Lista de Poemas

PERFEITOS QUASE E DESCONTENTES


Ali sentados
assim como dois compadres
a ver os outros indiferentemente
divertidos
a falar com os olhos com a boca
com as mãos e tudo
durante uma tarde inteira no meio da gente
no café dos pobres
a beber uns cafezinhos parvos
depois de laranjadas e bagaços
e assuntos desempregados
até às tantas
porque não há aulas às duas e meia
nem física ou matemática pra chatear.
Ali assim
fartos de esperar não se sabe o quê
com a felicidade na ponta dos olhos em riste
só às vezes avistada só às vezes esboçada
Como um desenho inacabado e triste.

antonio tropa
355

POEMA PARA TODOS OS MESTRES


Como olhas o infinito
sem ninguém pensar em ti.
Estarás morto
Os olhos ainda esperam a manhã florida
ali sentado à varanda
calado e só
a descansar.
é difícil imaginar que já partiste
e como as tuas mãos feridas
me ensinaram a escrever este poema.

antonio tropa
408

OUTRA VEZ SOBRE O AMOR


Com o coração entendo
aquilo que não é dito.

Há um espaço infinito
entre o meu e o teu olhar

Procuro então com o corpo
e é nesse labirinto
que muitas vezes me minto
para agradar ao meu par.

antonio tropa
348

ALCAINS EM AGOSTO


O canto da fábrica e da rapariga
O suor o ladrar do cão
O ar espelho de granito azul
O vento e as giestas.
A mulher da horta pela rua
O som do sino e da motorizada.
Passam de bicicleta
Os pedreiros da escola.
Os pardais.
Enquanto o velho adormece
O rapaz muda um pneu.
Muito pela sombra
O riso breve
A rapaziada
Os estudantes
Os que estão em França
Os que ainda não fazem nada.
A rua
A cerveja
O café
O futebol.
Por entre as ervas secas e as pedras
As ovelhas pastam mansamente
Alguém assobia lá ao longe
Está contente
Sorrio
E olho para o sol.

antónio tropa
429

DONA GINA


Ao balcão do café ela espevita
com o cigarro ao alto e a simpatia
ou o charme de quem já foi mulher bonita
a beber uns martinis ela espreita
se o marido a vê ou aparece a filha.
Depois lentamente vai prá mesa
onde a neta rabugenta come a sopa
que entorna e ela muito delicada
diz Paulinha tenha modos com franqueza
a recordar quando ainda era menina e
a ter medo depois que o pai lhe bata.

antonio tropa
472

SOBRE O AMOR


O amor para alguns é
como uma puta estrangeira
ao balcão dum cabaret
estranha e misteriosa
apenas interessada
em parecer o que não é.
Para outros é sinal
duma infinita beleza
que se vê à flor da pele
e que reflecte a pureza
do anjo que há dentro dela.

antónio tropa

antonio tropa
407

JOHN S


Enquanto se encosta vai ligando o lume
do filme porno que aconteceu
sempre a perguntar onde está o amor
se já foi embora se nunca aqui andou.

Bebe a coca-cola um pouco enjoado
do cheiro estranho do corpo cansado
por onde tens andado enquanto na perna
a mão o procura assim quase a medo.

é este o segredo o encontro surdo
de quem só quer tudo do que nunca teve
o terno calor esse abandonado
que nunca foi dado tão intensamente
como desejado.

Assim que a boca procura a nascente
da tal alegria e um jacto de luz
branca e euforizante lhe salta com gosto
ele vai depressa um pouco atrapalhado
à casa de banho lavar mãos e rosto.

antonio tropa
473

EVY AINDA APAIXONADA


A tua mãe é louca e eu sou como ela
tão cheio de amor é este sem sentido.

Vem sobre mim nesta sombra de nada
debaixo dos teus olhos que quero descobrir.

Quero ver-te sem disfarce e sem abrigo
com serpentes no ventre e luzes pelo ar.

A boca cheia de palavras a florir.

à beira da água com o corpo a arder
a fonte quase seca de tanto te esperar
mesmo quando estamos lado a lado deitados.

Sou apenas para ti uma gaja qualquer
uma simples mulher com os filhos agarrados.

antonio tropa
449

P P PASOLINI


Que fizeste tu homem para te morder assim o teu amor
num gesto de desespero ao meio dia.
Que fizeste do anjo para ele se transformar em diabo
e te matar assim como nos filmes
por entre risos lágrimas e estrelas.

Tu eras um homem mas eras um menino
que inventou a ternura numa tela colorida.

Tu que te perdeste até á última noite
e bebeste da alegria o vinho e o fel

Tu homem eu não devia dizer-te isto
mas valeu a pena a tua vida.

antonio tropa
438

RECADO PARA ANA


Posso compreender que em ti pouco corresponda
ao que gostarias de ser, Ana
contudo o teu sorriso às vezes é bonito
apesar dos óculos, da palidez, da sombra
que te faz parecer frágil, desajustada e
entrar à defesa em qualquer relação.

Por isso nos últimos tempos tens evitado
expor-te muito e neste caso
a Internet facilita bastante a imaginação.

A violência sobre ti foi exercida
apenas com palavras, gritos alguns actos
impedem-te agora de te sentires mais serena
e conformada.

A distância tem-te protegido das angústia
de rejeição. Longe ninguém pode agravar muito
o que em ti já existia.

A Net é a filha mais nova
da solidão.

antónio tropa
398

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A VIDA É ASSIM MESMO

A vida é assim mesmo
às vezes um desalento
um ternura que vem do fundo da infância
com olhos de pássaro ferido.

O que há pouco era
vertigem de euforia
agora amarfanhado
na sombra.

Regressar à simplicidade da terra
um cheiro doce
essa alegria.

Em qualquer colina do mundo
antes que o coração seja uma pedra
recordar agora
o que dantes se vivia.

antonio tropa