

ERIMAR LOPES
Mil Santas palavras constroem. Ainda há tempo.
1971-05-10 Frei Inocêncio-MG
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DOS PÃES AOS MILHÕES
SEBASTIÃO PADEIRO
Maria da Consolação no Morro das Lamúrias, pérola, moça que aos olhos encanta. Sebastião Padeiro não descansava o ano inteiro, contava de janeiro a janeiro com aquela aparição, Maria da Consolação descendo o beco para comprar-lhe pão. E ver a moça que alegrava o seu coração, sendo ela quem o entusiasmava a gritar causando ecos com satisfação passando por entre os becos, e quando a via, dizia: _seu nome já me é perfeito, “Consolação”, te dou meu coração, pode levá-lo no lugar do pão. _Mas que é isso Sebastião, me vê os pães que estou indo embora, onde já se viu isso, recebe aí e não demora. _Esquenta não meu cheiro, preciso de inspiração, corre de mim não, te quero tanto bem! _Toma modos, não vê que tá muito pra frente, não desvia a atenção, tem mais fregueses, mais gente, ou vai ficar aí abobado? Será que não te comprarei pães mais vezes? Sebastião em plena satisfação despedia a bela jovem sem cobrar-lhe os pães. Era um moço vistoso, sem grandes aspirações nos estudos, de família carente vivia da venda de pães e de pensamentos absurdos. Bem como muitos pobres, sonhava ou pensava em um dia ter fartura, esqueceu do morro a arquitetura e foi-se à casa lotérica, Sebastião Padeiro da zona periférica com o pouco dinheiro dos pães que vendeu o dia inteiro, fez uma fezinha na Mega Sena, cruzou os dedos e voltou sem sentir pena feliz para casa, esperando no dia seguinte, estar no morro naquela mesma labuta ver Maria da Consolação pensando: _ah! Se ela me desse asa, todavia pelo menos ela me escuta. Amanhece o dia e lá está ele novamente, alegre e sorridente entre as vielas do morro, sempre naquele ponto onde esperava o socorro, aquela que alimentava as suas esperanças, Maria da Consolação agitando as suas tranças, toda faceira em busca dos seus pães, mas desta vez, aquela morena não desceu com as suas danças e, Sebastião padeceu momentânea pasmaceira com as suas lembranças. Esperou, esperou e nada, gritou, gritou, mas ela não apareceu. Sentiu-se abatido, seu semblante se fez caído e o seu olhar entristeceu. Perguntou para dona Geruza: _a senhora sabe da Consolação? Dona Geruza que dava notícias de tudo naquela localização, respondeu-lhe: _meu padeiro Sebastião, não tá sabendo? A Consolação ficou famosa, todos do beco ontem à tarde desceram o morro correndo, você precisa ver que menina formosa! Será modelo, vai desfilar, cantar, alguma coisa assim, acho que nem mais irá voltar para aquele humilde barraquim. As palavras da dona Geruza foram um balde de água gelada, Sebastião perdeu as forças e sentou-se em uma escada, não acreditou no que ouviu e refletiu apaixonado: _disse-me que compraria pães mais vezes, que não era para eu ficar abobado. Agora sou apenas mais um coitado, nem vai se lembrar mais de mim, no meio daquela gente rica e famosa, quando a verei de novo no morro? Do início ao fim era apenas fantasia, mas nunca imaginaria que um dia ela partisse assim. Terminou a sua tarefa todo cabisbaixo, voltou para casa com a autoestima lá embaixo, ao deitar chorou com muita tristeza, Maria da Consolação para ele era certamente um coquetel de beleza. A partir dali os dias não foram mais os mesmos, o morro perdeu a graça e nos becos Sebastião não