Lista de Poemas

LOGOS

Tu, que em mim reinas sem te ver e sem me veres
que me persegues, te pressinto todo em mim,
que em mim és e serás - princípio, meio e fim -
e mesmo que em mim não te queira tu me queres.

Tu, como serás? De ti sou sem prometeres
afectos, mesmo sem eles te quero assim!
Estranho ser eu sou pois tão denso és em mim!
Sou teu escravo sem de ti colher mereceres.

Serás tu ser ou sequer és estados de alma
que arrebatam a toda a força este meu ser?
Talvez sejam só ilusões na minha ideia

o teu estado - princípio, meio e fim - lua cheia
que paira em mim, sequer de ti nada saber
se és tormento, se és doce enlevo que a alma acalma.

in O Sereno Fluir das Coisas, 2018, In-Finita Lisboa
1 023

HÚMUS (extractos)

Erguem-se
da sábia fluidez morna do húmus,
os braços das árvores harmoniosas
que escrevem no espaço do silêncio
profundo da terra
a força do rumo e do caminho

Raízes de solidez desbravam das pedras
silenciosas e humildes

e correm sobre a página em branco
onde se firmam em colina
com a força do fogo e da água

A tempestade nasce
no vazio da página e do silêncio,

a palavra rompe e ganha o próprio corpo
que esplende o seu nascer
na dança da luz e do ar

HÚMUS (prémio literário de poesia Manuel Neto dos Santos, 4.ª edição, 2018)
796

HÚMUS (poema I)

eis o sol do poeta:
___ o seu sol é esta concavidade azul
em que se abriga e se aquece
no percurso sinuoso do fascínio das palavras

é todo este espaço do horizonte
é o incêndio das imagens
é o corpo que repousa no vazio e dele cria
a própria forma
no tempo do irreversível silêncio das nascentes

é toda a liberdade dos espelhos
sem véus nem sombras ___ é esta lonjura azul
onde a inquieta voz rompe o silêncio
com flores de sonho e segredos nupciais

é o amanhecer
com palavras de verdade e de esperança
___ todo este sol que o anima
é quante basta ao poeta para respirar
e nada mais

 HÚMUS (prémio literário de poesia Manuel Neto dos Santos, 4.ª edição, 2018)
878

O CORPO (extractos)

o corpo, manhã erguida
(como se fosse o Ponto de Bauhüte) [i]


1.
nu branco e negro
jaz
em círculo enrolado sobre
a luminosidade luminosa do lençol
      ___o corpo
2.
circunscrito
na concha que se forma ao centro
      ___o nascimento
3.
nele o ponto negro interacciona-se
com o quadrado luminoso do lençol
      ___assim é o corpo como ponto de bauhüte
4.
três vértices na mancha negra
      ___o triângulo e o seu ponto interior -
no centro grita o fogo a chamar
sobre o corpo enrolado
5.
grita na pele o sexo  ___a mancha negra
em união com a geometria
do triângulo
6.
na pele a febre oculta bebe o ar
no corte vertical fechado em concha
que se há-de abrir entre as coxas do poema
 7.
quando os lábios
na sede de se darem se entregam
ergue-se o gesto que faz a poesia do corpo novo
neste sempre corpo branco e negro
em círculo enrolado na macieza luminosa do lençol
8.
no corpo a rasgar-se a concha
fechada ao centro no triângulo negro
para o mistério do nascimento
o sempre mistério do corpo feminino
e imaculado anunciando a renovação
9.
o interior oculto do triângulo
onde o mel da terra se cria e se dá
no fogo do vinho e da água
e da rosa vermelho-sangue
      ___altíssima perfeição
10.
no oculto interior o mel se derrama e o sol
como quinta essência se dá ao ósculo
      ___o ponto de fuga e união perfeita do triângulo
do corpo enrolado em círculo

