Lista de Poemas

EM JEITO DE AUTORETRATO


Quantas vezes fui mar bravio e pedra dura
fingido herói buscando a força da floresta
aquele que no verão resiste como a giesta
no inverno se nega à força da sepultura.

Se fui terreno enlameado, porém não fui
a traiçoeira e falsa areia movediça;
e muito menos falsa ponte quebradiça
sequer aquele que em falsas preces se dilui.

Sou a força do mar bravo; e do vulcão
o fogo que aquece e que destrói. Sou e fui
a força vertical quando devo dizer NÃO

e o quebrar - sem torcer - da força da razão.
Jamais aquele que de ideias se prostitui!
__ Assim fui e serei sem qualquer inflexão.

in O SERENO FLUIR DAS COISAS, 2018, In-Finita Lisboa
antes publicado na Antologia Conexões Atlânticas II
924

Grito: de ti, Mulher me vem o fogo

(do poema) “Grito: de ti, Mulher me vem o fogo” em (dois ciclos para um poema)
no intertexto com Herberto

III

Rompesse de mim o gesto da minha loucura;
despertasse eu do frio ventre das frias glicínias floridas
fecundadas pelo viço dos virgens seios;
adivinhasse eu a sede e o sangue, como os dedos
inventam a fome e o fogo quando discorrem sobre
o significado das palavras;
matasse eu a fome da boca quando confecciona o grito
que foge ao medo;
entendesse eu o latejar do peito quando as trevas
atormentam o cérebro que cega de ira a visão,
assim desceria tão rápido
como o relâmpago maligno desce com suas garras
tentaculares sobre os nus campos,
para destruir as teias todas que envenenaram a única
coisa que era nossa ― a forma do verbo amar.
481

MÁSCARAS DO POETA FRAGMENTADO


Sob a lei da máscara,
da ambiguidade de todas as tuas máscaras imprecisas,
te escrevo. Viúvo de ti mesmo, detrás delas revelas-te
sem nunca te revelares. Mesmo quando detrás delas
te queres o outro de muitos outros,
e sem elas te desejas confundir com o herói homérico.
Invoco-te:
ó dividido, ó sem nome, ó viúvo de ti mesmo,
ó irrevelado de muitos nomes inventados.
Ó navegante perdido no sonho do mar indefinido
e profundo. Mar desconhecido onde sonhaste o sonho
persistente e breve ─ no poema erguer a Pátria.
Invoco o teu nome grande e tormentoso
no instante em que sendo, deixaste de ser.
Navegaste no teu navio sem quilha e sem bússola
de mareante. Navegaste como se nunca tivesses
deixado este cais sem cais ─ o cais da tua ausência
e solidão. Do tamanho do que sonhaste te fizeste
Nome Maior.
________
Alvaro Giesta
in Dois Ciclos para um Poema
(o ciclo 1, é a 1.ª parte da obra dedicada a Fernando Pessoa; o ciclo 2 é a 2.ª parte da obra dedicada a Herberto Helder)
488

caminhamos alienados

«Caminhamos alienados, abandonando esquecidos
restos do que fomos» [1] nesta engrenagem chamada vida.
Somos um corpo de batalha onde se enfrentam múltiplos
adversários ─ todos saídos de cada eu que somos.
Todos iguais, todos fraternos, todos frente a frente
combatendo-se. Neste puro acto de viver,
quantas vezes se bloqueia o caminho antes de se percorrer
e somos nele a pedra onde tropeçamos.
Há fugazes instantes onde se captam fugazes iluminações;
Luminosidades que estilhaçam o ininterrupto tempo
onde se leem as vagas de todas as marés.
Caminho amputado de vaga esperança nesta loucura
insubmissa e cantante que nem sempre é
a melodia da vida. Cru e gelado é este campo de batalha
onde o estranho eu que somos nos combate
nesta condição que o destino nos impôs:
─ sermos de nós mesmos o eterno desconhecido.
______________
Alvaro Giesta
(desta gaveta de sombras)
[1] Afonso Valente Batista in "A Voz das Pedras"
471

[dois quartos onde a poesia do silêncio mora]


um quarto solitário — a cela de daniel faria, onde apenas
a luz entra quando cerrada é a noite. nem sol habita este
espaço em volta. o silêncio, como paz tardia, comunga
com o sonho: nele bebe a vida que caminha de braço dado
com a solidão. a morte, à espera de vez, habita esta cela por
dentro. nela, o homem no seu corpo naufragado anoitece.
um quarto onde reside a sombra — nele existe um corpo
sob a carapaça dum besouro, absoluto imaginário
do ser inquieto. inquietos mas sábios são os homens
que buscam na sombra e na pedra bruta o poder da água
e o sal da sabedoria. absurdo é, em redor deste corpo,
o absurdo grito que desce afoito até aos sãos ouvidos.
todo o corpo contra ele se põe em guarda, furtando-se
ao bater regular do tempo. assim era kafka em gregor:
— deitado de costas sobre o soalho frio e ao alto o alvo
tecto, simulacro da paz e da libertação; nele via o pão
ázimo como alimento na difícil transformação dos dias.
______________
Alvaro Giesta
(noite deserdada)
459

da MORTE, cantata em odes mínimas

2.