fazia mais praça, vendia diariamente o seu pão, mas na sua alegria em que andava, a questão tornou-se angústia em seu coração e da freguesia dela não disfarçava. Não respondia se o perguntavam o que havia acontecido, era como se um irmão querido dele houvesse morrido, ou um filho se lhe houvesse perdido, mas não se alegrava mais, vender os pães já não tinha mais sentido. Nesse lapso de tempo Maria da Consolação dava os primeiros passos na carreira, ser modelo, dançarina e cantora lhe rendia espaços numa vida corriqueira, não lhe sobrando tempo, se sobrecarregando sobremaneira, lembrar de Sebastião para ela seria apenas se fosse zoeira. Vai chegando o dia do sorteio da loteria, Sebastião já não está mais a fim do bilhete da aposta, entristecido pela ausência da Consolação no morro, fica buscando uma resposta e, em casa seus pais tentam desencorajá-lo: _meu filho não fique assim por causa daquela moça, sabemos que é difícil e que não podemos do sofrimento livrá-lo, mas tenha força, isso vai passar, d’outra garota irá gostar e da Consolação irá esquecer, filho estamos torcendo para vermos você se reerguer. _Mas mãe e meu pai, eu sempre sonhei com ela, para mim é a mais bela moça que conheço, sei que talvez não a mereço, contudo tudo tem o seu preço, esta ilusão pela qual padeço. Pensava em um dia ficar rico, ter muitos recursos para poder causar-lhe impressão, oferecê-la o mundo e não ser mais um vendedor de pães, conquistá-la, tê-la em meus braços e dar-lhe tudo em suas mãos.
SORTES MUDADAS
Mas aquela luz que se acende para um em milhões, Sebastião Padeiro também tinha brilho em suas imaginações, algo o incomodava para conferir as dezenas sorteadas, ficava relutante, mas o íntimo era insistente em suas escolhas desnorteadas. Ele parecia estar sem nenhum desejo, queria mesmo era sumir dali, todavia era como um lampejo as imagens de Consolação em si, por isso foi ficando abafado e com o coração apaixonado resolveu conferir. Ah! Aquela coisa né, sorte não é fruta que dá em pé, sorte ninguém sabe de quem é, é de quem tenta, de quem inventa, ou de quem nasceu para ter fé. Sebastião nasceu com todos os requisitos, sorte foi o que não lhe faltou, conferiu o sorteio e as seis dezenas acertou. Ficou ressabiado, ficou maravilhado, mudou até o andado, não se conteve extasiado e o choro deixou cair, de padeiro a milionário, Sebastião o visionário viu poder o seu projeto de vida concluir. O morro, já não poderia ser mais das Lamúrias, nem Sebastião, tampouco Consolação gostariam de lembrar das suas penúrias, o que fizeram naquele lugar foi deixar todo o passado num altar de esquecimentos, mesmo sabendo eles que muitas vezes lembrariam de alguns poucos bons momentos, porquê ali viveram desde que nasceram até os eventos que mudaram seus destinos, agora Sebastião rico e Consolação famosa, a história havia mudado seus figurinos e seus mundos diferentes ainda não haviam se cruzado, haveriam de se cruzar para novamente criar entre eles um novo trecho de prosa. O prêmio avultado foi o de Sebastião, muitas cifras, cem vezes milhão, diferente da moça Maria da Consolação, que ainda dava murros mesmo famosa, seus ganhos comparados ao do ex-padeiro, ainda não a deixaria em um mar de rosas, eram simplesmente pouco dinheiro, mas a estrela dela crescia com tanto talento, beleza e energia e, dentro de tão pouco tempo seu primeiro milhão ela faria.
