Lista de Poemas

Esta mulher do assento à frente

Sentada no assento à frente

do meu,

neste cinema,

nesta sala de espera,

nesta condução,

está uma mulher peculiar



Não é mesmo bela,

nem é feia

Não é assim jovem,

nem é idosa

Não é minha conhecida,

nem me é indiferente

esta mulher do assento à frente



De perfil eu posso observar

seu queixo pontudo e saliente,

seu nariz adunco e angular



Seus cabelos são de qualquer cor

exceto daquela que, exatamente

ela permite mostrar



Frenético o trabalho de seus lábios

insistentes a abrir e fechar...

Do que tanto fala à sua companheira

ao lado, assim, sem parar...

Será que ela maldiz, fere ou mente,

esta mulher do assento à frente?



Proferiria, leviana, o infortúnio de seus

conhecidos, de desconhecidos, o meu?

Falaria da vida íntima de sua família,

de seus amigos e parentes?

distribuiria maledicências aos quatro

cantos, até quando não mais agüentar?



Ou pelo contrário, estaria ensinando à amiga,

uma receita de sobremesa, de simpatia

ou de chá...

Ensinaria lições de vida, reconfortando,

aconselhando a esquecer o abalo e

seguir em frente?



Pois que uma voz inaudita se aproxima e

proclama: querido... são as aparências que mentem!



Estaria então, diametralmente enganado

e viria de mim o mal

que vi refletido como espelho

nos lábios inocentes

desta mulher do assento à frente...
951

Os Lábaros que ostentas

Nós somos diferentes,

uma outra categoria

uma outra classe,

uma nova ordem,

abençoados filhos

de uma mesma mãe gentil,

deitados eternamente

ao som do mar e à luz

do céu,

dos candeeiros,

dos refletores,

nos campos, matas

e cidades,

em casas de sapê,

barracos de madeira,

mansões luxuosas ou

apartamentos elegantes,

abrigando tipos diversos

de sonhos e anseios



Quais os lábaros que ostentas

em suas janelas

abertas para o mundo?



O lábaro verde-louro estrelado

em dias de orgulhoso ufanismo

com os sucessos de nosso futebol

em que almejamos mais uma vitória,

mais uma estrela

que nos console e redima

e corrija a trajetória

de nosso destino



O lábaro alvíssimo da paz

em tempos de aflitiva ansiedade

em que insanos do oriente,

árabes, judeus,

coreanos do norte,

insistem em nos oferecer

a flor da destruição



O lábaro multicolorido da diversidade

em que a tolerância é proposta

como forma de convivência

em paz

inspirada nas cores do arco-íris



O lábaro verde da preservação ecológica

em que nossos lindos campos,

nossas flores, nossos bosques

perdem a vida

devido à exploração inescrupulosa

e ao interesse cúpido

de nossos vizinhos

por nossa Amazônia



O lábaro negro da indignação

em que hasteamos nossa vergonha

e nosso inconformismo

ante aos escárnios diários

que são jogados em nossa face



pela insegurança em que vivemos

devido à violência desenfreada

fomentada pelo descaso

de quem deveria nos proteger



pelas fraudes, negociatas,

torpezas, logros, falcatruas,

oferecidas pelos mesmos governantes

que elegemos na esperança

de colhermos respeito, trabalho

e uma vida melhor





Quais os lábaros que ostentas gigante,

pela própria natureza distante

dos filhos deste solo?



Hasteia ó pátria amada, todos eles:

o verde-louro, o branco ou o verde, se mereça,

o multicolorido ou o negro

para que a imagem do cruzeiro, um dia enfim, resplandeça!
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Ancoradouro

Ancoradouro perdido



num oceano de gotas de sonho



onde náufrago errante, venho aportar



noite escura e fria, deito em seu colo e repouso



e minha alma vaga, vadia...







Vento soprando sutilmente



entre as folhas em torrente, faz o outono embarcar



traz o inverno imponentes geleiras



pedras de(s)ilusão



cala(o)frio das paixões



que se apagam lentamente



e imperceptivelmente, não ardem mais...







Em seu abrigo me recolho



me aqueço, me esqueço



e mansamente, imaculadamente,



adormeço em seu cais...







