e nas encostas do sonho assim como uma nascente o futuro é quase um rio de extravagante corrente que sobe e desce o espaço na vontade do vivente e perde-se inteiro no sono nas cachoeiras da gente
é difícil navegar exato nas oníricas vertentes
103
Do povo como tangente
o povo escrito na praça é um verbo isento da mordaça
os passos ensaiam o futuro como um manifesto valor-de-uso
e a história bóia na rua como uma bandeira exata de todas as larguras
91
Dos reversos tempos do amor
a noite partiu dos olhos da amada e deixou-se derramar como madrugada
o tempo embutiu seu enredo e espalhou-se infinito pelo vão dos dedos
nos edredons do abraço o amor pousou inteiro
186
Inteligência em artificiais escambos
artificial a inteligência estaca nos meandros vocais da máquina
sussura renitente e escolástica algoritmos incapazes da prática
e o homem desata como figurante todos os nós da primitiva e artificial jornada
55
Dos deveres quânticos da fala
no meio da sala como partícula ou onda o futuro habita a matéria como uma aguda sombra
o tempo exposto a impropérios esquece a performance do novo e do velho
e o mundo gravita quântico todos os sonhos em que estejamos
74
Caminhar em clara insistência
e quando alinhava os degraus que consumia a escada era só o beco que a vida permitia
e toda a caminhada pelas ladeiras impostas era só um acostumar-se a desrespeitar todas as portas que a luta teima em colocar quando o futuro é a resposta
os passos são só detalhes do peso que se suporta
65
Da propriedade em mundial avença
a propriedade privada em seu recato esconde a origem dos seus pactos
fogem-lhe da memória antigos fatos da pertença geral dos seus estados
e o mundo explode todos seus enfados na disputa da vida pelas antigas vias do contrato
139
Paisagem avara do torturado
suas mãos grávidas de sangue cuspiam manhãs no futuro envoltas em sonho e o fogo do coração lanhado e em farpas queimava o medo como aval do segredo de todos os camaradas
81
Usucapião vivente sem escalas
a vida tangida em vagas nunca deixa os mares de suas marcas
e flui no tempo como jangada dos lemes que cada um maneja em sua fala
e de vê-la só um tempo em recorrente escala o homem esquece a vida nos ombros das palavras
66
Razões internas em claro vaticínio
I
o começo é um fim avesso ambos medem-se pelo tamanho do medo
o fim é o começo de tudo o começo é o fim do nada basta molhar a palavra com a certeza da alma e tanger como sempre os rumos da vontade
II
trago no bolso uma vontade intacta de nunca parecer-me à matemática
de meus ângulos sequer admito que os tenha postos em prontidão e jeito de tornar possível a soma daquilo que vai pelo peito
meu número é intranseunte de frações sempre sonho-me intenso pelas manhãs
fujo de hipotenusas pelo concavo das mãos e moldo meus números com a desfaçatez e a parcimônia de quem nem dorme quando sonha
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.