ALIMENTANDO AS ESPERANÇAS
Sebastião investiu o seu dinheiro em muitos bons negócios, era cauteloso e tinha muito medo do ócio, jamais queria ficar pobre novamente, por isso trabalhava com a mente, se ocupando, estudando em como fazer seu dinheiro render, então estava sempre trabalhando, se inteirando de tudo o que estava passando com os seus empreendimentos, mas nem por isso, deixava de viver bons momentos. Passeava, conhecia lugares importantes, pessoas influentes, se mergulhando no mercado empresarial, se tornando um jovem com capacidades gestoras num atual mundo cada vez mais exigente, onde pessoas inteligentes se sobressaiam, tornando seus negócios, seus produtos e serviços cada vez mais atraentes. Mas, e o amor do seu passado remoto? Ele, dele não tinha nenhuma foto, mas estava lá preso em suas lembranças, estava apenas dando um tempo, pois eram certas as esperanças que tinha em reencontrar Maria da Consolação, agora o seu campo era imenso, poderia revirar uma nação para realizar em seu coração sua tão almejada pretensão. O tempo passou numa velocidade assustadora, e Maria da Consolação consolidou-se mesmo foi como cantora, seus hits logo chegaram ao topo das paradas nas rádios, com suas canções bastantes tocadas e consequentemente aos ouvidos de Sebastião que as ouviu, que quando ficou sabendo que eram músicas da Consolação procurou logo gravar os nomes e, em seu coração sentiu uma chama de amor crescendo e o mais rápido que pôde preparou-se para que os vídeoclipes dela estivesse vendo. Em sua sala, no conforto do seu lar, Sebastião com o coração batendo forte preparou o seu espírito para descansar, estava prestes a ver na tela de sua televisão, Maria da consolação a dançar e cantar. A primeira impressão fê-lo sentir-se turbado, em assistir e imaginar Consolação tão linda e sexy ao seu lado, ficou paralisado por entender que em quão maravilhosa mulher ela havia se transformado. Ao contrário de Sebastião, Consolação estava noutros mundos, a fama crescendo, seus fãs a adorando a fundo, colhendo seus frutos oriundos do seu trabalho árduo, não mais se lembrava do padeiro, e nem imaginava que seu assíduo admirador do morro havia se tornado um milionário.
ANTES O SIMPLES, DEPOIS O GLAMOUR
Vamos falar do Morro das Lamúrias: periferia das Gerais, daqueles lugares onde para muitos sem recursos, acaba se tornando o cais, barracos de favela, becos e vielas, esconderijos de marginais, mas que também abrigam gente boa que são a maioria, trabalhadores que lutam honestamente dia a dia, iguais eram Sebastião Padeiro e Maria, gente humilde que tem muitas esperanças, que guardam talentos natos e às vezes são descobertas por algumas lideranças. Tal qual Consolação a que Sebastião via no morro e não sabia o que ela fazia, alimentando suas românticas fantasias. A moça era parte de um projeto de cantoras e dançarinas, pois desde criança ela era diferenciada entre tantas meninas, nisso os pais logo viram um futuro promissor, se fez moça aplicada nos estudos e ao projeto deu valor, valeu tanto suas forças, sua aplicação, foco e objetivo, que ao tempo certo, portas se abriram para os seus atrativos. Meio parecido com o destino de Sebastião, o de Consolação antes do estrelato, teve muita preparação. Sorte imensa a dele, isto é fato, ela também teve sorte, todavia venceu com muitos talentos e predisposição. A essa altura dos acontecimentos em que Consolação já havia se envolvido, muito se tinha vivido, moça linda, artista famosa, recebia constantemente propostas indecentes, muito cobiçada, convites feitos por pessoas descompromissadas, mas seu coração era livre, ainda não estava ocupado por ninguém, tinha os pés no chão, sozinha se sentia bem, por ela, não era tempo de namorar com alguém. Mas logo uma surpresa a esperava, Sebastião com o seu coração já a buscava e em um de seus shows a assistia, e estar bem perto dela era tudo o que ele queria, mas como se aproximar dela, era tudo diferente, parecia algo mágico, estar por causa dela no meio daquela multidão de gente, não havia mais a liberdade do morro, naquela ocasião seria apenas vê-la de um camarote, todavia Sebastião não satisfeito, usando a sua influência procurou um suporte, um jeito que o levasse até ao camarim de Consolação. Em um pequeno intervalo, depois de anos, aquela morena se admiraria, trocaria olhares com o homem que humildemente, pães a ela vendia, mas não entenderia, em seu camarim, um ex-padeiro, empresário e aventureiro, com ar galanteador, todo entusiasmado, muito afim de conquistar o seu tão sonhado amor. Não se falaram, não havia tempo, apenas se flertaram. Consolação voltou para o palco, confusão em sua cabeça fez com que ela cantasse forte para que aquilo não a balançasse, mesmo assim um filme se passou, e ao fim, no íntimo ela tudo considerou.
