Quantas vezes fui mar bravio e pedra dura fingido herói buscando a força da floresta aquele que no verão resiste como a giesta no inverno se nega à força da sepultura.
Se fui terreno enlameado, porém não fui a traiçoeira e falsa areia movediça; e muito menos falsa ponte quebradiça sequer aquele que em falsas preces se dilui.
Sou a força do mar bravo; e do vulcão o fogo que aquece e que destrói. Sou e fui a força vertical quando devo dizer NÃO
e o quebrar - sem torcer - da força da razão. Jamais aquele que de ideias se prostitui! __ Assim fui e serei sem qualquer inflexão.
in O SERENO FLUIR DAS COISAS, 2018, In-Finita Lisboa antes publicado na Antologia Conexões Atlânticas II
Alvaro Giesta é nome literário, (Foz Côa, 1950). Escreve poesia, ficção e ensaio. É editor e coordenador literário. É membro do PEN Clube Português, Académico da ALA, em Portugal, Académico da ALTM, em Trás-os-Montes, sócio da Associação Portuguesa de Escritores e sócio do CEMD (Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora). Viveu em Angola entre duas guerras – a colonial e a civil – entre 61 e 75. Autodidata, por definição, é a partir do ano 2000 que desenvolve uma maior actividade literária em vários sítios da internet. Premiado em 2018 com o prémio de poesia Manuel Neto dos Santos, com o original da obra poética HÚMUS. Tem obras traduzidas em castelhano, galego, chileno e romeno.
– Livros publicados: 12 de poesia e 1 de contos; – Livros a publicar PASCOAES e a SAUDADE, ensaio.
– Coautor em mais de 40 antologias de poesia e conto em Portugal, Brasil e Roménia.
– Concebeu e fundou em 2013 a revista literária impressa A Chama de que foi editor e director até 2015. Concebeu sob a égide desta revista, a Colectânea Literária de Autores IDEÁRIOS que coordenou e editou, no seu 1.º número com 29 autores, publicada em 2019.
– Colaboração Literária e Jornalística independente em vários jornais e revistas literárias, no país e no estrangeiro, em poesia, ensaio e narrativa, nomeadamente na BIRD, revista literária online nascida sob a égide da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde durante 2 anos escreveu uma coluna semanal sobre ensaio e crónica.
Na floresta do Sonho a noite em vão... Assim tal me vagueia o pensamento, entre o Ser e o Querer e a Ilusão entre o transcendental e o esquecimento.
Cai a noite. Consigo adormecer o meu estro na tua paz protectora. Neste livro abstracto do meu Ser, impassível folheio o qu' era outrora.
A minh' alma de desejos me crescia batalhando por mil regiões austeras; Visionário o meu estro se erguia por entre a fulgidez de mil quimeras.
Muito mais te valera oh! coração não bateres do que teres sonhado em vão.
Soneto inglês "decassíabo" em "Martelo" com as tónicas nas posições 3, 6 e 10
746
da MORTE, cantata em odes mínimas
4.
Alimenta o teu ventre, esse amor que há tanto dura pelo meu ser, faminto e doentio. Sim, tu, oh Morte que tão demasiados anos da minha vida trouxeste o teu dentro arredado e fugidio.
Hás-me urdir nesse denso e frígido amor em tempo teu, sobre mim a tua teia. O tempo virá em que à tua se há de unir a minha carne ___ vida da tua vida.
Como a trovoada que sobre a terra áspera e dura, derrama o cíclico raio quando nunca chove e o rochedo seca e abre brechas em sua cíclica textura, assim escorra tardiamente sobre mim e a minha vida, o teu amor pela minha sorte,
___ e tarde o tempo em fazer da tua vida a minha morte.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, Coimbra 2018
706
da MORTE, cantata em odes mínimas
3.
O meu tempo agora é teu... e há muito dura! Ama-me com a fome que tens de mim em fazer da minha carne - ânsia que te consome - o teu leite prometido, a tua carnadura ___ o diamante puro para o teu altar.
Já não me atormenta o teu nome! Porque tu, Morte, és a Vida-semente da minha vida amor que em ti se prolonga indefinidamente.
Escurecem os teus olhos que por mim brilham por alimentar o teu ventre esfaimado, de mim sequioso e tardio quando por fim descer à terra escura.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
693
da MORTE, cantata em odes mínimas
2.
Desafio-te: ___ vem, hoje, sereníssima e negra antes que seja tarde; vem, sem medo, amantíssima vem não sejas cobarde... desafio-te, oh Morte, antes que sejas tu, nesse beijo frio que tanto desejas, a impores-me a minha própria sorte ___ vem, nesta hora.
