A NOITE NAS CIDADES
Completamente rendido ao que escrevem alguns poetas espanhóis contemporâneos, não posso deixar de registar aqui um poema de Vicente Gallego. É uma pérola !!! Para ler devagar .Simples intensa e verdadeira. Assim deveria ser toda a poesia!
A NOITE NAS CIDADES
(Looking for the heart of saturday night)
Tom Waits
Ao longo do tempo
e em diversas cidades, observei essa gente
que transita na noite: bebedores anónimos,
rapariguitas de um dia, quarentões
que regressam vencidos do amor, todos eles
à procura sem mapa de um tesouro.
Para aliviar outra sede bebem sem vontade,
e nos seus olhos vi essas perguntas
que às vezes o amor soube acalmar,
porém morto o amor, de regresso à noite,
nos seus olhos continuavam as perguntas,
essas mesmas perguntas que fizeram
os poetas românticos ao contemplar a lua,
mas também os gregos e os árabes
e tantos outros cuja história
desconhece essa gente que se faz
essas mesmas perguntas, essas tristes perguntas
que me assaltam a mim diante deste copo:
na moeda falsa da noite,
procurei o seu brilho ou a sua sombra?
Que resta da ventura que num sábado qualquer
julguei sentir, ou existe
apenas fingimento na alegria?
Que cidades, que noites, que luzes ou que sombras,
que palavras, que corpos,
ou que estranho cansaço acalmarão
esta vontade de viver que a vida não sacia?
Para exprimir o que nas noites sinto,
o que em tantas cidades e através dos anos
senti ao regressar aos sábados a casa,
derrotado e feliz, solitário
deveria talvez recorrer à imagem
desses copos vazios que a noite abandona
e nos quais brilha o sol
por um instante ao despontar o dia,
ou ter sido um bom músico talvez,
escutem Tom Waits e deixem de me ler:
agora
apenas a um blues se parece a minha alma.
Vicente Gallego
GRITO EM SILÊNCIO
Não esqueci os teus olhos
nem o calor do teu corpo
Há pouco ainda te vi
na tristeza do sol posto
quando ao longe imaginei
onde costumavas estar.
Assim ali fiquei eu
a olhar o infinito e
a pensar que talvez
pudesses ouvir meu grito
pelo silêncio do ar.
antonio tropa
CINEMA ERÓTICO
1. O desejo nasce
onde o sexo começa.
Estende os seus ramos
de sangue á cabeça.
2. Uma perna se entende
quanto mais perto esteja.
3. A mão também deseja.
4. No cinema as palmeiras
e o rio estão mais perto.
5. Toda a luz do corpo
para sair do deserto.
antonio tropa
AINDA SEREI AQUELE SER DE LUZ
(Homenagem a todas as crianças
de todas as idades)
&
A noite passada fez muito frio.
O passarinho caíu do ninho
morreu gelado.
De manhã
fiz uma cova debaixo da laranjeira do quintal
embrulhei-o bem em algodão
depois deitei a terra em cima.
Pensei na história da flauta milagrosa
em que nascia uma flor ou um bambu numa sepultura
depois já não sei bem
Tudo isto são histórias de crianças
e eu já não sou nenhuma criança
mas não interessa
nem interessa
não interessa.
antonio tropa
OUTRO RETRATO URBANO
às tantas da madrugada de Inverno
qualquer dor é mais difícil suportar
dobrado sobre a mesa a passar a camisa
e os vizinhos de cima que se fartam de ralhar.
Não é fácil deixar esta cidade
quando se vive assim destas coisinhas:
tv, vídeo, internet e a claridade
da praia quando há sol.
Já não vejo o amor há algum tempo
e a distância só deixa mais saudade
do tempo em que se vivia sem o medo
da sida a caír como chuvinha
e ficamos na cama sem prazer
em mais uma manhã triste e sozinha.
antonio tropa
POR ESTAS PEDRAS FICAREMOS AO PASSAR
Un motor a cantar
no silêncio das colinas.
Alguém se lembrou de olhar
esta paisagem vazia.
No monte de S Francisco
um rapazito assobiou ao meio dia.
Por estas pedras ficaremos ao passar.