Desafio-te:
            ___ vem, hoje, sereníssima e negra
antes que seja tarde; vem, sem medo,
amantíssima vem não sejas cobarde...
            desafio-te, oh Morte, antes que sejas tu,
nesse beijo frio que tanto desejas, a impores-me
a minha própria sorte ___ vem, nesta hora.

Aqui de mim, para ti, firmo a minha escritura:
            ___ assim te imponho eu, agora
que venhas serena mas rudemente te quero
e ao mesmo tempo austera, nesta agonia
ácida, escura e amargamente terrena.

            Assim te desafio - vem, não esperes
pelo abraço final que nos há de selar a sepultura.

OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
675

TRANSCENDÊNCIAS


Na floresta do Sonho a noite em vão...
Assim tal me vagueia o pensamento,
entre o Ser e o Querer e a Ilusão
entre o transcendental e o esquecimento.

Cai a noite. Consigo adormecer
o meu estro na tua paz protectora.
Neste livro abstracto do meu Ser,
impassível folheio o qu' era outrora.

A minh' alma de desejos me crescia
batalhando por mil regiões austeras;
Visionário o meu estro se erguia
por entre a fulgidez de mil quimeras.

Muito mais te valera oh! coração
não bateres do que teres sonhado em vão.


Soneto inglês
"decassíabo" em "Martelo" com as tónicas nas posições 3, 6 e 10
732

da MORTE, cantata em odes mínimas


4.

Alimenta o teu ventre, esse amor que há tanto dura
pelo meu ser, faminto e doentio. Sim, tu, oh Morte
que tão demasiados anos da minha vida
trouxeste o teu dentro arredado e fugidio.
 
Hás-me urdir nesse denso e frígido amor
em tempo teu, sobre mim a tua teia.
O tempo virá em que à tua se há de unir
a minha carne ___ vida da tua vida.

Como a trovoada que sobre a terra áspera
e dura, derrama o cíclico raio quando nunca chove
e o rochedo seca e abre brechas em sua cíclica
textura, assim escorra tardiamente sobre mim
e a minha vida, o teu amor pela minha sorte,

           ___ e tarde o tempo
em fazer da tua vida a minha morte.

OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, Coimbra 2018
694

da MORTE, cantata em odes mínimas

I

Apoderas-te do meu ser, quando? Agora?
Quando unirás a tua boca à minha,
            ___ à boca dum poeta, nesse estreito laço?

Que vontade calada de te unires a mim tens
tu, amantíssima Morte, que por mim
esperando em silêncio, vens minando o meu
corpo que junto ao teu repousará um dia
nesse longo e apertado-abraço!
 
Oh! como almejas o teu corpo colado ao meu 
debaixo daquela pedra fria, onde
a tua fome de mim em fogo arde.

in OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, 2018
692

da MORTE, cantata em odes mínimas

3.

O meu tempo agora é teu... e há muito dura!
            Ama-me com a fome que tens de mim
em fazer da minha carne - ânsia que te consome -
o teu leite prometido, a tua carnadura
            ___ o diamante puro para o teu altar.

            Já não me atormenta o teu nome!
Porque tu, Morte, és a Vida-semente da minha vida
amor que em ti se prolonga indefinidamente.

Escurecem os teus olhos que por mim brilham
por alimentar o teu ventre esfaimado,
            de mim sequioso e tardio
quando por fim descer à terra escura.


OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
681

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Alvaro Giesta é nome literário, (Foz Côa, 1950). Escreve poesia, ficção e ensaio. É editor e coordenador literário. É membro do PEN Clube Português, Académico da ALA, em Portugal, Académico da ALTM, em Trás-os-Montes, sócio da Associação Portuguesa de Escritores e sócio do CEMD (Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora). Viveu em Angola entre duas guerras – a colonial e a civil – entre 61 e 75. Autodidata, por definição, é a partir do ano 2000 que desenvolve uma maior actividade literária em vários sítios da internet. Premiado em 2018 com o prémio de poesia Manuel Neto dos Santos, com o original da obra poética HÚMUS. Tem obras traduzidas em castelhano, galego, chileno e romeno. – Livros publicados: 12 de poesia e 1 de contos; – Livros a publicar PASCOAES e a SAUDADE, ensaio. – Coautor em mais de 40 antologias de poesia e conto em Portugal, Brasil e Roménia. – Concebeu e fundou em 2013 a revista literária impressa A Chama de que foi editor e director até 2015. Concebeu sob a égide desta revista, a Colectânea Literária de Autores IDEÁRIOS que coordenou e editou, no seu 1.º número com 29 autores, publicada em 2019. – Colaboração Literária e Jornalística independente em vários jornais e revistas literárias, no país e no estrangeiro, em poesia, ensaio e narrativa, nomeadamente na BIRD, revista literária online nascida sob a égide da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde durante 2 anos escreveu uma coluna semanal sobre ensaio e crónica.