o bar remói a vida bêbado de gente. Os sonhos postos nos copos têm agora uma feição azeda já não faiscam nos olhos como chama mas ainda murcham líquidos de mágoas no resto de madrugada que se desfaz em cama.
113
simulacro
eis o simulacro: o outro não será tanto que não seja como no meu abraço
eis o simulacro: a manhã nem toda é uma fração do tempo em que se baste
eis o simulacro: razões serão já todas as que eu tenha e as que me constatem
eis o simulacro: nem tudo que é a manhã é um dia que me baste.
74
Renitência
insisto o tempo me repete vitalício nada do que vivo é vestígio de que há um tempo que permito tudo que me tange é um tempo definido em que distribuo à vida todos meus indícios
112
Receita de abará
o feijão fradinho quebrado assim em circunstância de molho, reste como desejo de toda temperança no mais fundo desvão do homem em que se baste a constância
de como Obá enfrenta a vida assim guerreira, assim santa orixá de tudo que atinge orixá de tudo que tange de todos os Xangos da vida em que se resume e se expande
pile-se em pilão sem tempo das paciências em que se arvore empenho de quanto se basta para que não sobre qualquer senão desmanchado assim em pasta de perene e uniforme concisão
como em Oba é contrito o ritmo de sua luta por desfazer-se em Xango de todas suas disputas e construir-se mulher com um quê de aventura
descanse a massa serena na concisão do silêncio e reste como invólucro de tudo que lhe convenha
cebola em faca se agrida cortada assim em pedaços pra que espalhe o suor de vegetal e de atalho em direção aos caminhos das bocas em que se valha
assim como Oba preenche as lacunas de sua espada com o ruído do inimigo que lhe serve na batalha como um alvo itinerante de todas as suas mágoas
e camarões à mancheia como se fosse num mar de um amarelo dendê que faz a vida inventar esse gosto de aventura que a língua teima em achar
e tudo assim em mistura amolgado em pau e colher mexa-se no conteúdo o tudo quanto se quer orixa, reza e paixão Oba, desejo e mulher.
e quando assim travestida em massa de tal afeição embrulhe-se em bananeira em folha e sofreguidão como se fora um lençol de guardar rebelião
é que por Oba se permite sem qualquer contrafação inventar-se um quase pecado na palma de nossa mão
e leve-se ao banho-maria com a certeza tanta do fogo e no vapor das manhãs a cozer esteja envolta com a constância de nós e a persistência do povo
e quando pronto enfim apenas um esteja à mesa com a vontade de todos os outros de todas as Obas que se conheça
144
quero meu amor à mão
quero meu amor à mão como o gesto mais frugal e comete-lo impunemente seja no ócio ou em ofício tal
que nunca se distinga o que lhe seja avesso mas que se traga ao largo de todo o meu medo
e que lhe sinta a carne e uma virtual saudade porque me seja tanto e farto pra distribui-lo à vontade
quero meu amor provisório como a estrela mais precoce que vive apenas da tarde o limite da luz que não lhe guarde
e que lhe sinta as entranhas como um discurso latente que construa versos na praça em gramáticas que nem se consentem
quero meu amor teúdo apesar de coletivo e tê-lo na exata proporção de tudo que eu não digo
quero meu amor subjetivo como os adeuses que não dei e remoê-lo pelo chão da tarde na imprecisão de tudo que não sei
quero meu amor não meu mas que se faça variado e que tenham em mim limite tanto por tanto que se faça vasto
quero meu amor sem ilimites perfeitamente desatado e que encontre pedras em seu leito e que encontre leito em seus enfados
quero meu amor desesperado na falta e na presença farto pelo que de tanto gasto pelo que de menos
45
quereres
quero trazer meu coração á mão como uma bandeira coletiva pra espalhar pelo mundo os pulmões de rosa do meu povo quero medir o infinito com os palmos do meu grito quero arrepiar meus cabelos nas ruas gordas de gente quero dançar com meus irmãos alguma valsa do futuro ou, talvez quem saiba, borbulhar na rua como um hidrante de afeto
quero empalmar minha alegria como os jovens empalmam a vida e os restos de angústia que se entrançam no peito quero lançá-los ao vento pelas frestas dos cabelos. Quero pousar na paz indefinidamente e sonhar todos os sonhos que se dêem a gente.
106
quando idéia
quando idéia, já tão velha a matéria, saio de mim em aventura e chego a dizer-me verbo de estranha criatura idéia que nem seja tanta como o músculo que sustenta a garganta e me propõe ações de esperança.
quando matéria, já tão gasta a idéia, ouso dizer do mundo a razão que meu braço carrega verbos e fardos e trunca a rota da fala com a mesma simplicidade com que a esperança se deita na paz de quem nem sabe.
107
notívaga contração
é que o bordado da noite quando inventa nosso riso cria luas no infinito nesse claro exercício de criar com nossos olhos a aventura de ter vivido.
92
dos avanços da rebeldia
a revolução nunca é utopia tudo que lhe tange é sempre alegria coisa de ver-se o povo inventando a energia de tudo que se enfrente no peito de quem sentia
rosa da manhã urgente lavrada na contramão como se forja um compasso no meio da multidão medindo os passos de todos no rumo do coração.
113
Dos viveres insabidos
sobro de tudo que me cabe a vida é sempre maior do que se sabe
e nem lhe reste a contradição de conformar-se cedo com o que é tarde.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.