste céu!
E muito anos se passarão dessa maneira.
O colosso será esquecido, a memória de um povo alimentado o
Sedimentará sob toneladas de lama, mercúrio e ouro preto.
Vivemos em festa desde então.
Ano após ano, sábados tornam-se mais puídos.
Ouve-se o silêncio nas ruas;
Percebe-se uma leve mudança na cor do céu.
Porém, não se sentiram acuados aqueles que lutaram
Contra essa tirania do destino.
Inventaram um novo jeito de sonhar e sonharam desse jeito
Todas as noites.
Comungavam entre si em meio aos gritos da Lua, dançando ao redor
de uma fogueira e bebendo vinho e se canibalizavam em meio às sangrentas
orgias e agiam violentamente uns contra os outros os homens e as mulheres e acordavam suados
e chorando e ainda com sono e com vontade de sonhar novamente.
Naturalmente, arrependidos, caminhavam até o Oráculo, descendente de
um antigo Profeta.
Ajoelhavam-se e contavam as histórias,
Estas que o nobre Oráculo ouvia com desdém.
Desdenhava pois já sabia o que se passaria depois,
Que nós não queremos mais acordar e que
Cansamos deste silêncio e que
O grito da Lua nos ensurdece e que
O céu jamais poderia ter outra cor 
Senão o azul.
Respondeu calmamente:
Arre! Que querem de mim?
Querem que eu lhes diga como fugir deste mundo por acaso?
Nem seu eu soubesse eu lhes contaria, pois é uma heresia
Desejar tal fuga!
Eis o que devem fazer: aprendam a amar, pois
Esta é a Lei desta terra!
Vosso mundo de sonhos não passa de um cenário lascivo, uma ilusão
Repleta de causas injustas e infames.
Continuai por este caminho e estarão tomando terríveis escolhas e de fato,
Este não é o desejo do nosso Profeta.
Reitero, aprendam a amar, sigam a Lei da nossa terra!
Ouçam o clamor das estrelas e dispam-se da carne, pois a carne,
A carne é uma quimera tentadora, que os devora pelo sonho!
E ouviram as estrelas e ficaram nus da carne, jurando abandonar o sonho.
Voaram para as terras atrás dos altos Montes,
Criaram um reino
E amaram para sempre
Até que o sempre os alcançou, e
Em um púlpito ardente, os exilados ganiram de desejo.
Precisaram esconder em um palácio flamejante
O segredo do sonho, para que andarilhos de outras terras
Não os perturbassem com nenhuma tentação.
É escusado dizer, que,
Após anos inteiros de chuva pesada,
Os exilados já não aguentavam mais a Lei que um Profeta
De tempos esquecidos
Havia outorgado.
Que fizeram então, se juraram perante ao Oráculo
Abandonar o pobre estado que se encontravam, na dimensão onírica e lasciva
Dos sonhos irrestritos?
O que fizeram, velho amigo, foi transportá-los
Para a então chamada realidade.
Mimetizaram os júbilos noturnos de outrora, aqueles que
Tornavam-lhes homens e mulheres detentores
Da memória de um tempo antigo, e,
Refletindo em seus salões dourados toda essa
Energúmena lascívia, não fizeram mais que macular
Toda essa nova terra!
As terras escondidas atrás dos Montes;
Onde, em meio aos tais estava o Parnaso, o mais belo,
Testemunha dos poetas e do Profeta,
Que em derradeiro esplendor,
Abençoaram este mundo!
As terras escondidas atrás dos Montes,
Agora frígidas e inertes trataram logo de devorar os palácios,
Fazendo cumprir a Lei deste chão!
Os exilados, que em um átimo de lucidez, perceberam
aquilo que estava para acontecer, fugiram para longe.
Pararam ao ouvir as badaladas de um sino.
Haviam voltado à terra de onde partiram.
Irremediável era a vergonha que sentiam,
Foi necessário apenas o olhar do Oráculo
No alto da igreja, bastou apenas o julgamento daqueles olhos,
Para que eles dessem meia volta e voltassem a fugir.
E fugiram para sempre, velho amigo,
Pois o olhar do Oráculo marcou sua pele com uma maldição,
Fugiam ao mesmo tempo que seus corpos apodreciam, pois,
Se foi para o corpo que viveram, pelo corpo haveriam de morrer!
Eu fui e vi, e digo para você, que assim seja.
Enquanto embriago-me de vinho, escarneço de vocês, hereges!
Maldita voz!
Te chamas dúvida então?
Como ousas questionar a integridade da minha palavra
Sendo que fostes vós que me fizestes maldizer
As verdades incongruentes?
Adeus, velho amigo, adeus! Cá estou eu de volta
Mas hei de partir novamente,
Pois vejo só o que trouxe comigo:
É o sonho dos exilado, bem nas minhas mãos!
E é tão belo seu cheiro;
Um nobre elã de flor, tão doce e harmonioso!
Vou sorvê-lo, querido amigo, porque lhe prometi que voltaria
Com as respostas para os sonhos que tivemos.
Uma praia de areias turvas; dois exércitos se encontrando
Dia e noite, noite e dia nas areias, tão logo mancharam
As eflúvias águas salgadas que decompõe o infinito
Atado ao céu;
À oeste do meridiano azulado
Estão estacionados meus guerreiros,
Este é o cenário, velho amigo,
Eu sou o comandante, porém,
Agora, tornei-me um herói,
Pois quando fechei os olhos para ti,
Abri os olhos para eles!
Sinto a fina areia escorrer pela minha mão,
O plexo dos ventos assopra minha face,
Lanço-me furioso frente aos inimigos,
Estou, ao mesmo tempo, vivo e morto,
Estou, ao mesmo tempo, correndo e voando!