O TÃO SONHADO ENCONTRO
Agora, curiosa, Conceição quis saber mais sobre Sebastião, por isto separou na agenda um espaço para um possível encontro e de antemão buscou uma solução para estar acessível, porquê dentro do seu coração havia uma interrogação: _mesmo que eu não sinta nada, não sei, tá tudo muito estranho, pode parecer conto de fadas, mas aquela cena no camarim me causou umas dúvidas, realmente estranho, ele não é mais padeiro, já deve conhecer o mundo inteiro. Podemos trocar algumas palavras, quem sabe tudo é verdadeiro! É chegado o dia do esperado encontro entre Maria da Consolação e Sebastião, o lugar escolhido é simples, eles não tiveram grande ambição, se encontraram em uma ilha, numa praia bem pacata onde se chegava de barco, no litoral nordestino, na hora bem exata, ali eles selariam seus destinos. Sebastião ao ver consolação ficou todo maravilhado, ela ao contrário, estava muito ansiosa e inspirando cuidado, mas em seu coração ao fitar Sebastião, algo se fez por mudado. _Oi riqueza para os meus olhos! Sebastião como sempre num tom descontraído. Consolação responde: _olá! Você esteve tanto tempo sumido, mas com o mesmo jeito atrevido. _É claro, e até pensei por uns tempos que eu havia te perdido. Não sei se lembrava mais de mim, mas em meu coração, de reencontrar você eu nunca havia me desistido. _Pois é, como são as coisas, aquelas suas brincadeiras lá no morro, para mim não faziam realmente nenhum sentido, mas como tudo mudou, eu aqui assim e você com tudo que tem conseguido. Se abraçaram, se sentiram por um instante, se assentaram de frente um para o outro e com olhares fixos fizeram um pouco de silêncio, deixando o barulho das ondas e o zunido do vento serem o bastante. Logo em seguida retomaram o diálogo, Sebastião explicou o que aconteceu depois que ela saiu do morro, como foi que ele ficou desesperado pedindo socorro, Consolação ficou sem entender, pois não levava a sério o que Sebastião a dizia naqueles tempos, não imaginava que eram tão sérios para ele todos aqueles momentos. Disse Sebastião desabafando: _eu chorei muito com a sua partida, você era tudo que estava faltando naquele morro, parecia que eu não tinha mais vida, sua ausência me abriu uma ferida, a minha sorte foi o prêmio que ganhei, pois assim tive que lidar com outro sonho que sonhei. Respondeu Consolação: _eu não tive escolha, era também um sonho meu sair daquele lugar, me perdoe se para você tudo era tão sério e se te fiz sofrer, se te fiz chorar, nunca pensei que realmente de mim fosse um dia gostar. _Tudo bem, agora me conte, perguntou Sebastião: como foram os seus dias, sua trajetória na carreira de cantora? Não deu para ser modelo né, me conte essa história promissora. _Ah! As coisas não são tão fáceis como alguns pensam, você entra com seus talentos que na realidade não são tudo, porque tem outros talentos com os mesmos intentos, na verdade além dos diferenciais que você tem, ainda deve contar com a sorte de encontrar quem te dê suporte, além do mais então vi que como modelo seria quase impossível sobressair, mas para não desistir preferi apostar como cantora e dançarina, porque também era no que eu mais destacava quando era menina. Agarrei minha chance como se vivesse um romance, dei tudo de mim e fui até o fim, fui reconhecida, ganhei muitos fãs e transformei a minha vida. Para você foi fácil imagino, fez uma aposta, conferiu o bilhete e a resposta, já era um milionário aurino. _Fácil sim até saber que fui sorteado, todavia muito complicado saber o que fazer e como lidar com tanto dinheiro que me foi dado.