in O Sereno Fluir das Coisas, 2018, In-Finita, Lisboa
(aqui adaptado)
803

colhia urtigas bravas na orla dos caminhos

colhia urtigas bravas na orla dos caminhos
quando a sombra se vergava à tarde tórrida.
os olhos resplendeciam na fonte onde o peregrino
dobrava o joelho em terra para da água límpida beber
a eternidade ― no céu colhia o “pó das estrelas”
que georg trakl plantou no seu poema. veio a noite
e as mãos inchadas do peregrino ― não do cáustico
fervor das urtigas bravas. mas da fome que tinham
de escrever as agruras no poema ― erguiam-se
sonâmbulas pedindo ao calor da terra fria e funda
o remédio para a dor da solidão.
a mão inclemente e redentora devorava as folhas
da sebenta e plantava na cor cinzenta do papel
fragmentos de silêncio _____esse animal inominável
a quem o peregrino devia o mistério das palavras
que cresciam no âmago do poema_____

Desta Gaveta de Sombras (caderno 2: Para a teoria do tempo e da descrença)
125

[carta a um caminhante sem nome e sem destino]


hoje escrevo-te esta carta numa hora de inquietude
e solidão. com uma caneta que deixa na tinta
bem vincada, a vontade expressa de acordar-te.
é tempo de firmares os pés no chão
e de voltares à casa — à casa de onde a revolta
te expulsou. a força das mágoas fustiga-te a memória.
a memória que te dilacera na intemporalidade
de um silêncio cobarde. que te rasga a carne e dilacera
os ossos. viagem atribulada que te roubou o canto
e feriu o sonho por cumprir. hão-de acordar-te
os mistérios da esperança que tens em chama no olhar.
deixa que um resíduo de força se insinue na tua vontade;
te leve nas asas do tempo, como quando um resíduo
de vento se insinua por entre os ramos da árvore e leva
com ele as folhas soltas e leves nas asas da liberdade.
_______________
AG © "manuscrito" desta gaveta de sombras (caderno 2. da teoria do sonho e do silêncio)
219

Consagração do corpo feminino: a Mãe

Consagração do corpo feminino: a Mãe [1]

 I
A mãe caminha firme,
contornando os precipícios abertos à beira do abismo.
Segura-se tantas vezes tão só ao bordão firme
da coragem. Se tropeça nas franjas da vida,
segura-se sem cair à tenaz força da vontade;
porque “ela é a fonte, e a fonte é precisa”.
Quando seca esta fonte, a vontade se estiola,
mas a força luminosa da mãe que reside no infinito
dos tempos, regressa e renova todo o princípio
devolvendo-lhe a força da luz.

Irmana da mãe a busca do absoluto:
– “de ti me fizeste e a ti regressarei”.
No altar da vida, como em Cristo, a mãe é a mudança
da substância do pão e do vinho, no próprio corpo.
A mãe é o odre que sustenta a sede e o prazer,
o maná, o milagre no deserto que alimenta
na dureza da longa travessia até à terra prometida.
A mãe, ungida, substancialmente pura,
é o elixir necessário à invenção da noite clara.

II
Ergue-se devagar, como uma farol na noite escura
a indicar o caminho;
é o fio exímio que traz a leitura da casa em pé.
Como mãe, é a fonte essencial; reforça a dádiva
que recebeu de Deus para manter o fogo aceso:
– o fogo da comunhão da casa.

Do excesso das suas entranhas sai,
“segundo as redacções de Deus”
o mais “extremo exercício de beleza “– o filho.
Se o filho lhe perguntar como resiste ao tempo
e às maldições que o tempo impõe, a mãe responderá:
– que a culpa é da comunhão dos seus corpos
unidos numa só língua.

III
As crianças, à sombra do regaço da mãe,
cantam harmonias como se fossem salmos,
pelos corredores desconhecidos do tempo.
Crescem com a mãe como se ela fosse o tempo,
como se ela fosse as flores que nunca morrem,
porque as flores “se deitam sobre o chão,
se afundam na terra e depois renascem.”

