Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.
Brasileiro, casado, nascido no século passado, em Salvador, a cidade-luz, a baía de todos os santos, onde os portugueses primordialmente fincaram a sua cruz.
Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.
Escritor bissexto, escreve regularmente entre solstícios e equinócios e guarda seu legado de escritos no blog: HTTP://prosaeletronica.blogspot.com
Quem tiver olhos de ler e coração de sentir, visite e comente!
Confessadamente seguidor dos mestres brasileiros Quintana, Vinicius e Drummond, é entusiasta da literatura portuguesa, de Saramago, Eça de Queiroz e Pessoa.
Nas horas vagas, entre o exercício de suas atribuições profissionais e o prazer da escrita se dedica a obras assistenciais de caridade, seguindo o preceito de sua crença.
A ti não darei
nem mais um segundo
de meu tempo,
nem mais uma nesga
de minha alegria,
nem mais uma gota
de minha lágrima,
nem mínimo alqueire
de meu coração...
Acabou então, agora,
neste instante, e de há muito
só não havíamos notado
o cadáver em nossas mãos
para que velório, cerimônia
enterro, crematório
neste sepulcro hipócrita
denominado casamento,
simulacro de vida,
feto irrealizável,
corvo em meu ombro,
túmulo do amor
É chegado o momento
em que as duas pontas,
então entrelaçadas,
apertam o vazio,
sufocam o passado,
como cegos nós,
cada uma para diferentes lados
O que inexistia toma forma
e se torna insuportável:
o nojo, o enjôo,
o asco, recíproco e inexorável
escorrem pelas paredes e vísceras,
a culpa é multiplicada, nunca dividida
e somada por cada um,
computada ao outro
Quem deitou sementes de engano
em solo inadequado?
quem jogou sementes de mentira
em terreno arenoso?
Como fomos cegos nós, ao acreditar
que de semeadura desditosa
viríamos ao acaso colher amor...
1 014
Estesia
Que se faça a luz
posto que há muito
se traduz
o meu caminho por penumbra
e a minha vida por sombra
Luz: a que sucede ao
crepúsculo,
a que advêm de um
ósculo
a que de dor, tão intangível
me atinja,
me fira as vistas
e me faça enxergar
Que se faça a música
posto que há muito
uma rústica
balbúrdia retine inclemente
como uma grande torrente
Música: a que destoe tanto
quanto possível do barulho
vigente
que ressoe, e tão dissonante
me tanja,
me adivinhe o timbre,
e me faça ecoar
Que se façam as cores
posto que há muito
minhas dores
em preto-e-branco desbotado
pincelaram um painel entrecortado
Cores: que sejam tão policromáticas
quanto possível, numa tela
expressionista
que impressionem e imprimam
a alegria
que de inopino desbotaram
e insisto em recobrar
Que se faça a palavra
posto que desde muito
escalavra
no verbo, nos escritos
e no papel, o que não foi dito
Palavra: que a mentira
se faça falácia e o verbo
se faça flor
que transforme a forma
e transfigure a dor
em algo novo e belo,
prestes a desabrochar...
Que desabroche, então
em luz, música, poesia e cor,
verbo, forma, vida e amor...
1 113
Retrato da artista quando jovem
E as horas
dançavam altas, esguias,
com ritmo e maestria
e embaladas
pendiam do colo
da madrugada
E os desejos num frêmito,
e as
frustrações num vômito,
confundiam-se com as badaladas
trôpegas do relógio
na noite
desnudada
Eis a escuridão,
mãe de todos os
escondedouros,
que revela, numa centelha ínfima,
emolduradas de
luz,
duas órbitas enluaradas...
E os olhos,
oh, os
olhos!
irrompiam brilhantes, pérolas
castanhas e hipnóticas
a mirarem
com sofreguidão
- e decisão - para o futuro
E o futuro para a jovem de
vinte e um anos
é apenas mais um porto a apartar-se
em tênue embarcação de
ambições e sonhos
E o futuro para a artista tão menina
e tão mulher,
então será:
uma massa a ser moldada,
uma tela a ser preenchida,
uma
folha a ser escrita
uma vida a ser vivida !
Eis a face
caleidoscópica
que afirma-se serena nos contornos
singulares de seus
traços
retilíneos e angulares
emoldurada pela noite fechada
e selvagem
dos cabelos
E o sorriso inaudito
esconde contrito, a felicidade
exuberante
dos dentes, desejo e alegria latentes
franqueado aos diletos
mais chegados
e no semblante, a seriedade de
quem quer
gargalhar...