Maria da Consolação no Morro das Lamúrias, pérola, moça que aos olhos encanta. Sebastião Padeiro não descansava o ano inteiro, contava de janeiro a janeiro com aquela aparição, Maria da Consolação descendo o beco para comprar-lhe pão. E ver a moça que alegrava o seu coração, sendo ela quem o entusiasmava a gritar causando ecos com satisfação passando por entre os becos, e quando a via, dizia: _seu nome já me é perfeito, “Consolação”, te dou meu coração, pode levá-lo no lugar do pão. _Mas que é isso Sebastião, me vê os pães que estou indo embora, onde já se viu isso, recebe aí e não demora. _Esquenta não meu cheiro, preciso de inspiração, corre de mim não, te quero tanto bem! _Toma modos, não vê que tá muito pra frente, não desvia a atenção, tem mais fregueses, mais gente, ou vai ficar aí abobado? Será que não te comprarei pães mais vezes? Sebastião em plena satisfação despedia a bela jovem sem cobrar-lhe os pães. Era um moço vistoso, sem grandes aspirações nos estudos, de família carente vivia da venda de pães e de pensamentos absurdos. Bem como muitos pobres, sonhava ou pensava em um dia ter fartura, esqueceu do morro a arquitetura e foi-se à casa lotérica, Sebastião Padeiro da zona periférica com o pouco dinheiro dos pães que vendeu o dia inteiro, fez uma fezinha na Mega Sena, cruzou os dedos e voltou sem sentir pena feliz para casa, esperando no dia seguinte, estar no morro naquela mesma labuta ver Maria da Consolação pensando: _ah! Se ela me desse asa, todavia pelo menos ela me escuta. Amanhece o dia e lá está ele novamente, alegre e sorridente entre as vielas do morro, sempre naquele ponto onde esperava o socorro, aquela que alimentava as suas esperanças, Maria da Consolação agitando as suas tranças, toda faceira em busca dos seus pães, mas desta vez, aquela morena não desceu com as suas danças e, Sebastião padeceu momentânea pasmaceira com as suas lembranças. Esperou, esperou e nada, gritou, gritou, mas ela não apareceu. Sentiu-se abatido, seu semblante se fez caído e o seu olhar entristeceu. Perguntou para dona Geruza: _a senhora sabe da Consolação? Dona Geruza que dava notícias de tudo naquela localização, respondeu-lhe: _meu padeiro Sebastião, não tá sabendo? A Consolação ficou famosa, todos do beco ontem à tarde desceram o morro correndo, você precisa ver que menina formosa! Será modelo, vai desfilar, cantar, alguma coisa assim, acho que nem mais irá voltar para aquele humilde barraquim. As palavras da dona Geruza foram um balde de água gelada, Sebastião perdeu as forças e sentou-se em uma escada, não acreditou no que ouviu e refletiu apaixonado: _disse-me que compraria pães mais vezes, que não era para eu ficar abobado. Agora sou apenas mais um coitado, nem vai se lembrar mais de mim, no meio daquela gente rica e famosa, quando a verei de novo no morro? Do início ao fim era apenas fantasia, mas nunca imaginaria que um dia ela partisse assim. Terminou a sua tarefa todo cabisbaixo, voltou para casa com a autoestima lá embaixo, ao deitar chorou com muita tristeza, Maria da Consolação para ele era certamente um coquetel de beleza. A partir dali os dias não foram mais os mesmos, o morro perdeu a graça e nos becos Sebastião não fazia mais praça, vendia diariamente o seu pão, mas na sua alegria em que andava, a questão