Carlos Silva
O Músico, poeta cantor e compositor CARLOS SILVA, segue a trajetória de cantadores utilizando o canto falado em seus shows, palestras e apresentações em unidades de ensino fundamental e superior.
Nasceu a 14 Abril 1963 (São Paulo)
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EU VI DEUS.
*EU VI DEUS*

(OU UM DIA PARA NAO SER ESQUECIDO)

Sim eu vi Deus. Eu vi Deus naquela manhã de sábado no seu santo dia santo, logo pela manhã com uma névoa fria soprada no pé de Serra, lá na Serra do Aporá.
Ao chegar no topo da serra, respirei e os pulmões deram graças se enchendo de ar puro. Olhei ao redor contemplando a beleza daquele dia.
Iria fazer belas fotos num documentário sobre a exploração turística no pé da Serra, que há serviria para expor minha ideia para a implantação de um sistema turístico naquele local.
Estacionei o carro ao lado das torres de transmissão me preparei, troquei de camisa e segui em direção ao local que dá uma vista maravilhosa para o que eu me propusera fazer.
Estava só, feliz e admirando da altura da Serra, um pedaço da minha Itamira, meu berço de infancia onde fui criado.
Alguns urubus me serviam de guardiões daquele pedaço de natureza tao bela, e ao decolar seus voos, faziam um barulho que até assustava.
Quando estamos sozinhos, qualquer barulho assusta.
Fui seguindo, assobiando já imaginando os melhores ângulos para captação das imagens.
Tinha chovido na noite anterior mas naquele momento o tempo estava favorável para aquela incursão solitária.
Já tinha adentrado algumas dezenas de metros mata a dentro, rumo ao local escolhido.
Envolto em meus devaneios com um riso estampado por estar ali, e foi assim que numa fração de segundos,
Derrepente e inesperadamente eu escorreguei, e fui lancado ao chão caindo por cima da perna que dobrara para tras, e meu corpo caiu por sobre ela impactando com força no meu pé direito.
Senti um forte estalo, gemi e gritei de dor, gritei alto de tanta dor sentida, tão alto que chegou ecoar na serra.
Eu só conseguia dizer: MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... QUE DOR.
Balbuciei repetidas vezes em total desespero tais palavras, como se buscando nesse gesto, aliviar a dor tão forte causada pela queda
Tentei levantar mas ao tentar colocar o pe no chão, vi e senti a gravidade do meu problema.
Constatei que o pé tinha quebrado,
Aquele estalo denunciava a minha triste e dolorosa suspeita. EU ESTAVA COM O PE DIREITO QUEBRADO.
O desespero aumentou, a adrenalina subiu tanto que a boca resssecou e o pavor toma conta de mim. MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... Por vezes tantas eu repetia exteriorizando o meu desespero ao mesmo tempo, exercitando a minha fé em Deus como na passagem bíblica que Jacó entra em luta com o anjo.
O que fazer? Olhei ao redor, ergui a cabeça para o caminho que teria que percorrer de volta. Comecei me arrastar pelo chão orvalhando e sujando as roupas, temendo bichos pessonhentos ou coisa assim.
Lento doloroso e muito comprido era o caminho de volta. Ergui o corpo comecei engatinhar amparando no chinelo, o joelho direito para evitar o atrito das pedras com a pele.
Cada avanço, uma conquista e uma dor. MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS...E AGORA?
Pensava na família, na situação ali, voltei assustar-me com os urubus. A boca e a garganta seca, temia desmaiar pela dor, pela aflição e por aquela sensação de secura.
Em dado momento, após já percorrer uma certa distância, deitado sobre uma pedra, peguei o celular. Tentei ligar a cobrar pro meu irmao e não consegui. Passei mensagem de Zap, mas eu não tinha crédito, disquei 190 e nada, tentei o 192 sem sucesso.
Psicologicamente eu estava apavorado.
Fiz prece, pedi a Deus que me livrasse daquele tormento, mas em momento algum eu maldisse o ocorrido.
Voltei me concentrar que eu devia continuar engatinhando, e sempre falando com Deus, eu avançava pois sabia que não poderia ficar ali.
