QUE ALEGRIA NÃO QUISESTE TER
As mãos assim esquecidas
a boca amordaçada no desejo.
Ave que não levantou voo
animal que nasceu para morrer.
Esqueceste-te de mim ou de ti?
Uma força explode o teu coração
por medo Que alegria não quiseste ter?
Porque não me dás a mão? Vem
Aqui podia ser o sol
o rio além
a neve que beija o azul.
antonio tropa
DE PASSAGEM
Isso e também pedras
não só as casas, as roseiras
e caminhos brancos assinalados,
também coisas escuras.
As ovelhas, as aves ,os pastores
os peregrinos que íam caminhando
até alcançarem a terra prometida.
Isso e pensar que já não
lhes pertenço nem eles me pertencem
nem nunca mais irei ver o combóio
passar por entre as laranjeiras.
Lembro-me que quis ainda ser
de repente o moço do tractor
algures em Vale de Sobreiras.
Do que vi gostei
tanto da papoila como da enxada
da fábrica e da criança
à beira da estrada.
antonio tropa
EM BREVE CAIRÁ A NOITE
(Mais um trabalho de um poeta espanhol que admiro:JOSÉ MATEOS)
O tempo leva afectos e amizades
e um vento cruel corrompe os nossos sonhos
Até que um dia, por fim, nos damos conta
de que estamos sozinhos.
Nada, nem os livros
que principiam a falar quando os abrimos,
nem os versos que fomos despertando
para adiar e fugir do nosso rosto
enchem um vazio,formam uma pátria.
Em redor de nós é tudo simples,
ou assim parece: o pássaro na antena
a nuvem anónima no céu luminoso...
Para nós, porém, crescem as sombras,
ninguém para nós acende a luz.
Sem esperança, sem fé outra tarde morre,
E é esse o disco riscado da vida,
o frouxo amor, a idade do desencanto.
José Mateos
PARA ESTAR JUNTO DE TI
Para estar junto de ti
me alegrava.
Para as tuas pernas altas
eu cantava.
Para um rio sobre o corpo
para a luz nas águas claras.
Para um bom dia sedento
de calor e de searas.
Para te beijar o ventre
e a sombra desejada.
Para subir com as aves
à mais alta madrugada.
antonio tropa
AINDA NA CASA A LAREIRA ACESA
As águas perdidas no fim do Verão
por esses valados aonde irão ter
vindas das montanhas que ninguém ainda viu
Por sombras húmidas esvoaçam verdes
pássaros fugindo da noite onde estão
nas matas as silvas picam-nos formigas
horizonte de chuva negra chuva azeda.
São terras lavradas troncos de oliveiras
ervas já molhadas e pinheiros em fúria
corvos de outras eras penhascos de cinza
pássaros azúis já só dão tristeza
Ainda na casa a lareira acesa
que frio faz na terra o sol já morreu
tragam o pão coloquem a jarra
a sopa e chamem para a mesa.
antonio tropa
LISBOA-MAIS UM RETRATO URBANO
Não sei bem se eram gladíolos brancos
num ramo de fetos e cipreste
que a mulher maluca trazia ao peito
para ver de perto o sr. presidente.
Com um vestido de viúva pintada
e dentes de gente fina decadente
ralhava e batia nos miúdos à volta
que imitavam reportagens e lhe tiravam o retrato.
Depois veio um polícia há muito por ali
mas não foi por isso que as coisas mudaram
as águas do rio de repente escureceram
e o sol tornou-se mesmo uma coisinha de nada.
Então ela mostrou um livro da missa
levantou-o bem alto e cuspiu para as pessoas
uns que tinham razão outros que não devia
ter batido no miúdo um tabefe tão vermelho.
Que ela "coitadinha não tinha nada culpa"
ou então que "era puta pois estava só a mostrar as pernas".
Uns riam outros olhavam outros não diziam nada
outros falavam falavam falavam
só falavam.
antonio tropa
COMO EU TE COMPREENDO
Ai Manuela como eu te compreendo
minha vizinha da rua aqui ao lado
Só me lembro de chamar-te assim
nome que invento ( não é só para rimar)
quando passas por mim com os cães à trela.
Com os olhos mortiços e a moleza
numa tarde doirada de domingo a qualquer hora
dizes olá com a mesma indiferença
com que te imagino a ti aqui agora.
Calam-se os pardais nas árvores de repente
ladram outros cães nas varandas fechados
riem-se os miúdos que jogam à bola.
Será por sermos os dois tão parecidos
que me angustia o facto só de ver-te
passear os cães como quem morre
cada dia que passa sem amor
que deixou de existir há muito
com o gordo arrogante que engataste
ou te engatou a ti há algum tempo
que se serve de ti como dum traste
que não tem lá grande utilidade
a não der servir-lhe de alimento
ao seu egoismo de desprezível macho
dependente da boazona que o faz
sentir-se ainda mais importante
aos olhos dos outros como ele
que parecem desprezar o que já têm
e sentem às vezes qualquer coisa
de repente.
Ai Manuela!
antonio tropa
O JUCA NA DISCOTECA
Um pouco irreal
para me sentir feliz
sou agora no ar
o jovem prometido
sobre a moto da noite e
abraçando tudo.
Um pouco mais acima
todo o oiro do corpo
o vento nos cabelos
a música por dentro
com muita muita gente
a aplaudir meus gestos
a beijar-me os olhos e
a roçar meu ventre
longa longa corrida
com "neve" quente e sempre
o terror inquietante
de só ter esta vida.
antonio tropa
SIMPLICIDADE E BELEZA
Recordo agora
neste ar de chuva escura
os pinheiros altos
a respiração sossegada.
Na casa do amigo
a infância era um cordeiro
que brincava para nós
no alpendre.
Os montes e as searas
eram a paisagem
fértil e madura.
Na casa de cal
laranja e linho
de mel
à janela o sol poisava
e abria satisfeito
as asas.
antonio tropa
INVERNO NA ALDEIA
Este Inverno de hoje traz-me lembranças doutros Invernos
numa aldeia não sei bem se era uma aldeia
era um conjunto de pessoas e casas paradas ao longo duma rua
por onde corria a água da chuva
dos beirais que nos obrigavam a ficar
ás portas.
Nas abertas dávamos uma corrida até á taberna
onde os homens bebiam vinho e comiam amendoins
entre bocejos húmidos.
Realmente era uma chatice se chovia
nas matanças do porco as carquejas não ardiam
depois a gente com os pés enlameados a entrar e a sair de casa
As mães não gostavam mas ficavam contentes:
Sempre para trás e para a frente sentai-vos ao lume quietinhos
ou então assai castanhas que estragais as brasas
Ide mas é apanhar azeitona quando deixar de chover
Não deixai-vos estar aqui
faz muito frio.
antonio tropa