tornou-se angústia em seu coração e da freguesia dela não disfarçava. Não respondia se o perguntavam o que havia acontecido, era como se um irmão querido dele houvesse morrido, ou um filho se lhe houvesse perdido, mas não se alegrava mais, vender os pães já não tinha mais sentido. Nesse lapso de tempo Maria da Consolação dava os primeiros passos na carreira, ser modelo, dançarina e cantora lhe rendia espaços numa vida corriqueira, não lhe sobrando tempo, se sobrecarregando sobremaneira, lembrar de Sebastião para ela seria apenas se fosse zoeira. Vai chegando o dia do sorteio da loteria, Sebastião já não está mais a fim do bilhete da aposta, entristecido pela ausência da Consolação no morro, fica buscando uma resposta e, em casa seus pais tentam desencorajá-lo: _meu filho não fique assim por causa daquela moça, sabemos que é difícil e que não podemos do sofrimento livrá-lo, mas tenha força, isso vai passar, d’outra garota irá gostar e da Consolação irá esquecer, filho estamos torcendo para vermos você se reerguer. _Mas mãe e meu pai, eu sempre sonhei com ela, para mim é a mais bela moça que conheço, sei que talvez não a mereço, contudo tudo tem o seu preço, esta ilusão pela qual padeço. Pensava em um dia ficar rico, ter muitos recursos para poder causar-lhe impressão, oferecê-la o mundo e não ser mais um vendedor de pães, conquistá-la, tê-la em meus braços e dar-lhe tudo em suas mãos.
SORTES MUDADAS
Mas aquela luz que se acende para um em milhões, Sebastião Padeiro também tinha brilho em suas imaginações, algo o incomodava para conferir as dezenas sorteadas, ficava relutante, mas o íntimo era insistente em suas escolhas desnorteadas. Ele parecia estar sem nenhum desejo, queria mesmo era sumir dali, todavia era como um lampejo as imagens de Consolação em si, por isso foi ficando abafado e com o coração apaixonado resolveu conferir. Ah! Aquela coisa né, sorte não é fruta que dá em pé, sorte ninguém sabe de quem é, é de quem tenta, de quem inventa, ou de quem nasceu para ter fé. Sebastião nasceu com todos os requisitos, sorte foi o que não lhe faltou, conferiu o sorteio e as seis dezenas acertou. Ficou ressabiado, ficou maravilhado, mudou até o andado, não se conteve extasiado e o choro deixou cair, de padeiro a milionário, Sebastião o visionário viu poder o seu projeto de vida concluir. O morro, já não poderia ser mais das Lamúrias, nem Sebastião, tampouco Consolação gostariam de lembrar das suas penúrias, o que fizeram naquele lugar foi deixar todo o passado num altar de esquecimentos, mesmo sabendo eles que muitas vezes lembrariam de alguns poucos bons momentos, porquê ali viveram desde que nasceram até os eventos que mudaram seus destinos, agora Sebastião rico e Consolação famosa, a história havia mudado seus figurinos e seus mundos diferentes ainda não haviam se cruzado, haveriam de se cruzar para novamente criar entre eles um novo trecho de prosa. O prêmio avultado foi o de Sebastião, muitas cifras, cem vezes milhão, diferente da moça Maria da Consolação, que ainda dava murros mesmo famosa, seus ganhos comparados ao do ex-padeiro, ainda não a deixaria em um mar de rosas, eram simplesmente pouco dinheiro, mas a estrela dela crescia com tanto talento, beleza e energia e, dentro de tão pouco tempo seu primeiro milhão ela faria.
