SIMPLICIDADE E BELEZA
Recordo agora
neste ar de chuva escura
os pinheiros altos
a respiração sossegada.
Na casa do amigo
a infância era um cordeiro
que brincava para nós
no alpendre.
Os montes e as searas
eram a paisagem
fértil e madura.
Na casa de cal
laranja e linho
de mel
à janela o sol poisava
e abria satisfeito
as asas.
antonio tropa
AINDA NA CASA A LAREIRA ACESA
As águas perdidas no fim do Verão
por esses valados aonde irão ter
vindas das montanhas que ninguém ainda viu
Por sombras húmidas esvoaçam verdes
pássaros fugindo da noite onde estão
nas matas as silvas picam-nos formigas
horizonte de chuva negra chuva azeda.
São terras lavradas troncos de oliveiras
ervas já molhadas e pinheiros em fúria
corvos de outras eras penhascos de cinza
pássaros azúis já só dão tristeza
Ainda na casa a lareira acesa
que frio faz na terra o sol já morreu
tragam o pão coloquem a jarra
a sopa e chamem para a mesa.
antonio tropa
VOU LEVAR-TE DAQUI UM RAMO DE FLORES
A realidade
uma casa branca e cinzenta
a janela semiaberta e a luz fria
através do ar ouvindo Bach
no rádio louco inventando
Poesia.
Na gaiola verde e encarnado
mm pássaro pia Quase noite
mas é a manhã dum dia festivo
Vivaldi Eu já não percebo nada.
Talvez se não fosse o nevoeiro
fosse ter com Jorge pelo campo
ou vestisse a camisa branca e abalasse para a aldeia
vestido de noivado
Tarde demais
para promessas de cristal
apenas a crescer apenas a nascer
na ternura para Lina sei-o
uma vez beijámo-nos deve ser por isso
ou então a tristeza que não sei compreender
A protegê-la é isso a protegê-la.
Era um dia lavado depois da chuva
atravessando a cidade de mãos dadas
como um par de namorados pelo parque
mais a Antónia e o Manú e ríamos ríamos
fugindo desses ambientes assim fugindo desse ambientes
compreendes Lina aí no teu castelo
como vão os teus aprendizes diferentes
e alegria disfarçada Lina
vou levar-te daqui um ramo de flores.
antonio tropa
A NAVE
Se de repente isto se transformasse
numa nave espacial e abalasse
para outros espaços mais além
decerto ía haver menos enganos
aqui neste combóio de suburbanos.
antónio tropa
LISBOA-MAIS UM RETRATO URBANO
Não sei bem se eram gladíolos brancos
num ramo de fetos e cipreste
que a mulher maluca trazia ao peito
para ver de perto o sr. presidente.
Com um vestido de viúva pintada
e dentes de gente fina decadente
ralhava e batia nos miúdos à volta
que imitavam reportagens e lhe tiravam o retrato.
Depois veio um polícia há muito por ali
mas não foi por isso que as coisas mudaram
as águas do rio de repente escureceram
e o sol tornou-se mesmo uma coisinha de nada.
Então ela mostrou um livro da missa
levantou-o bem alto e cuspiu para as pessoas
uns que tinham razão outros que não devia
ter batido no miúdo um tabefe tão vermelho.
Que ela "coitadinha não tinha nada culpa"
ou então que "era puta pois estava só a mostrar as pernas".
Uns riam outros olhavam outros não diziam nada
outros falavam falavam falavam
só falavam.
antonio tropa
POR ESTAS PEDRAS FICAREMOS AO PASSAR
Un motor a cantar
no silêncio das colinas.
Alguém se lembrou de olhar
esta paisagem vazia.
No monte de S Francisco
um rapazito assobiou ao meio dia.
Por estas pedras ficaremos ao passar.
Na aldeia ao sol
ele foi procurar
embora sem saber bem como é
não entrou nas casas
foi pelas ruas
sentou-se á porta do café.
O meu amor deve por lá andar disse
é nestas tardes que as pessoas se costumam matar.
antónio tropa
A NOITE NAS CIDADES
Completamente rendido ao que escrevem alguns poetas espanhóis contemporâneos, não posso deixar de registar aqui um poema de Vicente Gallego. É uma pérola !!! Para ler devagar .Simples intensa e verdadeira. Assim deveria ser toda a poesia!
