Adam_Flehr

Adam_Flehr

n. 1967 BR BR

Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.

n. 1967-04-28, Rio de Janeiro

Perfil
17 883 Visualizações

Viver imperativo

Crê

Nem toda promessa é falta

Nem todo crime é pena

Nem toda dor mata...





Na pauta da areia fina

No olho desta tormenta serena

No espelho d'água da retina...





Para a montanha, o vulcão

Para o silêncio, o grito

Para o frio de Agosto, o verão...





Que a roleta permanece rodando

O músculo persevera hirto

E eu continuo voltando...
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Biografia
Brasileiro, casado, nascido no século passado, em Salvador, a cidade-luz, a baía de todos os santos, onde os portugueses primordialmente fincaram a sua cruz.   Trazido há quase quatro décadas para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cresceu, estudou, graduou-se em Administração, apurou seu gosto pelas artes em geral, em especial por música e literatura.   Escritor bissexto,  escreve regularmente entre solstícios e equinócios e guarda seu legado de escritos no blog:  HTTP://prosaeletronica.blogspot.com    Quem tiver olhos de ler e coração de sentir, visite e comente!   Confessadamente seguidor dos mestres brasileiros Quintana, Vinicius e Drummond, é entusiasta da literatura portuguesa, de Saramago, Eça de Queiroz e Pessoa.   Nas horas vagas, entre o exercício de suas atribuições profissionais e o prazer da escrita se dedica a obras assistenciais de caridade, seguindo o preceito de sua crença.

Poemas

7

Cegos nós

A ti não darei

nem mais um segundo

de meu tempo,

nem mais uma nesga

de minha alegria,

nem mais uma gota

de minha lágrima,

nem mínimo alqueire

de meu coração...



Acabou então, agora,

neste instante, e de há muito

só não havíamos notado

o cadáver em nossas mãos



para que velório, cerimônia

enterro, crematório

neste sepulcro hipócrita

denominado casamento,



simulacro de vida,

feto irrealizável,

corvo em meu ombro,

túmulo do amor



É chegado o momento

em que as duas pontas,

então entrelaçadas,

apertam o vazio,

sufocam o passado,

como cegos nós,

cada uma para diferentes lados



O que inexistia toma forma

e se torna insuportável:

o nojo, o enjôo,

o asco, recíproco e inexorável



escorrem pelas paredes e vísceras,

a culpa é multiplicada, nunca dividida

e somada por cada um,

computada ao outro



Quem deitou sementes de engano

em solo inadequado?

quem jogou sementes de mentira

em terreno arenoso?

Como fomos cegos nós, ao acreditar

que de semeadura desditosa

viríamos ao acaso colher amor...
1 014

Estesia

Que se faça a luz

posto que há muito

se traduz

o meu caminho por penumbra

e a minha vida por sombra



Luz: a que sucede ao

crepúsculo,

a que advêm de um

ósculo

a que de dor, tão intangível

me atinja,

me fira as vistas

e me faça enxergar



Que se faça a música

posto que há muito

uma rústica

balbúrdia retine inclemente

como uma grande torrente



Música: a que destoe tanto

quanto possível do barulho

vigente

que ressoe, e tão dissonante

me tanja,

me adivinhe o timbre,

e me faça ecoar



Que se façam as cores

posto que há muito

minhas dores

em preto-e-branco desbotado

pincelaram um painel entrecortado



Cores: que sejam tão policromáticas

quanto possível, numa tela

expressionista

que impressionem e imprimam

a alegria

que de inopino desbotaram

e insisto em recobrar



Que se faça a palavra

posto que desde muito

escalavra

no verbo, nos escritos

e no papel, o que não foi dito



Palavra: que a mentira

se faça falácia e o verbo

se faça flor

que transforme a forma

e transfigure a dor

em algo novo e belo,

prestes a desabrochar...



Que desabroche, então

em luz, música, poesia e cor,

verbo, forma, vida e amor...

1 113

Retrato da artista quando jovem

E as horas

dançavam altas, esguias,

com ritmo e maestria

e embaladas

pendiam do colo

da madrugada



E os desejos num frêmito,

e as

frustrações num vômito,

confundiam-se com as badaladas

trôpegas do relógio

na noite

desnudada



Eis a escuridão,

mãe de todos os

escondedouros,

que revela, numa centelha ínfima,

emolduradas de

luz,

duas órbitas enluaradas...



E os olhos,

oh, os

olhos!

irrompiam brilhantes, pérolas

castanhas e hipnóticas

a mirarem

com sofreguidão

- e decisão - para o futuro



E o futuro para a jovem de

vinte e um anos

é apenas mais um porto a apartar-se

em tênue embarcação de

ambições e sonhos



E o futuro para a artista tão menina

e tão mulher,

então será:

uma massa a ser moldada,

uma tela a ser preenchida,

uma

folha a ser escrita

uma vida a ser vivida !



