Lista de Poemas

SÁBADO Á NOITE


A chuvinha da noite convidava
a ser feliz só com o pensamento
e não entrar assim desamparado
nas alucinadas e traiçoeiras luzes
de sábado que corriam prá cidade
para cumprir não sei que mandamento
que nos obriga à procura sem cessar
de alegria enquanto aqui andarmos
com olhares que não nos tocam dentro
nem risos que sabemos partilhar
pessoas como nós mas só por fora
que não deixamos entrar só por entrar
por medo ou qualquer outra tristeza
e tão pouco arrebatamento
que não nos deixa antever qualquer beleza
em tal falta de verdade ou sentimento.

antonio tropa
429

DESABAFO

Estave uma noite transparente
mas mesmo assim ou por ser assim
ele não esteve com meias medidas deu-lhe o fanico e
zás Começou a partir as coisas e a disparatar
como se o mundo fosse acabar naquele momento
sem vontade de fazer o que quer que fosse
e não houvesse mais nada a esperar Eu sei lá
o rapaz devia ter qualquer parafuso mal ajustado
parra arranhar assim a noite com tal fúria
não é brincadeira nenhuma
quando se anda há tantos anos á procura
e quando se pensa que se encontrou já não é bem o que se procura
Onde é que estaria Deus
para permitir que acontecessem aquelas coisas
e outras que tais um horror
porque aquilo não se vê só nos filmes acontece
todos os dias e a todas as horas
a muita gente que merece muito mais amor.

antonio tropa

390

DÁPRES MIRÓ


Há uma dança de roda
Com as estrelas ao vento
O coração fica dentro
Do sol que agora é lua
Uma mulher quase nua
Em cima daquele monte e
Um passarito encoberto
Um bocado descontente
Por a mãe ter abalado.
Há ainda um boi cansado
Mas um pouco colorido
Pelo amarelo vivo
Do sol e do encarnado
Ali pertinho da água
Ou do sangue derramado
Uma bonequinha dança
Ao som duma concertina
Pode ser uma menina
Engalanada de branco
A quem deram um desejo
A querer chegar aquilo
Que pode ser eu não digo
Mas há ali entretanto
O que pode ser um perigo
Duas cobrinhas paradas
A espreitar num postigo
Enquanto o pássaro zangado
Por não poder ver a lua
Só pensa na mulher nua
Sempre muito envergonhado.

antonio tropa
515

OMG! Gente tão bonita

Não vou dizer que traí
a ideia antiga da cidade
mas a verdade é que nunca vi
gente tão bonita nem coisas tão estranhas.

O bigodes entre o charro e o bagaço
adoptou uma criança castelhana
o Coiso o Rolo a irmã do Rolim
lá estava morenaça e tão bem maquilhada
como se não estivesse.

Refugiei-me no Its e bebi
uma cerveja apaziguadora
a olhar práquilo como se.

Todos no mesmo café
como nos bons tempos de yé-yé
as filhas do os filhos da
o a.

Não sei se é
por Castelo Branco cidade
ser o que sinto em mim
mas a verdade é que a vi
realmente assim.

antonio tropa
383

LAURO


Uma sombra agora sobre a tua cabeça
junto da árvore da casa por construir
à espera ainda que te abrace o bigode
loiro e perfumado do pai que há-de voltar.

A mãe que não te deixa e te culpa por seres
como o que a abandonou depois de tanto amor
e tu não entendes e sabes cuidar.

