Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.
Brasileiro, casado, nascido no século passado, em Salvador, a cidade-luz, a baía de todos os santos, onde os portugueses primordialmente fincaram a sua cruz.
Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.
Escritor bissexto, escreve regularmente entre solstícios e equinócios e guarda seu legado de escritos no blog: HTTP://prosaeletronica.blogspot.com
Quem tiver olhos de ler e coração de sentir, visite e comente!
Confessadamente seguidor dos mestres brasileiros Quintana, Vinicius e Drummond, é entusiasta da literatura portuguesa, de Saramago, Eça de Queiroz e Pessoa.
Nas horas vagas, entre o exercício de suas atribuições profissionais e o prazer da escrita se dedica a obras assistenciais de caridade, seguindo o preceito de sua crença.
Crê
Nem toda promessa é falta
Nem todo crime é pena
Nem toda dor mata...
Lê
Na pauta da areia fina
No olho desta tormenta serena
No espelho d'água da retina...
Sê
Para a montanha, o vulcão
Para o silêncio, o grito
Para o frio de Agosto, o verão...
Vê
Que a roleta permanece rodando
O músculo persevera hirto
E eu continuo voltando...
1 018
Como é que se diz Eu te amo ?
E lá se foram dezesseis anos. Ficaram a saudade e as eternas canções de um ídolo de minha juventude. Abaixo transcrevo um texto em homenagem a ELE, escrito em 2007, no meu blog "prosa eletrônica":
Eu me lembro como se tivesse acontecido ontem, mas já se passaram tantos anos! Era uma sexta-feira. Naquela época, todas as sextas-feiras eram especiais. Éramos tão jovens e tínhamos todo o tempo do mundo. As ilusões não haviam fenecido, e ainda era cedo para nós.
Aproveitamos o dia que prenunciava o final de semana para comemorar, saímos do trabalho com o sol ainda alto, devido ao horário de verão. Fomos para o nosso "bunker" tradicional, um dos inúmeros "pés-sujos" que ladeavam o nosso escritório.
Trabalhávamos duro durante toda a semana, segundo o "Yuppie way of life", vigente naquele tempo , e buscávamos toda a diversão que algum veneno anti-monotonia pudesse nos proporcionar, nos tempos livres. Éramos jovens típicos daquele tempo. Hoje, um tempo perdido.
Discutíamos sobre tudo, desde a mais recente fofoca do escritório até Freud, Jung, Engels e Marx. E apesar de acreditarmos no futuro da nação, havia tanta sujeira nas favelas e no Senado (e por todos os lados) que sempre nos questionávamos: que país seria aquele? O Rio de Janeiro já prenunciava o faroeste caboclo que é hoje, mas ainda ficávamos até mais tarde nas ruas, conversando, bebendo, namorando... tentando descobrir como é que se diz: " - Eu te amo" !
Lá pelas tantas, a rádio que municiava a música ambiente anunciou uma notícia tão inédita quanto improvável para nós: havia falecido naquela madrugada, por infecção pulmonar, o cantor, compositor e líder da Legião Urbana, Renato Russo.
Ícone e porta-voz de toda uma geração, da minha geração, Renato foi a voz, o cérebro e o coração de toda uma época. Sabíamos de seu recolhimento e das suspeitas de que ele estivesse com AIDS, mas o lançamento de um novo CD, "A Tempestade", apesar de tão belo quanto soturno, nos havia dado um novo alento. Mesmo depois de ouvirmos o anúncio de sua morte, custávamos a acreditar. No meu canto, eu repetia internamente: eu não vou chorar, eu não vou chorar... Acho que todos daquela mesa estavam pensando o mesmo, porque ninguém ousava falar palavra sequer. Aos poucos, timidamente, alguns começaram a cantarolar baixinho, a música que estava sendo reproduzida no alto-falante, como se não houvesse amanhã.
A noite acabou e certamente não fugiríamos mais com ele, ficaram as honras e promessas, lembranças e estórias. Enquanto estávamos indo de volta para casa, eu me lembrava de uma frase dele que dizia que não devemos cultuar heróis porque até mesmo estes tem os pés de barro...