Aqui de mim, para ti, firmo a minha escritura: ___ assim te imponho eu, agora que venhas serena mas rudemente te quero e ao mesmo tempo austera, nesta agonia ácida, escura e amargamente terrena.
Assim te desafio - vem, não esperes pelo abraço final que nos há de selar a sepultura.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
689
da MORTE, cantata em odes mínimas
I
Apoderas-te do meu ser, quando? Agora? Quando unirás a tua boca à minha, ___ à boca dum poeta, nesse estreito laço?
Que vontade calada de te unires a mim tens tu, amantíssima Morte, que por mim esperando em silêncio, vens minando o meu corpo que junto ao teu repousará um dia nesse longo e apertado-abraço!
Oh! como almejas o teu corpo colado ao meu debaixo daquela pedra fria, onde a tua fome de mim em fogo arde.
in OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, 2018
703
da MORTE, cantata em odes mínimas
Com estes versos quebrados propositadamente para romper com uma leitura da literatura tradicional - que bem poderiam ser heróicos elevando, se tal fossem, o poema a um lugar sublime e astral -, a mostrar o carácter transgressor e libertador da escrita, neste imaginário poético, enquanto poeta irreverente e contrário a certa linha poética que, sem desvios, canta quase invariavelmente o mesmo motivo e sob uma única variável, permito-me versar temas que, por aquilo que perturbam, são, pela maioria dos poetas, evitados. Assim, ouso tratar, também, o amor no percurso Vida-Morte - uma linha dialéctica já publicada, antes, na minha obra "O Retorno ao Princípio" - no sentido de fazer dele o elemento aglutinador de duas forças opostas, mas que se completam, dando-se continuidade uma à outra. Dessacralizando aquela que causa tanto pavor - a Morte - para que ela vá perdendo o horror que inspira, a versei nestas odes mínimas de que aqui fica o embrião de possível obra a editar. Busco compreender a morte no entendimento que em primeiro lugar faço da vida, quando encaro com apreensão e preocupado esta sociedade de alienação, dominada pela obsessão do prazer e do dinheiro, uma sociedade do não sujeito e da violência, uma sociedade rumo ao vazio onde a morte a persegue e em muitos casos a domina, transformando-a, nesta via de pensamento, numa quase não sociedade.
Texto e poemas seguintes publicados a pag. 9 a 13, em "OPUS - selecta de poesia em Língua Portuguesa", Temas Originais, 2018, Coimbra ISBN 978-989-688-294-5
429
TRAÇOS DA MINHA POÉTICA
O filósofo francês Jean-Luc Nancy, no ensaio "Resistência da Poesia", dizia que a poesia tem esta qualidade: - não aceita ser circunscrita a um género de discurso. As palavras dele são estas: "Poesia, é fazer tudo falar". Sou absolutamente de acordo - a poesia é transversal a todas as artes, a todos os comportamentos e gestos quotidianos, e só isso explica a sua resistência. Quando tal deixar de acontecer, quando a poesia verter a sua nobre acção apenas sobre um conceito específico, ela deixa de ser - morre. Porque, poesia é a arte mais nobre da escrita. O poema, como Eduardo Lourenço nos diz, representará "um lugar de luta", ele será sempre, como nos refere Maria Irene Ramalho uma "reflexão sobre as possibilidades e os limites da linguagem. A poesia é a ausência sem fronteiras com a presença - ela é a sede e o excesso, o silêncio e o fulgor, o êxtase e o desencanto, o amor e o ódio. A poesia não se centra, apenas, num único vértice - ela é o amor pela palavra, pelas coisas, pelo ser, pelo todo. O caminho da poesia neste tempo da interrogação, neste tempo desabitado, é o lugar da ausência e do desassossego, da inquietação e da procura, da descrença e da tentativa de resposta, do medo e da revolta - conceitos hoje muito esquecidos pelos poetas que só cantam um único objecto poético: o amor pelo feminino, quiçá o mais fácil de se dar à palavra poética. O poeta José Tolentino de Mendonça, teólogo e grande humanista, adverte-nos para esta poesia da ausência na poesia de hoje - o vazio de Deus e dos Homens. Muitas vezes pedem-me um poema significativo da minha poesia - coisa impossível de demonstrar, porque a minha poesia debruça-se, também, sobre estes temas do desassossego. Já muitos terão reparado - se ela é, por um lado, a força irradiante e clara da palavra, pelo outro é, também, a turbulência das águas, causada pelas irregularidades do leito, a lâmina da navalha que rasga as sombras, mas também a força da raíz que penetra no solo e se enraíza firme entre as pedras. A minha poesia é isto: o poder da palavra. E o que é a poesia senão "o poder de se transcender, de se negar e se afirmar através da negação", como nos diz Ramos Rosa em "Poesia, Liberdade Livre".