A NOITE NAS CIDADES
(Looking for the heart of saturday night)
Tom Waits
Ao longo do tempo
e em diversas cidades, observei essa gente
que transita na noite: bebedores anónimos,
rapariguitas de um dia, quarentões
que regressam vencidos do amor, todos eles
à procura sem mapa de um tesouro.
Para aliviar outra sede bebem sem vontade,
e nos seus olhos vi essas perguntas
que às vezes o amor soube acalmar,
porém morto o amor, de regresso à noite,
nos seus olhos continuavam as perguntas,
essas mesmas perguntas que fizeram
os poetas românticos ao contemplar a lua,
mas também os gregos e os árabes
e tantos outros cuja história
desconhece essa gente que se faz
essas mesmas perguntas, essas tristes perguntas
que me assaltam a mim diante deste copo:
na moeda falsa da noite,
procurei o seu brilho ou a sua sombra?
Que resta da ventura que num sábado qualquer
julguei sentir, ou existe
apenas fingimento na alegria?
Que cidades, que noites, que luzes ou que sombras,
que palavras, que corpos,
ou que estranho cansaço acalmarão
esta vontade de viver que a vida não sacia?
Para exprimir o que nas noites sinto,
o que em tantas cidades e através dos anos
senti ao regressar aos sábados a casa,
derrotado e feliz, solitário
deveria talvez recorrer à imagem
desses copos vazios que a noite abandona
e nos quais brilha o sol
por um instante ao despontar o dia,
ou ter sido um bom músico talvez,
escutem Tom Waits e deixem de me ler:
agora
apenas a um blues se parece a minha alma.
Vicente Gallego
RECORDAÇÕES DA INFÂNCIA
Na palma da mão nasceu um passarinho
uma cotovia que tirei do ninho
para ver como era
(Eu era um menino).
Lavravam bois além na tarde de vidro
e um assobio meio adormecido
pelo calor do sol
Eu e mais ninguém.
Num palheiro ao lado, no monte perdido
poalha de vida ,milho no telheiro
palha de centeio um pouco abafada
pelo cheiro das ovelhas, relhas, telhas, sacos
cancelas, buracos que dão para o caminho
Sombra de azinheiras
pedras velhas, cacos.
Depois lá em baixo a horta da tia
que ficava mesmo ao lado da fonte
onde as raparigas iam com os asados
menos pela água que pelos namorados.
Num dia de boda fomos á capela
era dia da festa ,perto do castelo
Por ali abaixo fui comer um cacho
sob as laranjeiras da mulher mais bela e
ver os comboios que vão prá cidade.
Com tudo isto uma grande canseira
por ali acima As rolas na eira
na hora da sesta e os corpos parados.
Um pouco depois outro fogo na serra
a tarde doía e nós por ali
num grande alvoroço de enxadas machados
Mais este desgosto.
Já é noite agora no Vale do Meio Dia
o que era alegria caiu para um poço e
aquela alminha ninguém sabe dela
vou rezar por ela para ver se a encontro.
antonio tropa
.
AINDA SEREI AQUELE SER DE LUZ
(Homenagem a todas as crianças
de todas as idades)
&
A noite passada fez muito frio.
O passarinho caíu do ninho
morreu gelado.
De manhã
fiz uma cova debaixo da laranjeira do quintal
embrulhei-o bem em algodão
depois deitei a terra em cima.
Pensei na história da flauta milagrosa
em que nascia uma flor ou um bambu numa sepultura
depois já não sei bem
Tudo isto são histórias de crianças
e eu já não sou nenhuma criança
mas não interessa
nem interessa
não interessa.
antonio tropa
GRITO EM SILÊNCIO
Não esqueci os teus olhos
nem o calor do teu corpo
Há pouco ainda te vi
na tristeza do sol posto
quando ao longe imaginei
onde costumavas estar.
Assim ali fiquei eu
a olhar o infinito e
a pensar que talvez
pudesses ouvir meu grito
pelo silêncio do ar.
antonio tropa