Lista de Poemas

A OUTRA VERTENTE DA VIDA

Algo triste acontece lentamente
á medida que envelhecemos,

o fogo do pensamento vai-se apagando
juntamente com a alegria

não há tempo para sentir os traumas
ou querer ter poder sobre os demais
nem há lugar para a ira

uma passividade inquieta vai aumentando
já sem expressividade ou companhia

custa mais descer do que subir
a velha escada da vida
com mais ou menos tempo
no mesmo degrau.

recordar não é de todo mau.

repetimo-nos instintivamente como pardais.

damos por nós a ser cada vez mais parecidos
no corpo nos medos no olhar
com a forma de gostar dos nossos pais.

antonio tropa
417

POEMAS PARA LINA


I
Se a gente quando morre vai para o céu
a Lina com certeza é dos que vai
na esperança com que toda a noite sai
nestes tempos perigosos e de sida
à procura dum amor para toda a vida.

II
Na casa dela o que falta é um abraço
Quem não esquece chegará à porta
já se ouve a chuva no telhado.

À beira do abismo e tanta gente.
Onde irá tanta luz tanto esquecimento.

III
Não será só a sombra dos teus olhos
que me faz ter mais pena de ti
è olhar para ti como nos espelhos.

Tanta noite perdida sem amor
tanta vida e tanto para ser.

mas o difícil e cruel é não saber.

Não saber e nem sequer sentir.

O castigo de quem não quer morrer
ou pensar na morte e no prazer.


antonio tropa
716

O KEKAS E OS IRMÃOS


Mesmo com caras bonitas e
olhos amendoados
são marginais.
Porque à beira da barraca
há lama por todo o lado
e roubam o que aparece mesmo sem ter fome ou quê
calças t-shirts blusões e outras coisas dos estendais.
Porque foram seduzidos
quando ainda eram meninos
também fornicam com gente
e com tudo o que aparece.
Se alguém é carinhoso com desprezo dizem esquece.
Gostam de filmes porno de cowboys e de acção.
Há muitos gatos que miam toda a noite por ali
também têm muito cão e a todos chamam boby.
Fodem com as namoradas
com os outros ali ao lado.
Mudam mais vezes de par
do que mudam de camisa.
Gostam de música cigana.
e daquelas do "cumisy".
Já os vi apaixonados
nunca mais de uma semana.
Dizem que são bons na cama.
A mãe fugiu com um gajo
e eles ficaram à toa
com o pai que bebe muito e uma avó boazinha
mas quando vão à cozinha quase nunca há que comer
só um bocado de pão
com margarina rançosa.
Também me ía esquecendo
que têm pulgas na cama
e que dão peidos na rua nos cafés
e onde há gente
pois bebem muita aguardente
misturada com cerveja
depois não há quem os veja
durante dias seguidos.
Também são muito atrevidos
quando já estão com os copos
e bateram nuns cachopos com pedradas na cabeça
maltrataram muitos outros que eram outros que tais.
Ainda há quem não os esqueça.

antónio tropa

Queluz 23/09/
413

A CARLA O RAFAEL E OS OUTROS


Vorazes
com fumo e brilho
Nos olhos.

Risos pelo ar
voam com as aves.

Carrocel do sonho. amor para amar
debruçados nas varandas sobre o mar.

Velozes. no beijo e no encontro
no encanto.

Suaves e mordazes
com sem e muito
às vezes.

Assim perdidos
sujeitos aos speeds do amor
pelos cantos pelos braços pela dor
de não ser
capaz e tanto por despir
por dizer
por não sei quê
florir assim devagar
com muito medo.

antonio tropa
404

CASTELO BRANCO OUTUBRO DE MIL NOVECENTOS E TAL


A escola secundária andava pelas ruas
já de cachecol máxi e botas altas
assim azul e um pouco desajustada
pelos cafés e lugares melhor frequentados.

A cidade recebia-a
nas suas casas sem janelas
e explicadores frustrados.

Era vista todas as segundas feiras
depois das aulas com o namorado
sorridente e um pouco tímida
mas muito boa rapariga pelo menos
cheia de boas intenções e pouco cuidado
não lhe vá acontecer alguma e ficar abandonada
pois ser bem parecer bem e mostrar algum respeito
mesmo quando fica completamente encarnada
coitada em especial quando recusa
discretamente e um pouco cúmplice
o charro do grupo dos amorosos do sonho
enfim vale mais estar calada.

antónio tropa

402

HÁ UM RAPAZ PARA OLHAR


Há um rapaz para olhar
ao lado de Campolide.

Seus olhos passam defronte
duma paisagem de espelhos
perdidos no horizonte
por entre latas e medo
tábuas lama papéis velhos
um sonho ainda fremente.
Vai por ruelas da noite
quando a lua mãe o chama
à aventura do vento
e do desejo
Perdido.

Com os cabelos de fumo
e os olhos por encontrar
para ali se deixa estar
a fingir que nem sequer
levemente comovido.

antonio tropa
497

CAMPO IMENSO E VERDE


Campo imenso e verde para a água do sol
espaço limpo e alto para ser mais azul
tão irmão do lume que a infância aqueceu
porque nâo é mais?!

Pelo teu silêncio e os olhos magoados
as mãos quase contentes tanto se temeu
contigo irei,

para casa agora que já é sol posto
por ervas e pedras toda a luz do teu rosto.


antonio tropa
420

ERÓTICA 4

Assim era o começo
eram as mãos
suavemente abertas sobre o corpo.
Era isto apenas que me lembro
e um tremor a nascer no ventre aflito.

Sou eu somos nós
estou aqui
essa urgência de amor
quase era um grito.

"Mil crianças impelem-me para ti
para ti para ti"
até respirar o teu ar
próximo já do infinito.

antonio tropa
376

CONVIVO TODOS OS DIAS COM ANESTESIADOS

Covivo todos os dias com anestesiados
ao contrário do que diz o espanhol
convivo todos os dias com eles
assim sérios ou muito desportivos
a falarem de serviço e futebol.
Convivo com assinados todos os dias
vestidos de funeral engomadinhos
incapazes de "chorar perante uma orquídia"
ou simplesmente olharem para o sol.
Convivo todos os dias com eles
casadinhos com a instituição
com os sentidos há muito apaziguados
porque assim "são mais úteis á nação".
É pena que alguns estejam mortos
e nem sequer recordem ser meninos
pois deixando de lado os sentimentos
poderão ser também eles assassinos.

antónio tropa
399

SONHO RÚSTICO

Que casas velhas Que sombra de searas
Riscos que se correm Que campos perdidos
teus sonhos esperam

Ao florir um corpo sobre a terra
as aves pastavam
que luz as doirava.

Que pulsos de pedra
que olhos de água

No calor da tarde
que voz te chamava.

antonio tropa
358

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A VIDA É ASSIM MESMO

A vida é assim mesmo
às vezes um desalento
um ternura que vem do fundo da infância
com olhos de pássaro ferido.

O que há pouco era
vertigem de euforia
agora amarfanhado
na sombra.

Regressar à simplicidade da terra
um cheiro doce
essa alegria.

Em qualquer colina do mundo
antes que o coração seja uma pedra
recordar agora
o que dantes se vivia.

antonio tropa