414
UM MUNDO IMAGINÁRIO
"pede-se a uma criança que desenhe" outra criança, daquelas com quem brinca no recreio às guerras inventadas, sem vitórias nem derrotas;
"dá-se-lhe um lápis e um papel" branco, todo feito de pureza...
a medo traça as primeiras linhas subtis, mal definidas de traços imprecisos:
___um círculo grande, o seu mundo imaginário de criança.
depois, pede-se-lhe que desenhe os olhos, e a criança desenha no seu mundo imaginário outros dois mundos mais pequenos;
os mundos que distribui por todas as crianças deste mundo. são os olhos com que vê o seu mundo pelos olhos das outras crianças como ela.
depois, pede-se que desenhe os braços: ___abertos os desenha.
assim, os braços são o seu mundo que abarca inteiro os outros mundos no abraço dos seus braços abertos de esperança.
e desenha, por fim, as mãos, ___as mãos cheias de sonhos os seus sonhos de criança.
___________ (reservados todos os direitos autorais nos termos da lei) autor do desenho: Henrique Reis Carrilho (o meu neto de quase 4 anos Nota: entre "comas" as palavras de Almada Negreiros
429
ESTRATOS
(I) pouco me pertenço já
sou como o verso é: a epiderme da alma ou a teia que a noite tece e enleia e nunca se acalma
(II) visto-me da necessidade de dar à mão a força precisa e ao cinzel o saber para talhar na robustez da velha pedra o sol em busca da sua religiosidade
vivo este teimoso querer entre mim e mim e aquilo que quero ser
a nítida refrega em que respiro: a da mão inquieta que não descansa insatisfeita
(III) em constante perseguição o cinzel labora a pedra para da sua face oculta ao rosto o corpo dar ___doar à luz o ser é a virtude da palavra que na sombra o tempo oculta
tal flor antes de abrir ao sol: em botão esconde o belo no aconchego das pétalas como a concha acolhe no seu interior a melodia da voz do mar
[ESTRATOS] é nome de possível obra
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Onde a VIDA urge, a MORTE está! (extractos)
"Onde a VIDA urge, a MORTE está!"
poema 14. perco-me cada dia num patamar finito onde a finitude é infinita.
atravesso este chão que piso como a árvore atravessa o ciclo da vida, e o sol no seu eterno queimar se aproxima da noite fria para se fazer de novo dia.
poema 15. o pó das coisas aquieta-se, afunda-se e morre tão escuramente dentro do meu ser que se arrasta como verme para a cova escura donde vai outra vez nascer.
poema 16. a dormir ou acordados debaixo das mesmas fragas e cruzando o mesmo céu, por teimosia vivemos respirando afogados no fundo das mesmas águas.
juntos, como as aves em dias tardios de invernia, partimos como duas naves cruzando infinitos céus em busca de outro paraíso e de outro deus.
poema 17. demora-te, tarda em vir sobre mim nessa última hora.
antes de me levares contigo demora... percorre-me no teu eterno percorrer demora sobre mim teu halo, conhece por dentro este ser terreno antes do eterno me dares a saber.
poema 18. tu e eu somos duas partes da mesma parte deste ser,
eu, enquanto VIDA amada e sofrida, tanta vez calada quantas vezes neste mundo injusto que até me assusto quando penso em ti, MORTE que um dia me vais lamber de alto a baixo como o cão que lambe o dono por amor e o deixa depois ao abandono e à sua sorte.
poema 19. VIDA, que foste amada, vivida quantas vezes maltratada te maltrataste...
até te tornaste torpe!
foste esquiva, indesejada vilipendiaste, quantas vezes até mataste!...
...que agora dás por bem vinda a MORTE.
___________ Alvaro Giesta in O Retorno ao Princípio (numa dialéctica Vida-Morte), Calçada das Letras, 2014 - 66 poemas - 94 páginas ISBN: 978-989-8352-51-4 Depósito Legal: 376447/14 Preço 10,00 € A obra pode ser comprada pela net na WOOK (livraria online da Porto Editora), com desconto de 10% em cartão.