Para as crianças, a mãe existe sempre
que a felicidade a canta.
E as crianças que crescem “como candeias sem vento”,
como o sol crescente que traz a magia na luz,
iluminam a casa por dentro; erguem-na
com alegres chilreios mesmo quando a fome levita,
porque sabem que a mãe ilumina a casa quando
senta o amor à cabeceira da mesa. E as crianças
cantam harmonias como se fossem salmos,
pelos corredores desconhecidos do tempo.

IV
Iluminada por dentro,
mesmo na noite em que a escuridão é mais densa,
a mãe é claramente luminosa e intransformável.
Ela ensina ao homem que nem sempre os dias vivem
das noites que se menstruam de amor. Que se deve dar
– luminosa e intransformável sempre –
ao puro acto da criação.

Mas o sangue passa pelas têmporas dos homens
em movimento constantemente acelerado,
e como sonâmbulo instrumento que se manuseia
sem pensar, assim o homem, sem olhos palpitantes,
pensa na mulher – apenas a pensa
com as ondas impulsionadoras do sexo.

V
A mãe é intransformável,
porque o amor lhe dilata em permanência o peito.
E dentro dele, o órgão cresce
como a gazela em correria feliz pela savana,
para celebrar a sua entrega ao homem
no puro acto do amor; o amor excelso
que ultrapassa o tempo e se abriga no sonho:
– o da eternidade inteira
que abre memórias na líquida atmosfera,
da perene exaltação do corpo feminino.

Para as crianças a mulher existe sempre
que a felicidade a canta; para os homens sonâmbulos,
a mulher existe apenas para os servir
entre o intervalo da vida e da morte.
Porque os homens sonâmbulos “dormem loucamente
na imensidão dos dias”; e adormecidos, seguem cegos
na cegueira de não quererem ver, porque sabem que
não seca a fonte, da silenciosa pureza do ventre.
__________
[1] com passagens "entre parentesis": “Sobre a vida contemplativa feminina”, Papa Francisco; Cáh Morandi, poetisa e Herberto Helder, poeta
______
in IDEÁRIOS 2, Colectânea  de Poesia (temática: A MULHER no infinito dos tempos), 2020
com 24 autores, coordenada e editado pelo autor do porme: ALVARO GIESTA
136

variações sobre um corpo

Eras meia laranja saboreada a rigor
uma colher de mel doirado
que se estirava de prazer
- o orvalho, o arbusto no olhar, a flecha
a amêndoa amarga e doce, a noite, o amanhecer.
A minha mão na tua eram uma só.
Abrias o mar com o teu gesto
- mais que o mar, a vida -
esquecia a minha boca na tua
e nossas línguas procuravam-se desvairadas.
A minha boca sequiosa -ah! cósmica doidice,
sorvia a superfície do mar
e entre dois orgasmos inventava outra origem,
[maneira linda de fazer amor].
A teia das nossas mãos ácidas e ávidas
passeava luminosamente os nossos corpos
cansados lassos lentos húmidos
e lá fora a chuva tamborilava no telhado de zinco
húmida rugosa assustadoramente social.

do livro: variações sobre um corpo
138

UM MUNDO IMAGINÁRIO

"pede-se a uma criança que desenhe"
outra criança,
daquelas com quem brinca no recreio 
às guerras inventadas,
sem vitórias nem derrotas;

"dá-se-lhe um lápis e um papel"
branco, todo feito de pureza...

a medo
traça as primeiras linhas subtis,
mal definidas
de traços imprecisos:

___um círculo grande,
o seu mundo imaginário de criança.

depois, pede-se-lhe que desenhe os olhos,
e a criança desenha no seu mundo 
imaginário
outros dois mundos mais pequenos;

os mundos que distribui por todas as crianças
deste mundo.
são os olhos com que vê o seu mundo
pelos olhos das outras crianças
como ela.

depois, pede-se que desenhe os braços:
___abertos os desenha.

assim, os braços são o seu mundo
que abarca inteiro os outros mundos
no abraço dos seus braços abertos 
de esperança.

e desenha, por fim, as mãos,
___as mãos cheias de sonhos
os seus sonhos de criança.

