Quero uma mulher. Preciso. Um alguém que me surpreenda E cuja presença me preencha E olhos falem mais que a própria voz
Quero um amor não destinado Bem casual, meio arbitrário E num enlance sem propósito Afundar-me no seu carinho despótico
Uma parceira para a alma Que para vida sirvo eu Aquele ponto de luz no breu Que saiba viajar mesmo que na cama
Que me pinte à gosto do prazer Imponente Sob a lua Que me desnude de caprichos e eu também a encontre já nua
Uma mulher que não se lhe encontrem barreiras Mulher apenas. Que se entregue aos prazeres sem mordaças Que me guie e me apresente de hasta em praça Uma mulher apenas Sem voltas, com bastante curvas... Assim, uma assim bem sexy Que queira sexo de segunda a segunda.
Conheço a voz do teu silêncio As noites em que me perdia em desespero Buscando-te no além, O vazio da tua ausência, a eternidade de um minuto Conheço também
Ainda te espero A cada crepúsculo, vejo-te em todas sombras nas ruas Na penumbra dos meus sentimentos, te busco, te procuro... Nos sussurros de gente que vai e vem No chilrear das aves nas tardes de Abril Nas noites frias e sem luar
Ainda te espero A cada aurora, vejo-te em todas sombras nas ruas Na penumbra dos meus sentimentos, te busco, te aguardo na demora... Nos sussurros de gente que vai e vem No chilrear das aves nas tardes de Abril Nas noites frias e sem luar No farfalhar das árvores pelas avenidas Nos ecos perdidos de vozes tatuadas pela cidade No negro, no azul, no dourado do sol eremita somando meus dias, subtraindo minha vida
Ainda te avisto Na solidão que acompanha o meu rosto Te choro, nas minhas lágrimas incessantes e Constantes nesse meu destino plangente Pois meus olhos são janelas de meu coração Permeável
"Perdão."
Atila J.
70
Deus ❤ Satanás
(deus e satanás) Distante do acaso Devem ser, de algum jeito, muito amigos O divino, embarbado, no trono sentado em relaxo De momices relapsas que agitam mares e quebram aço Serviu ao mundo, em pequenos bocados, não paz, Desgraças e infortúnios bem temperados à mão do diabo que, penso, coitado pelo inferno encarregado Provou do saibo vilanesco e gostou Pobre capacho!
Estes deves ser aliados... Sim, bem amigos Pois, está-se mesmo a ver Que por uma árvore que nem foi ideia nossa Talou-nos o destino e jogou-nos à casca da rolha
Quando um é amado, o é outro temido Revezando episódios de herói e bandido Quando o barbado se acagaça, o outro é acusado Pois já não há outro de laia angélica Que ouse usar a truculência para o bem do Seu criador, deus-pai e comparsa
Mas, seguindo nessa desgraça, O vermelho, chifrudo, com o bidente portado Assim pintado pelo mundo, no manto de malvado se fez de vilão a bem do seu amigo Prometendo e assombrando Rios de desgraça e tribulações
Num dia ensolarado, como doutra vez no Éden O antes da luz Mais coitado que culpado, rei dos enigmas e tabus, Ao filho do amigo chegou crapuloso, lançando charadas e piropos, pedras a preço de pão, demandando traição, reinos no lugar de adoração Bem tentou, só negas porém Do emanuel messias miraculoso quando convém
O amigo, conhecedor e maquinador do esquema, ria-se no flavescente e lato lar impérvio A custo das respostas do bastardo do carpinteiro, corno da vida e trabalho, já morto e com a prole aumentada, imagino, sob a raiva do casamento arranjado... Foderam a vida do coitado Mas bem antes a mulher Calhorda que em prantos jurou sequer Ter sentido a porra sacra Adentrar-lhe o almo vaginário
Muita coisa por baixo dos panos São amigos e pronto os filhos da puta!
Atila J.
32
Rebentos de Paradoxo
Costurei as saudades Com as mesmas lágrimas de sempre Ao sabor do silencio que te reguei outra vez Essas flores que você fez jardim
Flores são belas, mas têm a sua crueldade Beleza e força são a mesma coisa E não hesitam ferir igualmente aqueles que ousam arrancar as esperanças guardadas em cada pétala Por mais que passe o tempo, e as estações se perdurem Quanto mais belo, mais letal Destino fatal
Vou regar essas flores com o meu amor, beijá-las E amadurecerão sob a ternura que ainda tenho para dar.
Atila J.
62
À Mão Poeta
Como se as palavras voassem Poemas são vozes aladas Gritos que ecoam da terra devassa Que morrem no papel e como poesia nascem
São desejos sorvidos sem pressa Saudades escritas no efémero tempo Nascidas sob forma de tinta E sentidas quando sorvidas por olhos atentos
São os amores proibidos de outra pessoa Paixões proíbidas por razões que desconheço Sentimentos bombeados verso a verso Por um eu condenado a outros fazer sorrir A dessentir na eternidade dos escritos Traduzidos em choros silentes de palavras que Como vozes com asas, voam Poesia nascida dos olhos Quando a boca se cala, poesia
Atila J.
62
Diva Luar
Derramei a lua sobre teus poemas E não mais fui infeliz Pintei-a como em meus versos sublimes Beijei-a, amei o luar nos lençóis da noite
Fui manhã e hoje renasci Carregado na brevidade da tênue brisa No calor da madrugada, amainando sob Teus pés, curando minhas feridas Dei amor e mais recebi, fui luz Direcção de caminhos para quem ousa seguir Escape, saída, beijo, carinho, despedida... Sou mais, maior que minhas antigas metas Semente, flor, jardim, floresta...
"Te amo, vida" Escrito na saudade que já se foi Tatuado na lembrança transportada por aí Largada pelas ruas, pelos bares e lugares Te amo, quando de novos amores Nascem novas saudades, do que ainda não temos, de tudo quanto ainda não vivemos "Te amo, vida"
Semeei minhas rimas sob o luar, mãe Para te ver crescer radiante e divina Para amar cada dia na lembrança infinita Em cada página da minha vida És minha poesia Em cada saudade, minha poesia Porque amar é adiar a despedida...
Atila J. ❤ Para minha mãe
57
Meninos de Rua
Nessa cidade que adormece perseguida pelo tempo Sob a pintura da luz do luar De olhos virados para o amanhã Estamos nós Entregues à sorte da vida Trajando lágrimas, saciados pelo vazio Jogados nas estradas, com fome e frio Estrelas que não brilharam, perdidas pelo caminho
Nós, que construimos sonhos acostados no papelão Que jantamos não, vadios e sem pão Nós, nas manhãs sem orvalho, Manhãs de fome e frio e vazio Rabiscos de um deus que nos descartou e nos doou ao caralho, e à puta que nos pariu
Nós, que polimos os pés que traçam o futuro Que desenham ruas e vielas, que nos fazem a cama Nós, sem sonhos nem pão Meninos de rua, dormindo no chão...