Contudo, eu não queria de forma alguma me desfazer de meu herói. Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais e seja como for, mesmo com os seus pés de barro, eu rabisquei um sol na calçada, com a fugacidade de um giz. Ou da própria vida. Mas tudo bem...
Tributo a Renato Russo (1960-1996)
931
Outro outono
Estes olhos que fitaram os meus
há instantes,
quisera fossem os seus,
órbitas distantes,
mas foram-se ligeiros,
como outra estação
Estas mãos que se estenderam
às minhas,
naquela hora,
Quisera fossem as suas,
muito embora,
não possuam calor,
nem suor,
nem paixão
Estes lábios que falam aos meus
no presente,
quisera fossem os seus,
muito quentes,
mas sussurram palavras oblíquas,
num esforço oco
e vão
Estes corpos suados, entrelaçados,
nesta cama,
Quisera fossem os nossos,
óleo e chama,
incendiando desejos,
entorpecidos
de tesão
Este perfume que senti
há um segundo
Quisera deixasse seu rastro
neste mundo,
mas perdeu-se no ar, com o fim
de outro verão
Esta nova estação que chega
justo agora,
Quisera fosse mais que outro outono,
e levasse a saudade
embora...
e deixasse cair folhas secas
ao vento,
no chão...
1 025
O tolo motivo da rosa
Em nenhum momento
falei-te de minhas agonias
mas trago comigo algumas feridas
Se o que feriu não foi
espinho
Se o que abriu não foi
botão
Em tempo marcado
tentei ceifar-te de minhas entranhas
fugi do abrigo e transpus as medidas
Se o que desfolhou não era
pétala
Se o que exalou não era
perfume
E deixando de ser assim
também vou existindo
imotivada pelo tolo motivo
Se o que me ceifou não foi
ao acaso
Se o que me tocou não foi
sem amor
943
Battlefield
Não faças do amor um jogo
tuas torres serão tomadas,
teu cavalo destituído
e não há jogada magistral
que não peque
E mesmo que te esforces
antes que percebas
terás o teu coração em xeque
Não faças do amor ilusionismo
tua cartola estará rota
e teus lenços furados
e nenhum coelho salvador
te saltará
E por mais hábil que sejas
e mais recursos que lances
será o teu coração que desaparecerá
Não faças do amor um campo de batalha
os corpos estarão amontoados
e as vestes rasgadas
E ainda que uses da melhor tática
não haverá salvação
Sobrarão tua bandeira em farrapos
e vários pedaços destroçados
do teu derrotado coração.
1 008
Palavras insones
Nesta noite vazia
de sonhos e esperanças
pouso o copo vazio de bebida,
de lenitivo ou veneno,
na mesa oca
e procuro palavras insones
que façam companhia
a este papel inerte
e branco
Onde estão? na soleira vazia
da casa, no coração deserto
do peito de carne
que bate involuntário,
como o tiquetaquear
dos relógios da sala
de estar
Estarão no limbo à espera
de algum chamado grave?
Estarão suspensas, encantadas,
aguardando a hora exata,
caprichosa de aparecerem?
Onde estão? chamo-as pelo nome,
aceno, pisco os olhos,
conduzo algumas pelas mãos,
esforço inútil,
pois que estas deusas
caprichosas,
melindrosamente,
não se deixam conduzir
por onde não desejem ir.
Não sou eu que as escolho, garimpo,
reúno e escrevo. As palavras,
estas damas lascivas e coerentes, sãos elas
que me escolhem, me recolhem,
Conduzem-me pelas mãos e me levam onde
eu nunca sonhei estar.
957
Cegos nós
A ti não darei
nem mais um segundo
de meu tempo,
nem mais uma nesga
de minha alegria,
nem mais uma gota
de minha lágrima,
nem mínimo alqueire
de meu coração...
