COMO EU TE COMPREENDO
Ai Manuela como eu te compreendo
minha vizinha da rua aqui ao lado
Só me lembro de chamar-te assim
nome que invento ( não é só para rimar)
quando passas por mim com os cães à trela.
Com os olhos mortiços e a moleza
numa tarde doirada de domingo a qualquer hora
dizes olá com a mesma indiferença
com que te imagino a ti aqui agora.
Calam-se os pardais nas árvores de repente
ladram outros cães nas varandas fechados
riem-se os miúdos que jogam à bola.
Será por sermos os dois tão parecidos
que me angustia o facto só de ver-te
passear os cães como quem morre
cada dia que passa sem amor
que deixou de existir há muito
com o gordo arrogante que engataste
ou te engatou a ti há algum tempo
que se serve de ti como dum traste
que não tem lá grande utilidade
a não der servir-lhe de alimento
ao seu egoismo de desprezível macho
dependente da boazona que o faz
sentir-se ainda mais importante
aos olhos dos outros como ele
que parecem desprezar o que já têm
e sentem às vezes qualquer coisa
de repente.
Ai Manuela!
antonio tropa
DE PASSAGEM
Isso e também pedras
não só as casas, as roseiras
e caminhos brancos assinalados,
também coisas escuras.
As ovelhas, as aves ,os pastores
os peregrinos que íam caminhando
até alcançarem a terra prometida.
Isso e pensar que já não
lhes pertenço nem eles me pertencem
nem nunca mais irei ver o combóio
passar por entre as laranjeiras.
Lembro-me que quis ainda ser
de repente o moço do tractor
algures em Vale de Sobreiras.
Do que vi gostei
tanto da papoila como da enxada
da fábrica e da criança
à beira da estrada.
antonio tropa
DESEJO QUE ARDE
São sombras de gente
ou gado caminhando
na poalha fria
e cinzenta da tarde.
Algo se levanta
ave ou desejo que arde
o corpo do amor
que o sonho traz pelo ar.
Ao passar por aqui
voltarei a cantar
Luz de oiro matinal
calma brisa do mar.
antonio tropa
AO MENOS A FINGIR
Ao menos a fingir
seja eu o que procuras
e tu a minha fantasia.
O amor é muito mais intenso
que o desejo dum corpo com tesão.
Não te consigo amar porque ignoraste
sempre
o que de mais profundo e belo em mim havia.
A solidão partilhada há muito existe.
antonio tropa
PARA ESTAR JUNTO DE TI
Para estar junto de ti
me alegrava.
Para as tuas pernas altas
eu cantava.
Para um rio sobre o corpo
para a luz nas águas claras.
Para um bom dia sedento
de calor e de searas.
Para te beijar o ventre
e a sombra desejada.
Para subir com as aves
à mais alta madrugada.
antonio tropa
A PERGUNTA
Não posso mais uma vez deixar de publicar aqui outro poema do poeta espanhol que admiro especialmente:VICENTE GALLEGO!
Na noite avançada e repetida
enquanto regresso bebido e solitário
da festa do mundo, com os olhos muito tristes
quando o acaso destina um corpo belo
para adornar a minha vida,essa mesma pergunta
me inquieta e me seduz como um velho veneno.
E a meio de uma farra quando um homem
reflecte um instante nos lavabos
de qualquer antro infame a que obrigam
os tributos nocturnos e umas pernas de deusa.
Mas também em casa nas noites sem pândega
nas noites que observo desta janela,
partilhando a sombra
com um corpo íntimo e repetido,
desta janela, neste mesmo quarto
onde agora estou só e me pergunto
durante quanto tempo cumprirei a pena
de procurar nos corpos e na noite
tudo isso que sei
que não escondem nem a noite nem os corpos.
Vicente Gallego
AO VER TUA BELEZA
A luz que nasce dentro
ao ver tua beleza
na música que danças
nesta noite incerta
dentro da caverna
que chamam discoteca
é sempre a luz perdida
que ainda antevejo
num sorriso doce
no gosto do beijo
que sem ter já tive
neste pensamento
ao rever-me agora
jovem desejante
do teu corpo quente
roçando o meu corpo
só por um momento.
antonio tropa
HÁ PEQUENAS COISAS QUE NOS DÃO CORAGEM
"Se as cotovias são filhas de Deus
e as andorinhas a sua mensagem
há pequenas coisas até as mais negras
que nos dão coragem".
§
Depois da horta do monte e das figueiras
a sombra lenta e escura dos rochedos
pelo ar alguns pássaros furtivos
fogem em silêncio dos seus medos
para a noite assombrada dos pinheiros
para troncos e buracos para o azul
mais denso e profundo dos silvados.
Pelo caminho ainda arde a tarde
no chão no corpo no olhar
na dormência de mansos animais
no brilho apagado ou antes verde
acinzentado de densos matagais.
Depois paredes velhas azinheiras
abelhas moscas folhas palha cacos
quase á beira da noite chedas escuras
esvoaçam descuidadas pelo ar
no calor horizontal dos cardos secos.
antonio tropa
O JUCA NA DISCOTECA
Um pouco irreal
para me sentir feliz
sou agora no ar
o jovem prometido
sobre a moto da noite e
abraçando tudo.
Um pouco mais acima
todo o oiro do corpo
o vento nos cabelos
a música por dentro
com muita muita gente
a aplaudir meus gestos
a beijar-me os olhos e
a roçar meu ventre
longa longa corrida
com "neve" quente e sempre
o terror inquietante
de só ter esta vida.
antonio tropa
OUTRO RETRATO URBANO
às tantas da madrugada de Inverno
qualquer dor é mais difícil suportar
dobrado sobre a mesa a passar a camisa
e os vizinhos de cima que se fartam de ralhar.
Não é fácil deixar esta cidade
quando se vive assim destas coisinhas:
tv, vídeo, internet e a claridade
da praia quando há sol.
Já não vejo o amor há algum tempo
e a distância só deixa mais saudade
do tempo em que se vivia sem o medo
da sida a caír como chuvinha
e ficamos na cama sem prazer
em mais uma manhã triste e sozinha.
antonio tropa