Mais algumas investidas engatinhando, foi quando avistei o carro. Meu corpo ja extenuado começava dar sinais de vencido.
Achei o carro mais lindo do mundo, à minha frente, o mais valioso de toda a terra, só bastava mais alguns esforços e eu chegaria.
Nunca me senti tão feliz ao avistar a minha FERRARI SERTANEJA.
Sorri, misturando as minhas lágrimas e dores, com a intensa gratidão ao mantenedor da vida.
Busquei concentrar-me e sabia que o objetivo principal seria chegar até ele, que alheio ao meu padecimento, lá estava estático exibindo sua coloração rubra, que aos meus olhos encantava.
A minha felicidade vibrou, ao tocar a maçaneta. Puxei-a, a porta se abriu, e mais um tremendo esforço seria feito para adentrar ao veículo. As palavras agora mudavam, ao dizer:
MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... MUITO OBRIGADO, EU CONSEGUI.
Para trás, ficara os 80 metros mais longos da minha vida e a minha maior ATÉ AQUI, superação de um sofrimento.
Sentado, olhei o pé e comecei imaginar o tamanho do estrago. A dor continuava insuportável.
E agora, o que devo fazer?
O medo agora era outro, se teria como consegui descer a Serra, sem provocar mais algum incidente!
Liguei o carro, coloquei a primeira marcha, resolvido que iria sair dali.
Fui descendo lentamente suportando aos solavancos devido os sulcos da ladeira, mas encostando ao lado do barranco, para evitar o despenhadeiro da direita, temendo numa circunstância qualquer, acelerar ao tentar pisar no freio, se fosse necessário fazê-lo.
Fui descendo suportando a dor, a estrada melhorou um pouco, coloquei a segunda marcha e seguir.
Já próximo da pista, buzinei insistentemente ao lado da casa de um amigo que não me atendeu e resolvi que iria tentar chegar no posto médico da cidade.
Lá cheguei, fui atendido, prestaram-me os primeiros socorros informando que eu iria ser conduzido para o Hospital Dantas Bião da cidade de Alagoinhas.
O problema agora era esperar um carro disponível.
Como não houve fratura exposta, eu não poderia ser transportado na ambulância ou na Samur. Aconselharam-me dizer que eu era residente na cidade de Alagoinhas e que eu não tinha passado por aquele Posto de atendimento de Itamira se não, eles iriam fazer regulação e ninguém poderia garantir quando eu seria atendido.Isso afirmou o Dr.Donizete Filho junto ao técnico de enfermagem Lucas daquela unidade.
O carro demorou, o sangue foi esfriando o nervosismo voltava junto com as dores. Comecei utilizar meus conhecimentos e após a intervenção de 2 pessoas RITA E KARINE,(que inclusive trouxe almoço para mim) tudo foi providenciado junto ao setor de transporte da prefeitura.
Tudo certo, o carro chegou e lá fomos nós. Ao chegar no setor de emergência, o motorista se adiantou na recepção já dizendo de onde vinhamos.
O rapaz me atendeu e perguntou: O Sr. Está vindo de Aporá não é ?
Respondi que sim, mas que eu tinha comigo um endereço como residente na cidade e que ele me ajudasse ser atendido naquela unidade. Foi aí que ele me sossegou dizendo: Fique tranquilo, ao ver a situação que eu me encontrava.
Uma enfermeira perguntou como eu tinha chegado e eu lhe disse. Ela então retrucou indagando: Então lhe abandonaram aqui?
Não! O motorista ainda está aí, eu.lhe respondi.
Fiquei ali aguardando, resolvi fazer a ficha e quando perguntado, disse a recepcionista que morava em Alagoinhas e lhe dei o endereço.
Pensei: Como é que pode, um cidadão contribuinte brasileiro, ter que mentir para receber atendimento pelo melhor e maior plano de saúde que ja fora criado no Brasil, que é o SUS?
Ficha feita, minha sobrinha chega, atendimento, raio x, internação no sábado, cirurgia na segunda, alta na terça e hoje cá estou, agradecido a Deus por Tê-lo ao meu lado, desde as 9:40 da manhã daquele sábado (hora do acidente) até aqueles momentos que hoje descrevo nessa narrativa.


Carlos Silva.