Eis a face

caleidoscópica

que afirma-se serena nos contornos

singulares de seus

traços

retilíneos e angulares

emoldurada pela noite fechada

e selvagem

dos cabelos



E o sorriso inaudito

esconde contrito, a felicidade

exuberante

dos dentes, desejo e alegria latentes

franqueado aos diletos

mais chegados

e no semblante, a seriedade de

quem quer

gargalhar...



E os lábios de alvorecer

róseos e fartos,

abrem-se de

um jeito só seu

como quem beija ou faz uma prece,

para o dia

amanhecer

e a claridade da manhã

desvelada, revelar sua alva

tez...



E o seu corpo longilíneo não

precisa das palavras,

mas dos

demais sentidos:

audição, tato e paladar,

lábios, língua, braços,

unha

e o cálido encaixe

de outro coração junto a si...





Mas as

palavras, oh, as palavras!



As palavras, atropeladas

pela emoção e

embaralhadas

nas brumas da noite-manhã,

jazem enfileiradas, aprumadas no

papel

e calam embargadas e inertes

nos lábios do poeta...



(para Tamara Queiroz)
864

Battlefield







Não faças do amor um jogo



tuas torres serão tomadas,



teu cavalo destituído



e não há jogada magistral



que não peque



E mesmo que te esforces



antes que percebas



terás o teu coração em xeque











Não faças do amor ilusionismo



tua cartola estará rota



e teus lenços furados



e nenhum coelho salvador



te saltará



E por mais hábil que sejas



e mais recursos que lances



será o teu coração que desaparecerá











Não faças do amor um campo de batalha



os corpos estarão amontoados



e as vestes rasgadas



E ainda que uses da melhor tática



não haverá salvação



Sobrarão tua bandeira em farrapos



e vários pedaços destroçados



do teu derrotado coração.











1 008

Viver imperativo

Crê

Nem toda promessa é falta

Nem todo crime é pena

Nem toda dor mata...





Na pauta da areia fina

No olho desta tormenta serena

No espelho d'água da retina...





Para a montanha, o vulcão

Para o silêncio, o grito

Para o frio de Agosto, o verão...





Que a roleta permanece rodando

O músculo persevera hirto

E eu continuo voltando...
1 018

Esta mulher do assento à frente

Sentada no assento à frente

do meu,

neste cinema,

nesta sala de espera,

nesta condução,

está uma mulher peculiar



Não é mesmo bela,

nem é feia

Não é assim jovem,

nem é idosa

Não é minha conhecida,

nem me é indiferente

esta mulher do assento à frente



De perfil eu posso observar

seu queixo pontudo e saliente,

seu nariz adunco e angular



Seus cabelos são de qualquer cor

exceto daquela que, exatamente

ela permite mostrar



Frenético o trabalho de seus lábios

insistentes a abrir e fechar...

Do que tanto fala à sua companheira

ao lado, assim, sem parar...

Será que ela maldiz, fere ou mente,

esta mulher do assento à frente?



Proferiria, leviana, o infortúnio de seus

conhecidos, de desconhecidos, o meu?

Falaria da vida íntima de sua família,

de seus amigos e parentes?

distribuiria maledicências aos quatro

cantos, até quando não mais agüentar?



Ou pelo contrário, estaria ensinando à amiga,

uma receita de sobremesa, de simpatia

ou de chá...

Ensinaria lições de vida, reconfortando,

aconselhando a esquecer o abalo e

seguir em frente?



Pois que uma voz inaudita se aproxima e

proclama: querido... são as aparências que mentem!



Estaria então, diametralmente enganado

e viria de mim o mal

que vi refletido como espelho

nos lábios inocentes

desta mulher do assento à frente...
971

O reflexo no espelho

Vazia, a cama espelha o peito daquele amante

que antes dançava em par, agora queda distante

e de dor se vestiu tão grave



Macia, a carne cálida do corpo nu de sua amada

que antes entretecida à sua, agora fez-se alada

e de amor se tornou entrave



Noite alta vaza a alma quase inválida, naquele instante

querela muda clama ávida a presença pálida de sua dama

é sua imagem este reflexo, naquele espelho sobre a cama?

ou mero eco, vago e oco, de estrela morta ainda brilhante?



Por hora o amante inquieto chora, o mínimo vestígio de seu amor

serão dela aqueles olhos, lendo Pessoa, refletidos na janela daquele vagão?

será sua aquela imagem rouca, que espelha louca as quimeras do coração?

incógnito o reflexo no espelho, do amante que tão grave, se vestiu de dor.

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