ALIMENTANDO AS ESPERANÇAS
Sebastião investiu o seu dinheiro em muitos bons negócios, era cauteloso e tinha muito medo do ócio, jamais queria ficar pobre novamente, por isso trabalhava com a mente, se ocupando, estudando em como fazer seu dinheiro render, então estava sempre trabalhando, se inteirando de tudo o que estava passando com os seus empreendimentos, mas nem por isso, deixava de viver bons momentos. Passeava, conhecia lugares importantes, pessoas influentes, se mergulhando no mercado empresarial, se tornando um jovem com capacidades gestoras num atual mundo cada vez mais exigente, onde pessoas inteligentes se sobressaiam, tornando seus negócios, seus produtos e serviços cada vez mais atraentes. Mas, e o amor do seu passado remoto? Ele, dele não tinha nenhuma foto, mas estava lá preso em suas lembranças, estava apenas dando um tempo, pois eram certas as esperanças que tinha em reencontrar Maria da Consolação, agora o seu campo era imenso, poderia revirar uma nação para realizar em seu coração sua tão almejada pretensão. O tempo passou numa velocidade assustadora, e Maria da Consolação consolidou-se mesmo foi como cantora, seus hits logo chegaram ao topo das paradas nas rádios, com suas canções bastantes tocadas e consequentemente aos ouvidos de Sebastião que as ouviu, que quando ficou sabendo que eram músicas da Consolação procurou logo gravar os nomes e, em seu coração sentiu uma chama de amor crescendo e o mais rápido que pôde preparou-se para que os vídeoclipes dela estivesse vendo. Em sua sala, no conforto do seu lar, Sebastião com o coração batendo forte preparou o seu espírito para descansar, estava prestes a ver na tela de sua televisão, Maria da consolação a dançar e cantar. A primeira impressão fê-lo sentir-se turbado, em assistir e imaginar Consolação tão linda e sexy ao seu lado, ficou paralisado por entender que em quão maravilhosa mulher ela havia se transformado. Ao contrário de Sebastião, Consolação estava noutros mundos, a fama crescendo, seus fãs a adorando a fundo, colhendo seus frutos oriundos do seu trabalho árduo, não mais se lembrava do padeiro, e nem imaginava que seu assíduo admirador do morro havia se tornado um milionário.
ANTES O SIMPLES, DEPOIS O GLAMOUR
Vamos falar do Morro das Lamúrias: periferia das Gerais, daqueles lugares onde para muitos sem recursos, acaba se tornando o cais, barracos de favela, becos e vielas, esconderijos de marginais, mas que também abrigam gente boa que são a maioria, trabalhadores que lutam honestamente dia a dia, iguais eram Sebastião Padeiro e Maria, gente humilde que tem muitas esperanças, que guardam talentos natos e às vezes são descobertas por algumas lideranças. Tal qual Consolação a que Sebastião via no morro e não sabia o que ela fazia, alimentando suas românticas fantasias. A moça era parte de um projeto de cantoras e dançarinas, pois desde criança ela era diferenciada entre tantas meninas, nisso os pais logo viram um futuro promissor, se fez moça aplicada nos estudos e ao projeto deu valor, valeu tanto suas forças, sua aplicação, foco e objetivo, que ao tempo certo, portas se abriram para os seus atrativos. Meio parecido com o destino de Sebastião, o de Consolação antes do estrelato, teve muita preparação. Sorte imensa a dele, isto é fato, ela também teve sorte, todavia venceu com muitos talentos e predisposição. A essa altura dos acontecimentos em que Consolação já havia se envolvido, muito se tinha vivido, moça linda, artista famosa, recebia constantemente propostas indecentes, muito cobiçada, convites feitos por pessoas descompromissadas, mas seu coração era livre, ainda não estava ocupado por ninguém, tinha os pés no chão, sozinha se sentia bem, por ela, não era tempo de namorar com alguém. Mas logo uma surpresa a esperava, Sebastião com o seu coração já a buscava e em um de seus shows a assistia, e estar bem perto dela era tudo o que ele queria, mas como se aproximar dela, era tudo diferente, parecia algo mágico, estar por causa dela no meio daquela multidão de gente, não havia mais a liberdade do morro, naquela ocasião seria apenas vê-la de um camarote, todavia Sebastião não satisfeito, usando a sua influência procurou um suporte, um jeito que o levasse até ao camarim de Consolação. Em um pequeno intervalo, depois de anos, aquela morena se admiraria, trocaria olhares com o homem que humildemente, pães a ela vendia, mas não entenderia, em seu camarim, um ex-padeiro, empresário e aventureiro, com ar galanteador, todo entusiasmado, muito afim de conquistar o seu tão sonhado amor. Não se falaram, não havia tempo, apenas se flertaram. Consolação voltou para o palco, confusão em sua cabeça fez com que ela cantasse forte para que aquilo não a balançasse, mesmo assim um filme se passou, e ao fim, no íntimo ela tudo considerou.