Sete milhas navegante



atravesssando os sete mares,



em seu ancoradouro chegar...







Porto seguro, firme e tácito



delicado, doce pergunta: - quer aportar?







Navegante solitário,



seduzido, frágil, pergunto: - posso ficar?







Por um instante



ou talvez mais...
1 024

Pro dia morrer de amor

Eu vivo o inacessível

sinto o improvável

desejo o interditado

minto o inegável

deste amor

tão impossível

quanto

indispensável



E todas as vozes

diriam em uníssono

a verdade nua e crua:

impossível tentar

tamanha aventura,

tão intangível

quanto o amor do sol

pela lua



Ignoram pois, que há

uma determinada hora

em que ambos se encontram:

esvaindo-se no horizonte

em sangue e calor

o sol abraça a lua

e se deita,

enquanto ela, lânguida,

se levanta

pro dia morrer de amor...

939

O Sete

Se naveguei pelos sete mares,



te busquei lá no sétimo céu,



mergulhei as sete mil léguas,



para então descobrir :



depois do sete, o infinito...







Se perdoei setenta vezes sete,



te esperei amor, retornar



depois de sete dias,



para tanto eu paguei



com setenta e sete moedas



e uma de minhas sete vidas...







Pois tudo que começa



tem seu ciclo e finda



em sete horas, sete dias,



sete luas, sete meses,



sete anos, sete versos,



sete reses...







Dividi meu coração em sete pedaços



e os enterrei em sete cantos



para que um deles,



dentre tantos encontrasse a felicidade...







Dividi a minha casa em sete cômodos



e habitei cada um deles,



com meus temores e anseios,



para fugir da solidão...







Dividi o romance em sete capítulos



e fiz do girassol o meu bem-me-quer,



despetalei por fim quase todo o livro



e não encontrei em mim as palavras certas...







Dividi o amor em sete faces



tendo cada qual seu esfíngico enigma,



a interrogar-me...



então respondo:



devora-me, pois já não me decifro mais...
977

O codinome da flor

Eu sou um homem comum

perdido na trilha errante

de meus passos incertos,

situado estatisticamente

entre linhas e colunas,

entre "zeros" e "uns",

onde sou contado,

remanejado,

deletado,

onde sou mais um...

***

Não sei qual o volume do planeta

nem a vazão dos oceanos,

mas trago um alforje aberto

na altura do peito,

do tamanho do mar...

***

Eu sou um homem qualquer

rabisco palavras na areia

na esperança de que perdurem,

passeio por cárceres disfarçados

de abrigo, de ofício, de gente

e já não disto nem mesmo

o que é desejo indômito

ou vida inclemente,

nesta estrada sinuosa,

ora aclive,

ora declive

em que ora caminho...

***

Desconheço a lei das doze tábuas

e alguns dos dez mandamentos,

mas trago no bolso um verso que conta

o trágico efeito

da ausência de amar...

***

Eu sou um homem banal

e cultivo sementes de sonhos

num jardim suspenso em meu peito,

entre girassóis, gardênias e gerânios

semeio quimeras, colho esperanças,

sou jardineiro do fortuito

e do trivial

ontem plantei uma roseira,

hoje desabrochou:

em poesia abriu um botão

***

Não sei o nome da rosa

mas arrisco o codinome da flor:

cálido e impenetrável

um botão abriu neste jardim

e o chamei de amor...

***

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Brasileiro, casado, nascido no século passado, em Salvador, a cidade-luz, a baía de todos os santos, onde os portugueses primordialmente fincaram a sua cruz.   Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.   Escritor bissexto,  escreve regularmente entre solstícios e equinócios e guarda seu legado de escritos no blog:  HTTP://prosaeletronica.blogspot.com    Quem tiver olhos de ler e coração de sentir, visite e comente!   Confessadamente seguidor dos mestres brasileiros Quintana, Vinicius e Drummond, é entusiasta da literatura portuguesa, de Saramago, Eça de Queiroz e Pessoa.   Nas horas vagas, entre o exercício de suas atribuições profissionais e o prazer da escrita se dedica a obras assistenciais de caridade, seguindo o preceito de sua crença.