E os lábios de alvorecer
róseos e fartos,
abrem-se de
um jeito só seu
como quem beija ou faz uma prece,
para o dia
amanhecer
e a claridade da manhã
desvelada, revelar sua alva
tez...
E o seu corpo longilíneo não
precisa das palavras,
mas dos
demais sentidos:
audição, tato e paladar,
lábios, língua, braços,
unha
e o cálido encaixe
de outro coração junto a si...
Mas as
palavras, oh, as palavras!
As palavras, atropeladas
pela emoção e
embaralhadas
nas brumas da noite-manhã,
jazem enfileiradas, aprumadas no
papel
e calam embargadas e inertes
nos lábios do poeta...
(para Tamara Queiroz)
864
Battlefield
Não faças do amor um jogo
tuas torres serão tomadas,
teu cavalo destituído
e não há jogada magistral
que não peque
E mesmo que te esforces
antes que percebas
terás o teu coração em xeque
Não faças do amor ilusionismo
tua cartola estará rota
e teus lenços furados
e nenhum coelho salvador
te saltará
E por mais hábil que sejas
e mais recursos que lances
será o teu coração que desaparecerá
Não faças do amor um campo de batalha
os corpos estarão amontoados
e as vestes rasgadas
E ainda que uses da melhor tática
não haverá salvação
Sobrarão tua bandeira em farrapos
e vários pedaços destroçados
do teu derrotado coração.
1 008
Viver imperativo
Crê
Nem toda promessa é falta
Nem todo crime é pena
Nem toda dor mata...
Lê
Na pauta da areia fina
No olho desta tormenta serena
No espelho d'água da retina...
Sê
Para a montanha, o vulcão
Para o silêncio, o grito
Para o frio de Agosto, o verão...
Vê
Que a roleta permanece rodando
O músculo persevera hirto
E eu continuo voltando...
1 018
Esta mulher do assento à frente
Sentada no assento à frente
do meu,
neste cinema,
nesta sala de
espera,
nesta condução,
está uma mulher peculiar
Não é mesmo
bela,
nem é feia
Não é assim jovem,
nem é idosa
Não é minha
conhecida,
nem me é indiferente
esta mulher do assento à frente
De
perfil eu posso observar
seu queixo pontudo e saliente,
seu nariz adunco e
angular
Seus cabelos são de qualquer cor
exceto daquela que,
exatamente
ela permite mostrar
Frenético o trabalho de seus
lábios
insistentes a abrir e fechar...
Do que tanto fala à sua
companheira
ao lado, assim, sem parar...
Será que ela maldiz, fere ou
mente,
esta mulher do assento à frente?
Proferiria, leviana, o
infortúnio de seus
conhecidos, de desconhecidos, o meu?
Falaria da vida
íntima de sua família,
de seus amigos e parentes?
distribuiria
maledicências aos quatro
cantos, até quando não mais agüentar?
Ou pelo
contrário, estaria ensinando à amiga,
uma receita de sobremesa, de
simpatia
ou de chá...
Ensinaria lições de vida,
reconfortando,
aconselhando a esquecer o abalo e
seguir em
frente?
Pois que uma voz inaudita se aproxima e
proclama:
querido... são as aparências que mentem!
Estaria então,
diametralmente enganado
e viria de mim o mal
que vi refletido como
espelho
nos lábios inocentes
desta mulher do assento à frente...
971
O reflexo no espelho
Vazia, a cama espelha o peito daquele amante
que antes dançava em par, agora queda distante
e de dor se vestiu tão grave
Macia, a carne cálida do corpo nu de sua amada
que antes entretecida à sua, agora fez-se alada
e de amor se tornou entrave
Noite alta vaza a alma quase inválida, naquele instante
querela muda clama ávida a presença pálida de sua dama
é sua imagem este reflexo, naquele espelho sobre a cama?
ou mero eco, vago e oco, de estrela morta ainda brilhante?
Por hora o amante inquieto chora, o mínimo vestígio de seu amor
serão dela aqueles olhos, lendo Pessoa, refletidos na janela daquele vagão?
será sua aquela imagem rouca, que espelha louca as quimeras do coração?
incógnito o reflexo no espelho, do amante que tão grave, se vestiu de dor.