Foi necessário apenas um rígido balanço da minha espada
Para que todos na minha frente fossem derrotados,
E apenas uma estocada da minha lança
Para que se ajoelhassem aos meus pés!
Escravos construíram meu castelo no topo da montanha
Céu, Terra e Mar agora divididos,
E eu, o Homem, no meio, ponderando todos;
O Céu consultava-me quando queria chover;
A Terra pedia-me permissão para germinar;
E o Mar sempre me perguntava se podia elevar as marés.
Penso que já era noite quando os três decidiram me chamar
Até as areias da praia onde venci.
Foram os meus guerreiros me assistir.
Despi-me das minhas armas e brasões,
Olhei para o céu, era dia na verdade, porém,
A Lua cobria o Sol.
Olhei para o Mar, ele dizia, venha,
Eis aqui um presente para vós
Fui em frente e segui até que a água
Atingiu minha cintura.
O reflexo platinado da Lua no Mar
Levantou-se e cingiu o Céu, e eu vi
Um espelho que não refletia nada além 
Da escuridão.
Virei, dei nove passos em direção à praia, porém
Fui tragado pelo meu próprio reflexo.
Vi a Lua, vi Saturno, vi nove estrelas, o espaço e o infinito,
Cheguei no limite, estava nu, alguém que eu não enxergava
Me mostrou nove planetas e me disse,
Com uma voz inaudível,
Para apontar de onde eu vim;
E para lá eu fui,
Em uma sala comigo mesmo, eu me entreguei um papel.
Acendi a luz para ler, e quando li,
Vi que eram versos meus que haviam sido sonhados à muito;
E eu, que estava acordado, entendi que
Eu agora sou o infinito riolargo de três margens,
Eu sou eu, sou repartido em
Céu, Terra e Mar, e,
Olho para o palco à minha frente,
Com o olho do oeste eu sou um ator;
Com o olho do leste eu sou o diretor;
Com a mão esquerda eu empunho a espada;
Com a mão direita eu empunho o cajado,
E apareço nos céus como o Juiz,
Nos sonhos humanos,
Para edificar a Lei do meu Profeta!
Maldita voz!
E agora, importa como te chamas?!
Já não lhe ouço mais!
E o adeus, velho amigo, de fato,
Foi derradeiro, pois agora
O tempo passou e eu estou aqui,
Mas, você, só existe na memória.
Poderia revê-lo, é verdade,
Basta que eu imprima meu pensamento
Em uma folha de papel.
Só não o faço, velho amigo, porque estaria
Abusando da minha indústria.
E também lhe tenho consideração;
Tua ausência faz-se necessária agora
Assim como a minha fez no passado.
Meu olhar à oeste me dá a clareza
Necessária para me conformar, porém, resolvi
Misturar minhas elucidações dos dois olhos;
Vejo-o agora na minha frente,
Sem nenhum contraste temporal
Campos verdejantes rudemente cultivados,
Igrejas tombadas para dar lugar a edifícios,
A palavra do meu Profeta, há muito esquecida,
Porém, praticada, fora retomada, mas eram
Bocas hemofílicas que pronunciavam.
Dê um tempo, velho amigo,
Agora voltarei meu olhar para estes por um instante,
Foi o que eu disse, esperando encontrar consolidadas
As raízes dos meus versos sonhados,
Os quais, cheio de alegria, entreguei para eles em mãos.
Minha vontade fora desmentida
Para além das heresias cometidas
No cenário que lhes dei!
Arrancavam as flores no campo e
Reduziam a pó os Montes e
Assassinavam meu Profeta
Ao usar folhas brancas para cultuar
O recôndito da memória.
Luzes apagadas em toda cidade,
O grande salvador fora encontrado
E posto, em glória, no centro do mundo.
Acenderam-no com o pensamento
E gritaram para o Céu,
Comungaram sobre a Terra
E atiraram os corpos ao Mar.
O colosso falou-lhes sobre o sonho.
Não tardaram a usá-lo.
E durante mil anos o chão onde se deitavam
Fedeu a carne, lama, mercúrio e ouro preto.
Ignoraram os gritos da Lua.
Até que um dia, velho amigo, eu
Que descansava tranquilamente,
Ouvi novamente aquela
Maldita voz
Talvez estivessem cansados das orgias,
Pois ignoraram o fato de que
O colosso no centro do mundo
Já não mais os iluminava.
O céu desmoronava sobre suas cabeças,
A terra os engolia, e
O mar os inundava, e
Alguns mais desesperados, não contemplando solução,
Imolavam-se em um suposto ato de redenção, mas
Conseguiam apenas adiantar o próprio fim, pois,
Ninguém escaparia da fúria do Céu, Terra e Mar!
Eu apareci,
Senti alguma compaixão, talvez, mas de qualquer forma,
O que fiz foi explicar-lhes que tudo aquilo não passava de 
Um cenário causado por terríveis escolhas,
Causado pela sua própria consciência, sua falta, sua maldade!
Quis deixá-los, ir embora novamente,
Mas fui impelido pela minha própria presunção de salvá-los.
E foi a voz, que gritando e dizendo
Certas verdades incongruentes,
Que me fez abrir a porta
E descer a cortina.
-
wilson1970
Parabéns pela tua poesia !
23/setembro/2020
thaisftnl
Gostei muito da sua escrita, magnífico!
09/abril/2020
-
04040808
O poema Caim faz me vir à mente A Batalha do Apocalipse do Eduardo Spohr, não sei se há alguma inspiração ou intenção em sua construção, mas ficou ótimo.
22/março/2020
-
petit_bateaux
voce eh fera dms, vamos ser amigos ?
28/outubro/2019

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