O TÃO SONHADO ENCONTRO
Agora, curiosa, Conceição quis saber mais sobre Sebastião, por isto separou na agenda um espaço para um possível encontro e de antemão buscou uma solução para estar acessível, porquê dentro do seu coração havia uma interrogação: _mesmo que eu não sinta nada, não sei, tá tudo muito estranho, pode parecer conto de fadas, mas aquela cena no camarim me causou umas dúvidas, realmente estranho, ele não é mais padeiro, já deve conhecer o mundo inteiro. Podemos trocar algumas palavras, quem sabe tudo é verdadeiro! É chegado o dia do esperado encontro entre Maria da Consolação e Sebastião, o lugar escolhido é simples, eles não tiveram grande ambição, se encontraram em uma ilha, numa praia bem pacata onde se chegava de barco, no litoral nordestino, na hora bem exata, ali eles selariam seus destinos. Sebastião ao ver consolação ficou todo maravilhado, ela ao contrário, estava muito ansiosa e inspirando cuidado, mas em seu coração ao fitar Sebastião, algo se fez por mudado. _Oi riqueza para os meus olhos! Sebastião como sempre num tom descontraído. Consolação responde: _olá! Você esteve tanto tempo sumido, mas com o mesmo jeito atrevido. _É claro, e até pensei por uns tempos que eu havia te perdido. Não sei se lembrava mais de mim, mas em meu coração, de reencontrar você eu nunca havia me desistido. _Pois é, como são as coisas, aquelas suas brincadeiras lá no morro, para mim não faziam realmente nenhum sentido, mas como tudo mudou, eu aqui assim e você com tudo que tem conseguido. Se abraçaram, se sentiram por um instante, se assentaram de frente um para o outro e com olhares fixos fizeram um pouco de silêncio, deixando o barulho das ondas e o zunido do vento serem o bastante. Logo em seguida retomaram o diálogo, Sebastião explicou o que aconteceu depois que ela saiu do morro, como foi que ele ficou desesperado pedindo socorro, Consolação ficou sem entender, pois não levava a sério o que Sebastião a dizia naqueles tempos, não imaginava que eram tão sérios para ele todos aqueles momentos. Disse Sebastião desabafando: _eu chorei muito com a sua partida, você era tudo que estava faltando naquele morro, parecia que eu não tinha mais vida, sua ausência me abriu uma ferida, a minha sorte foi o prêmio que ganhei, pois assim tive que lidar com outro sonho que sonhei. Respondeu Consolação: _eu não tive escolha, era também um sonho meu sair daquele lugar, me perdoe se para você tudo era tão sério e se te fiz sofrer, se te fiz chorar, nunca pensei que realmente de mim fosse um dia gostar. _Tudo bem, agora me conte, perguntou Sebastião: como foram os seus dias, sua trajetória na carreira de cantora? Não deu para ser modelo né, me conte essa história promissora. _Ah! As coisas não são tão fáceis como alguns pensam, você entra com seus talentos que na realidade não são tudo, porque tem outros talentos com os mesmos intentos, na verdade além dos diferenciais que você tem, ainda deve contar com a sorte de encontrar quem te dê suporte, além do mais então vi que como modelo seria quase impossível sobressair, mas para não desistir preferi apostar como cantora e dançarina, porque também era no que eu mais destacava quando era menina. Agarrei minha chance como se vivesse um romance, dei tudo de mim e fui até o fim, fui reconhecida, ganhei muitos fãs e transformei a minha vida. Para você foi fácil imagino, fez uma aposta, conferiu o bilhete e a resposta, já era um milionário aurino. _Fácil sim até saber que fui sorteado, todavia muito complicado saber o que fazer e como lidar com tanto dinheiro que me foi dado.
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