___________
(reservados todos os direitos autorais nos termos da lei)
autor do desenho: Henrique Reis Carrilho (o meu neto de quase 4 anos
Nota: entre "comas" as palavras de Almada Negreiros
418

TRAÇOS DA MINHA POÉTICA

O filósofo francês Jean-Luc Nancy, no ensaio "Resistência da Poesia", dizia que a poesia tem esta qualidade: - não aceita ser circunscrita a um género de discurso. As palavras dele são estas: "Poesia, é fazer tudo falar".
        Sou absolutamente de acordo - a poesia é transversal a todas as artes, a todos os comportamentos e gestos quotidianos, e só isso explica a sua resistência. Quando tal deixar de acontecer, quando a poesia verter a sua nobre acção apenas sobre um conceito específico, ela deixa de ser - morre. Porque, poesia é a arte mais nobre da escrita.
        O poema, como Eduardo Lourenço nos diz, representará "um lugar de luta", ele será sempre, como nos refere Maria Irene Ramalho uma "reflexão sobre as possibilidades e os limites da linguagem.
        A poesia é a ausência sem fronteiras com a presença - ela é a sede e o excesso, o silêncio e o fulgor, o êxtase e o desencanto, o amor e o ódio. A poesia não se centra, apenas, num único vértice - ela é o amor pela palavra, pelas coisas, pelo ser, pelo todo.
        O caminho da poesia neste tempo da interrogação, neste tempo desabitado, é o lugar da ausência e do desassossego, da inquietação e da procura, da descrença e da tentativa de resposta, do medo e da revolta - conceitos hoje muito esquecidos pelos poetas que só cantam um único objecto poético: o amor pelo feminino, quiçá o mais fácil de se dar à palavra poética.
        O poeta José Tolentino de Mendonça, teólogo e grande humanista, adverte-nos para esta poesia da ausência na poesia de hoje - o vazio de Deus e dos Homens.
        Muitas vezes pedem-me um poema significativo da minha poesia - coisa impossível de demonstrar, porque a minha poesia debruça-se, também, sobre estes temas do desassossego. Já muitos terão reparado - se ela é, por um lado, a força irradiante e clara da palavra, pelo outro é, também, a turbulência das águas, causada pelas irregularidades do leito, a lâmina da navalha que rasga as sombras, mas também a força da raíz que penetra no solo e se enraíza firme entre as pedras.
A minha poesia é isto: o poder da palavra. E o que é a poesia senão "o poder de se transcender, de se negar e se afirmar através da negação", como nos diz Ramos Rosa em "Poesia, Liberdade Livre".
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Alvaro Giesta é nome literário, (Foz Côa, 1950). Escreve poesia, ficção e ensaio. É editor e coordenador literário. É membro do PEN Clube Português, Académico da ALA, em Portugal, Académico da ALTM, em Trás-os-Montes, sócio da Associação Portuguesa de Escritores e sócio do CEMD (Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora). Viveu em Angola entre duas guerras – a colonial e a civil – entre 61 e 75. Autodidata, por definição, é a partir do ano 2000 que desenvolve uma maior actividade literária em vários sítios da internet. Premiado em 2018 com o prémio de poesia Manuel Neto dos Santos, com o original da obra poética HÚMUS. Tem obras traduzidas em castelhano, galego, chileno e romeno. – Livros publicados: 12 de poesia e 1 de contos; – Livros a publicar PASCOAES e a SAUDADE, ensaio. – Coautor em mais de 40 antologias de poesia e conto em Portugal, Brasil e Roménia. – Concebeu e fundou em 2013 a revista literária impressa A Chama de que foi editor e director até 2015. Concebeu sob a égide desta revista, a Colectânea Literária de Autores IDEÁRIOS que coordenou e editou, no seu 1.º número com 29 autores, publicada em 2019. – Colaboração Literária e Jornalística independente em vários jornais e revistas literárias, no país e no estrangeiro, em poesia, ensaio e narrativa, nomeadamente na BIRD, revista literária online nascida sob a égide da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde durante 2 anos escreveu uma coluna semanal sobre ensaio e crónica.