Lista de Poemas

INVERNO NA ALDEIA


Este Inverno de hoje traz-me lembranças doutros Invernos
numa aldeia não sei bem se era uma aldeia
era um conjunto de pessoas e casas paradas ao longo duma rua
por onde corria a água da chuva
dos beirais que nos obrigavam a ficar
ás portas.
Nas abertas dávamos uma corrida até á taberna
onde os homens bebiam vinho e comiam amendoins
entre bocejos húmidos.
Realmente era uma chatice se chovia
nas matanças do porco as carquejas não ardiam
depois a gente com os pés enlameados a entrar e a sair de casa
As mães não gostavam mas ficavam contentes:
Sempre para trás e para a frente sentai-vos ao lume quietinhos
ou então assai castanhas que estragais as brasas
Ide mas é apanhar azeitona quando deixar de chover
Não deixai-vos estar aqui
faz muito frio.

antonio tropa




429

CINEMA ERÓTICO

1. O desejo nasce
onde o sexo começa.
Estende os seus ramos
de sangue á cabeça.

2. Uma perna se entende
quanto mais perto esteja.

3. A mão também deseja.

4. No cinema as palmeiras
e o rio estão mais perto.

5. Toda a luz do corpo
para sair do deserto.


antonio tropa
481

A VIDA É ASSIM MESMO


A vida é assim mesmo
às vezes um desalento
um ternura que vem do fundo da infância
com olhos de pássaro ferido.

O que há pouco era
vertigem de euforia
agora amarfanhado
na sombra.

Regresso à simplicidade da terra
um cheiro doce
essa alegria.

Em qualquer colina do mundo
antes que o coração seja uma pedra
recordo agora
o que dantes vivia.


antonio tropa
434

PAISAGEM RÚSTICA


Depois da ponte sobre o rio há uma estrada
à esquerda junto ao túnel por onde passa a linha
do combóio que atravessas. O calor começa e paras
por entre oliveiras e pinhais escutas
a restolhada luminosa das cigarras.
Ao subir devagar pela encosta
que leva ao lugar onde se reza
um silêncio intenso e povoado
de antepassados que por ali andaram.
Não conto histórias apenas vejo e anoto
pequenas paixões que ainda são minhas
a laranja do sol sobre as colinas
o canto das rolas as searas
o cheiro morno das estevas pelo mato.

Que o esplendor do dia nos comova
até às lágrimas com a ternura antiga
pelos caminhos aonde o sonho leva.

antonio tropa
453

Para EUGÉNIO DE ANDRADE

Que rosto sobre o teu rosto
recebeu o que queria.

que olhos assim se deram
na beleza do meio dia.

que corpo maravilhado
com a sua própria alegria.

antónio tropa
392

RECADO PARA UM AMIGO ALCOOLICO


Trocas o amor pelo alcool
E eu não sei o que fazer
Para te animar um pouco.
Da vida tens quase nada
De alegria pra sentir.
Não te vou chamar de louco
Pode um dia acontecer
Perderes o tino de vez
Com tanto desassossego.
Dos outros não queres saber
Quando estás naquele estado
Muito menos criticado
Por ti próprio desta vez
Sim porque tu és o algoz
Dos teus tormentos diários
Tu para ti és feroz
Mesmo sem estares com os copos.

antonio tropa
346

SOS-Saudade Ou Stress


Estava ela sentada
a passar a mão na cara
enquanto des(esperava)
que a tarde breve chegasse
para alcançar a cancela
que fica do outro lado
pois só aí descansava.

Assim ali estava ela
a escrever nuns papéis
mas sempre à procura dela
enquanto num outro sol
com olhos de passarinho
estava um lindo menino
o seu filho assim como era
a brincar na relva fresca
enquanto os comboios passavam
sem a mamã mas contente
por estar no meio da gente
que faz da vida uma festa.

E ela a pensar naquilo
enquanto escrevia a carta
para a firma do raios partam
a vida que a gente leva.

antonio tropa
343

RETRATO URBANO


Estarem assim expostos ao tempo e ao olhar
na noite enlouquecida.

Ficar de mãos nos bolsos na esquina da cidade
perdido já o nome o espanto e o melhor.

Fugidos doutro tempo perdidos num instante
só então se arrependem de não poder voltar.

Seus modos permanecem limpos e despidos
nem sempre. desejados por quem os encontrar.

antonio tropa
410

FICO FELIZ POR TE VER


Fico feliz por te ver
respondendo ao meu olhar
ou melhor reconhecendo
a beleza que em ti vi e me alegra
Agora sinto
todo o oiro dos teus braços
as flores que recolhi
em qualquer manhâ de março
que por lá permaneci
nesse corpo em que o meu corpo
encontrou todo o encanto
de perder-se noutro corpo
ou ser por ele habitado.
Já esqueci o teu nome
mas no ar ficou a cor
das acuçenas do rosto
que beijo todos os dias
para não perder este amor.

antónio tropa
389

EU QUERIA DIZER TODA A VERDADE

Eu queria dizer toda a verdade
mas só palavras secas me nasciam
nas mãos que em teu corpo pressentiam
a montanha a impedir a claridade.
Mas já não sei bem se procurava
no teu corpo ao meu assim unido
a raiz da luz ou o porque
de tanto sol escondido.
Por isso insisto na certeza
que me traz a voz do sentimento
ou um pássaro só a morrer dentro
das grades do silêncio e da tristeza.

antónio tropa
376

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A VIDA É ASSIM MESMO

A vida é assim mesmo
às vezes um desalento
um ternura que vem do fundo da infância
com olhos de pássaro ferido.

O que há pouco era
vertigem de euforia
agora amarfanhado
na sombra.

Regressar à simplicidade da terra
um cheiro doce
essa alegria.

Em qualquer colina do mundo
antes que o coração seja uma pedra
recordar agora
o que dantes se vivia.

antonio tropa