Poema a Dinalva Conceição
a bala
nem sabia
que Dinalva
não morria
seus olhos
fitavam a história
como um abraço
impresso na memória
e o dia
com o jeito do sempre
bordou Dinalva
nos ombros do tempo
Martelo introjetado
o martelo agalopado
no contracanto do verbo
é assim como um recado
traçado a pau e a ferro
que no tapete da língua
desliza o dom da palavra
como se fora um presente
que o nordeste espalha
e o cantador esculpindo
a paisagem do seu interno
despeja um som peregrino
nas costelas da américa
cantar é só um instinto
a que o homem se entrega
rural memento
a enxada
beijando a terra
rasga a pátria
num carinho agrário
dos leirōes que medram
o camponês
regente confesso
escreve de si no roçado
como se fora um verso
o tempo pacato
na sua rural textura
alinhava as horas
nos ombros dessa luta
Paisagem matinal
farsesca
a manhã desponta
com restos da noite
em suas sombras
o bem-te-vi,
entoando loas contritas,
assuntando o tempo,
tenta acordar a vida
e o homem, na calçada,
em larga inadimplência
tenta acordar da fome
em sua magra paciência
poema em franca distopia
que o poema
viva o ritmo cabralino
de parecer descaso
do que seja íntimo
que o poema
dê-se ao exato ofício
de por em dúvida
as léguas do infinito
e que despeje destroços
de seus indícios
nas larguras que traga
nos verbos que consiga
o poema quando ainda é laço
é distrato vigente dos nós da vida
Retrato citadino
na fila, como postes,
largados pelas rua
os homens transitam
verdades e culpas
as dos débitos da fome
as dos créditos da luta
a realidade,
em voo rápido,
inunda a manhã
com seus contágios
humanos abraçados à vida
convivem todos seus percalços
e desabrocham a história
com a incerteza nos braços
Etária minudência
o relógio
não entende o alarde
dos ponteiros do homem
transitando a idade
falta-lhe o senso
de dar-se confuso
em trafegar o presente
sofrendo do futuro
o relógio pari passu
é só o presente em largo curso
lembrando o passado
aprontando o futuro
Faminta acepção
a fome
é uma dor avara
dá-se à mínguas
no colo da alma
por doer-se tanta
no corpo em que lavra
sua inadimplência
em rasas tripas
põe-se pelas faces
em desumana dívida
a fome instaurada estica
os palmos de vergonha
impostos na vida
Híbrida montagem
híbrida
a guerra litiga
o engano do tempo
no colo da notícia
canhões
em declarada sanha
dão-se aos tiros
da suja propaganda
a morte e a fome
inundam o povo
até que o lucro
esteja composto
da praça em alvoroço
os olhos
postos da janela
jogavam a paisagem
nas idéias
a praça
grávida de povo
discursava pela vida
os verbos do novo
o homem
montado no discurso
guardava nos olhos
o jeito do futuro.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.