Na aldeia ao sol
ele foi procurar
embora sem saber bem como é
não entrou nas casas
foi pelas ruas
sentou-se á porta do café.
O meu amor deve por lá andar disse
é nestas tardes que as pessoas se costumam matar.
antónio tropa
VOU LEVAR-TE DAQUI UM RAMO DE FLORES
A realidade
uma casa branca e cinzenta
a janela semiaberta e a luz fria
através do ar ouvindo Bach
no rádio louco inventando
Poesia.
Na gaiola verde e encarnado
mm pássaro pia Quase noite
mas é a manhã dum dia festivo
Vivaldi Eu já não percebo nada.
Talvez se não fosse o nevoeiro
fosse ter com Jorge pelo campo
ou vestisse a camisa branca e abalasse para a aldeia
vestido de noivado
Tarde demais
para promessas de cristal
apenas a crescer apenas a nascer
na ternura para Lina sei-o
uma vez beijámo-nos deve ser por isso
ou então a tristeza que não sei compreender
A protegê-la é isso a protegê-la.
Era um dia lavado depois da chuva
atravessando a cidade de mãos dadas
como um par de namorados pelo parque
mais a Antónia e o Manú e ríamos ríamos
fugindo desses ambientes assim fugindo desse ambientes
compreendes Lina aí no teu castelo
como vão os teus aprendizes diferentes
e alegria disfarçada Lina
vou levar-te daqui um ramo de flores.
antonio tropa
RECORDAÇÕES DA INFÂNCIA
Na palma da mão nasceu um passarinho
uma cotovia que tirei do ninho
para ver como era
(Eu era um menino).
Lavravam bois além na tarde de vidro
e um assobio meio adormecido
pelo calor do sol
Eu e mais ninguém.
Num palheiro ao lado, no monte perdido
poalha de vida ,milho no telheiro
palha de centeio um pouco abafada
pelo cheiro das ovelhas, relhas, telhas, sacos
cancelas, buracos que dão para o caminho
Sombra de azinheiras
pedras velhas, cacos.
Depois lá em baixo a horta da tia
que ficava mesmo ao lado da fonte
onde as raparigas iam com os asados
menos pela água que pelos namorados.
Num dia de boda fomos á capela
era dia da festa ,perto do castelo
Por ali abaixo fui comer um cacho
sob as laranjeiras da mulher mais bela e
ver os comboios que vão prá cidade.
Com tudo isto uma grande canseira
por ali acima As rolas na eira
na hora da sesta e os corpos parados.
Um pouco depois outro fogo na serra
a tarde doía e nós por ali
num grande alvoroço de enxadas machados
Mais este desgosto.
Já é noite agora no Vale do Meio Dia
o que era alegria caiu para um poço e
aquela alminha ninguém sabe dela
vou rezar por ela para ver se a encontro.
antonio tropa
.
HÁ PEQUENAS COISAS QUE NOS DÃO CORAGEM
"Se as cotovias são filhas de Deus
e as andorinhas a sua mensagem
há pequenas coisas até as mais negras
que nos dão coragem".
§
Depois da horta do monte e das figueiras
a sombra lenta e escura dos rochedos
pelo ar alguns pássaros furtivos
fogem em silêncio dos seus medos
para a noite assombrada dos pinheiros
para troncos e buracos para o azul
mais denso e profundo dos silvados.
Pelo caminho ainda arde a tarde
no chão no corpo no olhar
na dormência de mansos animais
no brilho apagado ou antes verde
acinzentado de densos matagais.
Depois paredes velhas azinheiras
abelhas moscas folhas palha cacos
quase á beira da noite chedas escuras
esvoaçam descuidadas pelo ar
no calor horizontal dos cardos secos.
antonio tropa
AO VER TUA BELEZA
A luz que nasce dentro
ao ver tua beleza
na música que danças
nesta noite incerta
dentro da caverna
que chamam discoteca
é sempre a luz perdida
que ainda antevejo
num sorriso doce
no gosto do beijo
que sem ter já tive
neste pensamento
ao rever-me agora
jovem desejante
do teu corpo quente
roçando o meu corpo
só por um momento.
antonio tropa