Por isso vestiste esse disfarce de soldado
isso que temias e acabaste por pedir
a mulher que te beija faz sopa e camisas
tão desesperada que te impede de sentir.

antonio tropa
390

SOBRE A GUERRA

Se vissem como sou velho
e como a dor já me cansa
ao olhar essa criança
com o corpo rebentado
na televisão desligada.
Se vissem como a luz escura
entristece toda a casa
luz de míssil desalmada
espalhando pelo ar
o veneno e a loucura
de quem nunca soube amar.
Se antes brilhassem no céu
estrelas de muitas cores
toda a alegria da terra
e quem a soube encontrar
em vez desse vomitado
de bombas em Telaviv
em Cabul ou em Bagdad.
Se os gritos das sirenes
fossem os do carrocel
numa festa suburbana
às vezes aqui ao lado
pensaria que sou novo
e em mais um fim de semana.

antonio tropa
345

ERÓTICA 3


Voltámos ao tempo
em que nos amávamos sobre a terra
em que brincávamos e sorriamos perfeitos.
Agora uma vez mais unidos
e agradecidos nesta sombra
alegramos nossos corpos vivos
e enxugamos o suor do nosso esforço.
Quem nunca te conheceu não poderá saber
que só tu me dás o licor branco
que me faz viver ainda
neste encanto
Pois teu corpo o rebento a maravilha
exposta assim a nu sobre os joelhos
esse lírio branco aonde o corpo
é o universo inteiro.

antónio tropa
384

RETRATO URBANO 3


Ali ficaste de olhos acesos
enquanto a noite acontecia
meio adormecida e quase tua.

Num cabaret muito próximo
ou boîte ou lá o que era
uns músicos masoquistas
cantavam pelo ar de chuva miudinha
uma dessas canções parvas
de breves paixões nocturnas.

Um qualquer passou por baixo
do silêncio a vomitar alegria.

Entretanto no quarto
que a tua imaginação tornou mais suportável
o emaranhado azul do sonho os olhos os cabelos.

Pela manhã
lavaste-o na pele
embora quisesses ficar
com o seu amor
para sempre.

antónio tropa
358

OS BEIJOS SÃO AS PALAVRAS QUE DESEJO

Os beijos são as palavras que desejo
o medo as encerra O corpo
dentro do qual me vejo e no qual
se encontra toda a alegria do momento
em que vem ao certo ou se não vem
o que se sente
não é só para dizer por palavras
exactas mesmo as palavras nunca foram exactas
Assim
acabo por renunciar a todos e
acabo por desejar desesperadamente todos
os beijos de palavras mesmo não concretas
as palavras que se dizem sem saber que se dizem
ou se dizem apenas por dizer
Eu desejo as palavras no momento e a certeza
não só a tal mas a devoção com que se reza
e se quer e se promete mesmo que não se faça
quero as palavras vivas em momentos de vida

Certamente o que dizes é o que dizes
mas aquilo que escondes será uma certeza
não prometo que te ame mas sei que te amo
amo-te e digo-o para saber que te amo
nas palavras no que vejo no que me é dado compreender
nos teus olhos que em alturas me parecem dizer

Amo-te pronto acho que te amo.


antonio tropa
338

DEPOIS DO MURO


Depois do muro destruído pela insistência
dos mais ágeis que teimam em passá-lo
num campo amarelado raras árvores
um riacho poluído escorre
entre o verde de canas e silvados.

Além das grades do quartel ninguém pode
passar e um ligeiro medo
paira ali no ar muito pesado.

Seguindo por um carreiro não se vê
ninguém a não ser meio escondido
um homem ainda novo de olhar morto
e a tristeza de nunca ter chegado
a lado algum.

Depois ainda o muro:cal e segredos
ao fundo onde ninguém pode avançar
quintais.

Fica-se assim ali de olhar parado
a ver ao longe os montes muito azuis.

Assim é a vida muitas vezes. sem saída
a única solução é voltar para trás,

antonio tropa
373

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A VIDA É ASSIM MESMO

A vida é assim mesmo
às vezes um desalento
um ternura que vem do fundo da infância
com olhos de pássaro ferido.

O que há pouco era
vertigem de euforia
agora amarfanhado
na sombra.

Regressar à simplicidade da terra
um cheiro doce
essa alegria.

Em qualquer colina do mundo
antes que o coração seja uma pedra
recordar agora
o que dantes se vivia.

antonio tropa