Acabou então, agora,
neste instante, e de há muito
só não havíamos notado
o cadáver em nossas mãos
para que velório, cerimônia
enterro, crematório
neste sepulcro hipócrita
denominado casamento,
simulacro de vida,
feto irrealizável,
corvo em meu ombro,
túmulo do amor
É chegado o momento
em que as duas pontas,
então entrelaçadas,
apertam o vazio,
sufocam o passado,
como cegos nós,
cada uma para diferentes lados
O que inexistia toma forma
e se torna insuportável:
o nojo, o enjôo,
o asco, recíproco e inexorável
escorrem pelas paredes e vísceras,
a culpa é multiplicada, nunca dividida
e somada por cada um,
computada ao outro
Quem deitou sementes de engano
em solo inadequado?
quem jogou sementes de mentira
em terreno arenoso?
Como fomos cegos nós, ao acreditar
que de semeadura desditosa
viríamos ao acaso colher amor...
1 014
Estesia
Que se faça a luz
posto que há muito
se traduz
o meu caminho por penumbra
e a minha vida por sombra
Luz: a que sucede ao
crepúsculo,
a que advêm de um
ósculo
a que de dor, tão intangível
me atinja,
me fira as vistas
e me faça enxergar
Que se faça a música
posto que há muito
uma rústica
balbúrdia retine inclemente
como uma grande torrente
Música: a que destoe tanto
quanto possível do barulho
vigente
que ressoe, e tão dissonante
me tanja,
me adivinhe o timbre,
e me faça ecoar
Que se façam as cores
posto que há muito
minhas dores
em preto-e-branco desbotado
pincelaram um painel entrecortado
Cores: que sejam tão policromáticas
quanto possível, numa tela
expressionista
que impressionem e imprimam
a alegria
que de inopino desbotaram
e insisto em recobrar
Que se faça a palavra
posto que desde muito
escalavra
no verbo, nos escritos
e no papel, o que não foi dito
Palavra: que a mentira
se faça falácia e o verbo
se faça flor
que transforme a forma
e transfigure a dor
em algo novo e belo,
prestes a desabrochar...
Que desabroche, então
em luz, música, poesia e cor,
verbo, forma, vida e amor...
1 113
O reflexo no espelho
Vazia, a cama espelha o peito daquele amante
que antes dançava em par, agora queda distante
e de dor se vestiu tão grave
Macia, a carne cálida do corpo nu de sua amada
que antes entretecida à sua, agora fez-se alada
e de amor se tornou entrave
Noite alta vaza a alma quase inválida, naquele instante
querela muda clama ávida a presença pálida de sua dama
é sua imagem este reflexo, naquele espelho sobre a cama?
ou mero eco, vago e oco, de estrela morta ainda brilhante?
Por hora o amante inquieto chora, o mínimo vestígio de seu amor
serão dela aqueles olhos, lendo Pessoa, refletidos na janela daquele vagão?
será sua aquela imagem rouca, que espelha louca as quimeras do coração?
incógnito o reflexo no espelho, do amante que tão grave, se vestiu de dor.
1 307
Esta mulher do assento à frente
Sentada no assento à frente
do meu,
neste cinema,
nesta sala de
espera,
nesta condução,
está uma mulher peculiar
Não é mesmo
bela,
nem é feia
Não é assim jovem,
nem é idosa
Não é minha
conhecida,
nem me é indiferente
esta mulher do assento à frente
De
perfil eu posso observar
seu queixo pontudo e saliente,
seu nariz adunco e
angular
Seus cabelos são de qualquer cor
exceto daquela que,
exatamente
ela permite mostrar
Frenético o trabalho de seus
lábios
insistentes a abrir e fechar...
Do que tanto fala à sua
companheira
ao lado, assim, sem parar...
Será que ela maldiz, fere ou
mente,
esta mulher do assento à frente?
Proferiria, leviana, o
infortúnio de seus
conhecidos, de desconhecidos, o meu?
Falaria da vida
íntima de sua família,
de seus amigos e parentes?
distribuiria
maledicências aos quatro
cantos, até quando não mais agüentar?
Ou pelo
contrário, estaria ensinando à amiga,
uma receita de sobremesa, de
simpatia
ou de chá...
Ensinaria lições de vida,
reconfortando,
aconselhando a esquecer o abalo e
seguir em
frente?
Pois que uma voz inaudita se aproxima e
proclama:
querido... são as aparências que mentem!
Estaria então,
diametralmente enganado
e viria de mim o mal
que vi refletido como
espelho
nos lábios inocentes
desta mulher do assento à frente...