Lista de Poemas

NA CAMA DO HOSPITAL


Na cama dum hospital
Foi ter onde mais temia
mais perdida do que nunca
rodeada de família.
Por mais que não queira ou esqueça
há uma porta que se fecha
que é como uma buzina
dentro da sua cabeça.
Há uma dor que vem da alma
quando se arrasta indefesa
em silêncio disfarçada
ao comer a sobremesa.
Nos olhos já nada brilha
ao olhar para a janela
sem ver nada através dela.

antonio tropa
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CONFESSO QUE DANTES TINHA MEDO


Confesso que dantes tinha medo
que me trocasses por alguém
pois o teu rosto e
aquele teu ar indiferente
não escondiam o vulcão que sempre foste
que inspirava qualquer um a dar um jeito.
Com os anos foram-te pesando
as mágoas e não só
por não teres sido tudo o que querias
por isso bebias e agravavas
coisas que não digo e deformavas
a brancura firme do teu corpo.
Só teus olhos me fazem recordar
o brilho da lua sobre o sexo
como espantávamos á noite pelo campo
coelhos mochos e o medo
de sermos descobertos.
Dão mais luz e dignidade á nossa vida
como flores num velório tais lembranças
enquanto ficas para ali assim parado
com as mãos cruzadas sobre o peito
parecendo cada vez mais afastado
á espera que te faça o que for feito.

antonio tropa
498

PRÉ DEPRESSIVO


A mão na janela e os dedos da mão
a manga do casaco que o tempo maltrata.
Do amor esquecido
como os olhos do cão enforcado na mata.

antonio tropa

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ESTRANHA FORMA


Estranha era a forma
de procurares o amor
nos cafés tristes
nas tascas da cidade
nas ruas e nas gares
nos parques assombrados
na lua do desejo
por anjos destroçados
por bares meio deslumbrado
pelas luzes da noite
pelo cheiro da madrugada.

Estranha era a forma
de amares sozinho
mesmo acompanhado.

antonio tropa
418

ENCONTRO BREVE

Com a luz que há no corpo
de quem adormece ao sol
veio da cozinha pra sala
no sofá junto á janela
diz com voz apaziguada
isto ainda não foi nada
depois saiu para a rua.

A sombra que ali ficou
e se espalhou pelo ar
foi mosca a voar na sala
a televisão desligada
e os pratos por lavar.

antonio tropa
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A VIDA É ASSIM MESMO

A vida é assim mesmo
às vezes um desalento
um ternura que vem do fundo da infância
com olhos de pássaro ferido.

O que há pouco era
vertigem de euforia
agora amarfanhado
na sombra.

Regressar à simplicidade da terra
um cheiro doce
essa alegria.

Em qualquer colina do mundo
antes que o coração seja uma pedra
recordar agora
o que dantes se vivia.

antonio tropa